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Concurso Hydra de Literatura Fantástica Brasileira

20/06/2011

O concurso Hydra, uma parceria entre a revista eletrônica norte-americana Orson Scott Card’s Intergalactic Medicine Show e o website brasileiro A Bandeira do Elephante e da Arara, visa expor o melhor da literatura fantástica brasileira para leitores em língua inglesa do mundo inteiro.

Um painel composto por três juízes selecionará três finalistas entre os contos de literatura fantástica publicados no Brasil pela primeira vez nos anos de 2009 e 2010.  O conto vencedor será selecionado pelo escritor norte-americano Orson Scott Card, autor dos livros Jogo do Exterminador e Orador dos Mortos e um dos escritores mais premiados de ficção científica no mundo.

Card diz, “Desde a época em que vivi no Brasil no começo dos anos 70, a nação e o povo do Brasil têm sido importantes para mim.  É por isso que em Orador dos Mortos, os colonos são brasileiros que falam português!  Quando voltei para o Brasil há vinte anos para participar de uma convenção de ficção científica, fiz novas amizades e li o trabalho de alguns autores estimulantes.  Continuo seguindo o panorama de ficção científica brasileira, e tenho orgulho que a IGMS facilitará a apresentação de alguns destes escritores aos leitores americanos.  Até agora, leitores americanos têm pouca idéia da quantidade de bons trabalhos que estão sendo feitos no nosso gênero no Brasil.”

O conto vencedor receberá tradução para o inglês feita pelo escritor Christopher Kastensmidt, finalista do Prêmio Nebula de 2010, e organizador do Concurso Hydra.  O conto vencedor também será publicado na Orson Scott Card’s Intergalactic Medicine Show (IGMS), com pagamento profissional.

Edmund R. Schubert, editor de IGMS diz, “Desde o lançamento online da revista, publicamos histórias do mundo inteiro, mas apenas das partes do mundo onde falam o inglês.  Esta oportunidade de buscar literatura brasileira, onde não há apenas um outro jeito de falar mas também de pensar, é emocionante.  América do Sul e América Latina são conhecidas de longa data por incorporar realismo mágico em sua ficção, o que é uma novidade perfeita para a IGMS investigar.   Estou bastante animado para ver as histórias que chegarão para nós deste concurso.”

O organizador Christopher Kastensmidt diz, “A comunidade brasileira de ficção especulativa produziu centenas de histórias excelentes durante os últimos anos, mas poucos chegaram aos leitores de outros países. Esse concurso é uma chance de mostrar aquele talento para o mundo. Intergalactic Medicine Show reconhece que o mundo da FC se estende muito além dos EUA, e agradeço de coração o apoio deles neste evento. Acho que vai ser um grande momento para nossa comunidade aqui.”

O nome do Concurso Hydra vem da constelação.  Sendo um grupo de estrelas com nome de um monstro mítico, a constelação Hydra é símbolo da fantasia e ficção científica produzida pela comunidade de escritores de ficção especulativa.  A constelação atravessa a equador celestial, unindo os hemisférios celestiais norte e sul, da mesma maneira que o Concurso Hydra espera juntar os hemisférios norte e sul de ficção especulativa.  A constelação Hydra também aparece na bandeira brasileira.

As inscrições serão abertas de 01 de julho até 15 de agosto, e todos os autores brasileiros com contos de ficção científica ou fantasia publicados em 2009 e 2010 são encorajados a participar.  O regulamento será disponibilizado em breve no website parceiro Universo Insônia (universoinsonia.com.br).  Não existe taxa de inscrição, e o vencedor receberá tradução do conto para inglês e contrato de publicação na IGMS, com pagamento padrão da revista.

Sobre Orson Scott Card’s Intergalactic Medicine Show

Fundada pelo escritor premiado Orson Scott Card, e editada nos últimos cinco anos por Edmund R. Schubert, IGMS é uma revista online bimensal premiada que publica contos ilustrados de ficção científica e fantasia, histórias em áudio, entrevistas, resenhas e mais.  Autores vão de profissionais como Peter Beagle e David Farland até autores estreantes.  O site da revista é www.intergalacticmedicineshow.com.

Sobre The Elephant and Macaw Banner

A Bandeira do Elefante e da Arara (em ingles, The Elephant and Macaw Banner) é uma série premiada de fantasia situada no Brasil colonial.  As histórias contam as aventuras de Gerard van Oost e Oludara, uma dupla improvável de heróis que se encontram em Salvador.  Notícias, arte e informações sobre as referências culturais e históricas podem ser encontrados no site www.eamb.org.

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Assembleia Estelar, lido e comentado.

13/06/2011

A coletânea Assembleia Estelar, organizada por Marcello Branco e publicada pela Editora Devir conta com 14 noveletas/contos, tem 408 páginas e seu tema está voltado à política e a tudo aquilo que a constitui e a complementa.

Comecei a leitura com grandes expectativas imaginando que o tema proposto exigiria trabalhos muito bem elaborados e necessariamente (não obrigatoriamente) hipnóticos. Não foi exatamente o que encontrei. Surpreendeu-me, sobretudo, encontrar trabalhos com pouquíssimas páginas quando uma das exigências era a de que as narrativas deveriam obedecer ao formato noveleta.

Ou faltaram trabalhos melhores e mais complexos, ou uma flexibilidade de última hora do organizador atingiu níveis estratosféricos.

Assembleia Estelar recebe um BOM pelo conjunto, embora não seja exatamente uma coletânea memorável.

A capa old-fashioned (autor: Vagner Vargas) repete o padrão apresentado por outros livros da Devir. Eu, particularmente, não gosto delas, embora reconheça a qualidade dos traços artísticos do capista. Já estava na hora da Devir se lembrar de que estamos no século XXI. Os anos 1960 ficaram para trás.

As escolhas recaíram sobre autores nacionais e estrangeiros, trazendo-nos trabalhos de Bruce Sterling, Ursula K. Le Guin e Orson Scott Card, além de Fernando Bonassi, André Carneiro, Ataíde Tartari, Henrique Flory, Daniel Fresnot, Luis Filipe Silva, Flávio Medeiros, Carlos Orsi, Miguel Carqueija, Roberto de Sousa Causo e Roberval Barcellos.

Vamos aos comentários.

• A queda de Roma antes da telenovela
Luis Filipe Silva

O que seria se cada votação de projeto de lei fosse transformada em espetáculo, transmitido em rede nacional de TV? Luis Filipe Silva fala de um futuro hipotético onde políticos perfeitamente integrados ao modus operandi da época lidam com um parlamentar cujas técnicas ainda obedecem às velhas fórmulas do século XX, nas quais os debates ainda se sobrepujam a mera análise estatística dos números. Não se trata de uma noveleta com ação e momentos de tirar o fôlego, trata-se de uma abordagem reflexiva que caminha paripasso para um final coerente. Se não arrebata, também não aborrece. MÉDIO

•Anauê
Roberval Barcellos

Trata-se de uma história alternativa onde, em 1980, o Brasil é governado por integralistas e tem a Alemanha nazista como aliada. Esperam por Hudolf Hess, que visitará o país. O autor traz à tona toda a sensação de indignidade e revolta que a política de extermínio de judeus provocou, explorando esse cenário em pleno território brasileiro. O conto começa bem, porém, na medida em que avança, vai descendo a ladeira. Há momentos inverossímeis, pouca habilidade nas cenas de ação (que são ingênuas) e um final apressado (e piegas) que foi decepcionante. RUIM

• Gabinete blindado
André Carneiro

Sabotadores se preparam para a ação enquanto uma das integrantes mergulha em reminiscências e reflexões. Poderia ser uma história bastante interessante se houvesse uma preocupação maior com a trama do que com a literariedade. Eu vivo reclamando a pouca preocupação do escritor brasileiro com a forma, mas também condeno os exageros. Nesse caso, André Carneiro chutou pra escanteio o enredo, apresentando-o de forma fragmentada, e valorizou excessivamente a qualidade técnica. Tratou-se de uma leitura arrastada e aborrecida. RUIM

•Trunfo de Campanha
Roberto de Sousa Causo

Essa noveleta fala de estratégias políticas que pretendem conferir a um único homem poder absoluto sobre o universo conhecido. Parece-se muito com um excerto, um trecho extraído de uma obra maior e mais completa — e isso a enfraquece. A preocupação em detalhar o cenário político desse universo força a narrativa a uma leitura cansativa. Não há pontos de tensão, não há ação (e quando há, não convence). Monocórdia da primeira à última linha parece ter sido escolhida para esse livro em virtude apenas do aprofundamento político que lhe é dada. O organizador ignorou qualquer necessidade de tensão. Final previsível e ingênuo. RUIM

• Diário do cerco de Nova Iorque
Daniel Fresnot

Escritor francês em visita à America do Norte assiste convulsão social onde Nova Iorque mergulha numa batalha contra o resto do país. Narrativa hipnótica, muito bem conduzida, ritmo excelente. O leitor se vê arrastado em meio à trama, ansioso pelo final. Destaque especialíssimo a Jack, o periquito. MUITO BOM

• Saara Gardens
Ataíde Tartari

Esse é o trabalho mais curto do livro. Narra tramas políticas que visam permitir a exploração do deserto do Saara num empreendimento imobiliário. Conhecido por seu estilo despojado, Ataíde Tartari explora alusões a empreiteiras e personalidades contemporâneas. O conto peca especialmente por ser muito curto. Não há desenvolvimento, não há aprofundamento, não há envolvimento. O subterrâneo e os bastidores políticos poderiam ter sido melhor explorados. Quando achamos que o conto está começando, ele termina. Sua absoluta despretensão também o enfraquece. RUIM

• Era de aquário
Miguel Carqueija

Embora seja também curto, esse conto tem um desenvolvimento mais equilibrado. Um senador se prepara para uma importante conferência numa universidade em meio a um cenário distópico e caótico, onde assassinatos e convulsões sociais são regra e não exceção. Boa condução e bom ritmo. Agradável leitura. BOM

• A evolução dos homens sem pernas
Fernando Bonassi

A história discorre com ironia e se revela uma metáfora para a ciranda evolutiva do Homem, que constrói o ambiente de acordo com as suas necessidades, até que suas necessidades sejam o ambiente que o cerca. Atraente sem ser apaixonante, o conto se descobre profético. BOM

•A pedra que canta
Henrique Flory

Uma criança doente se revela potencialmente perigosa quando tem implantado cirurgicamente um dispositivo que a permite enxergar pontos de tensão em estruturas. Será importantíssimo em uma missão de sabotagem que pretende destruir Buenos Aires. Trata-se de uma história bastante interessante, bem contada e com bom ritmo. BOM

• O dia antes da revolução
Ursula K. Le Guin

Noveleta em ritmo de reminiscências, onde a protagonista revive o passado às vésperas de uma revolução. Também como excerto, o trabalho acaba sendo linear demais, não oferecendo os pontos de tensão tão necessários para aprisionar a atenção durante a leitura. Muito bem escrito, porém. Mas basta isso? A mim, não. MÉDIO

•O grande rio
Flávio Medeiros Jr.

Trata-se, sem dúvida, do melhor trabalho dessa coletânea. O assassinato de John Kennedy é planejado muitos anos depois de sua eleição, num mundo mergulhado na guerra. Viagem no tempo, paradoxos e muita criatividade. ÓTIMO.

•O originista
Orson Scott Card

O estudo da origem e complexidade da linguagem na formação histórica do ser humano trabalhado com maestria por Card. A história está baseada na trilogia da Fundação de Asimov e os protagonistas trabalham nos subterrâneos pela formação da Segunda Fundação. Talvez uma das narrativas mais longas, mas nem por isso aborrecida. Card conduz muito bem a história conseguindo prender a atenção do leitor com rara habilidade. Por vezes me flagrei protelando a leitura com medo que ela se acabasse. MUITO BOM

• Questão de sobrevivência
Carlos Orsi

São Paulo, ano de 2030. O caos social implode a cidade, doenças misteriosas assolam a população menos favorecida, governantes não têm pruridos em dizimar massas humanas em nome da ordem. Nesse cenário extremamente caótico um grupo de resistentes toma de assalto um veículo de transporte de leite materno. Dramático e pungente. Carlos Orsi consegue com habilidade narrar uma história assustadora. BOM

•Vemos as coisas de modo diferente
Bruce Sterling

Jornalista muçulmano visita os EUA para entrevistar um político líder de uma banda de rock. Com boa condução essa história bastante interessante nos traz um mundo sociopoliticamente transformado, num tempo em  que os EUA não são mais a polícia do mundo e as terras do Islã se uniram num único Califado. Profético, talvez? BOM

Dedicado à ficção científica, o selo Pulsar, da Devir, alcança a marca de 10 títulos.

27/01/2011

Com a publicação do romance Angela entre dois Mundos, de Jorge Luiz Calife, em dezembro de 2010, o selo Pulsar da Devir chega à marca de dez livros publicados. É um reforço substancial à publicação de ficção científica no Brasil, com títulos particularmente significativos, como os multipremiados romances de Orson Scott Card, O Jogo do Exterminador e Orador dos Mortos; o quarto livro de contos de André Carneiro, Confissões do Inexplicável, a mais volumosa coletânea de FC brasileira já editada; Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica, a primeira antologia retrospectiva da história do gênero no Brasil, e um sucesso de vendas; Tempo Fechado, do escritor cyberpunk Bruce Sterling, romance que antecipou as mudanças climáticas globais; Trilogia Padrões de Contato, de Jorge Luiz Calife, reunindo pela primeira vez três romances clássicos da FC brasileira em um único volume; Anjos, Mutantes e Dragões, o primeiro livro de contos do destacado autor brasileiro de FC e fantasia, Ivanir Calado; e o quarto romance de Calife, Angela entre dois Mundos.

Os Dez Títulos da Pulsar:

1. O Jogo do Exterminador (Ender’s Game), Orson Scott Card
2. Confissões do Inexplicável, André Carneiro
3. Orador dos Mortos (Speaker for the Dead), Orson Scott Card
4. Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica, Roberto de Sousa Causo, ed.
5. Tempo Fechado (Heavy Weather), Bruce Sterling
6. Trilogia Padrões de Contato, Jorge Luiz Calife
7. Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica: Fronteiras, Roberto de Sousa Causo, ed.
8. Xenocídio (Xenocide), Orson Scott Card
9. Anjos, Mutantes e Dragões, Ivanir Calado
10. Angela entre dois Mundos, Jorge Luiz Calife

Os títulos da Pulsar contam com traduções de especialistas em ficção científica como Carlos Angelo e Sylvio Monteiro Deutsch, e artes de capa de artistas talentosos como Vagner Vargas e Felipe Campos. Para o futuro imediato, a Pulsar promete manter o alto nível e a ousadia editorial que a tem caracterizado até aqui.

Alguns dos Próximos Lançamentos do selo Pulsar:

O Último Teorema (The Last Theorem), de Arthur C. Clarke & Frederik Pohl. Um complexo romance de primeiro contato com inteligências alienígenas e de política internacional, é o último livro escrito por Clarke, o grande mestre da ficção científica, morto em 2008.

Os Filhos da Mente (Children of the Mind), de Orson Scott Card. Romance que fecha o primeiro ciclo de aventuras de Ender Wiggin, iniciado com o multipremiado (Prêmios Hugo e Nebula) O Jogo do Exterminador (Ender’s Game), um best-seller com mais de dois milhões de exemplares vendidos no mundo.

The Windup Girl (ainda sem título em português), de Paolo Bacigalupi. O romance ganhador dos Prêmios Hugo, Nebula e Locus de 2009, é um dos mais premiados livros de estréia de um autor de ficção científica, comparável apenas a Neuromancer (1984), de William Gibson.

A Cidade e as Estrelas (The City and the Stars), de Arthur C. Clarke, marcará o retorno às livrarias brasileiras deste que é o principal romance da melhor fase do mestre inglês da ficção científica, um dos grandes nomes do gênero no século 20 e autor de 2001: Uma Odisséia no Espaço.

Assembléia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política, organizada pelo jornalista e cientista político Marcello Simão Branco, é a primeira antologia internacional com esse tema montada no Brasil. Com histórias de André Carneiro, Ataíde Tartari, Bruce Sterling (EUA), Carlos Orsi, Daniel Fresnot, Fernando Bonassi, Flávio Medeiros, Henrique Flory, Luís Filipe Silva (Portugal), Miguel Carqueija, Orson Scott Card (EUA), Roberto de Sousa Causo, Roberval Barcellos e Ursula K. Le Guin (EUA).

As Melhores Novelas Brasileiras de Ficção Científica, antologia organizada por Roberto de Sousa Causo, com novelas e noveletas clássicas da ficção científica nacional: “Zanzalá” (1928), de Afonso Schmidt; “A Escuridão” (1963), de André Carneiro; “O 31.º Peregrino” (1993), de Rubens Teixeira Scavone; e “A nós o Vosso Reino” (1998), de Finisia Fideli.

Trilhas do Tempo, de Jorge Luiz Calife. O segundo livro de contos de Calife, autor da Trilogia Padrões de Contato, o grande clássico da ficção científica hard brasileira.

Conheça os autores que, nos dez títulos do selo Pulsar, alargam os limites de como enxergamos a ficção científica nacional e internacional:

Afonso Schmidt
Jorge Luiz Calife
André Carneiro
Jerônymo Monteiro
Berilo Neves
Leonardo Nahoum
Braulio Tavares
Levy Menezes
Bruce Sterling
Lima Barreto
Cid Fernandez
Lygia Fagundes Telles
Domingos Carvalho da Silva
Machado de Assis
Finisia Fideli
Marien Calixte
Gastão Cruls
Orson Scott Card
Ivan Carlos Regina
Ricardo Teixeira
Ivanir Calado
Rubens Teixeira Scavone
Roberto de Sousa Causo

(Agora, cá pra nós, queridos leitores, colocarem “e outros” na capa foi uma pisada de bola homérica!! Desprestígio total aos demais autores. E tenho dito.)

“Xenocídio”, de Orson Scott Card, sob a ótica de Saint-Clair Stockler.

22/06/2010

Tão logo tive a notícia de que a Devir estava lançando o terceiro volume da saga de Ender Wiggin, corri e fui ler a obra. Afinal, nós leitores brasileiros que não lemos em inglês estávamos esperando essa tradução por quase duas décadas.

Resumo rápido

Xenocídio (O jogo do exterminador e O Orador dos Mortos já foram devidamente traduzidos e publicados no Brasil, pela Devir, se bem que há muuuuito tempo) é o maior e o mais ambicioso livro da série até aqui.

Com pouco menos de 550 páginas, a história agora se subdivide em duas “frentes de batalha”, digamos: o nosso conhecido planeta Lusitânia (na “vida real” jamais teríamos um planeta colonizado por brasileiros com esse nome mas, OK Mr. Scott Card, vamos deixar passar esse deslize…) e o planeta Caminho, de colonização chinesa e taoista até a raiz de sua flora. No centro da história, novamente a família “adotada” por Ender: a geneticista Novinha e sua meia-dúzia de filhos, enteados de Ender, cada um mais brilhante do que o outro. O problema em questão, que faz a narrativa se mover: o vírus descolada, que está intimamente ligado a todo o ecossistema do planeta Lusitânia, é uma arma mortífera que ataca todo e qualquer organismo não-nativo do planeta. O Congresso das Vias Estelares acha-o perigoso demais para existir, com o risco de poder se espalhar pelos Cem Mundos, então envia uma esquadra levando um poderoso artefato – o Doutorzinho – que destruirá inteiramente o planeta, colocando o resto da humanidade a salvo.

Acontece que nós leitores sabemos desde O Orador dos Mortos que Lusitânia, além de lar dos porquinhos/pequeninos (a forma de chamar vai depender da empatia de quem os chama; mas se julgássemos pela capa, nós leitores os chamaríamos de clones de Alfie, o ETeimoso), uma espécie inteligente, é agora também lar de humanos e – talvez o mais importante – lar da única Rainha da Colmeia que sobrou após Ender, o Xenocida, ter acabado com a espécie dos abelhudos – chamados na primeira tradução de O jogo do exterminador de “insecta”, o que prefiro – no primeiro volume da série.

Começa então uma luta desesperada contra o tempo para evitar a destruição do planeta Lusitânia envolvendo Ender, sua irmã Valentine (que chega numa nave com sua família e uma ex-aluna, mais o enteado brilhante e deformado de Ender, Miro), a inteligência artificial Jane, um pai e sua filha, da casta dirigente do taoista planeta Caminho, com a inesperada ajuda de uma criada. Todos tentando descobrir modos de evitar a chegada da armada e a consequente destruição de Lusitânia e seus habitantes.

Há uma questão moral envolvida – que é o cerne do romance – e debatida à exaustão por vários personagens em vários momentos da narrativa: é lícito destruir um planeta e suas espécies para salvar cem outros mundos? Pode-se sacrificar um punhado de humanos para salvar bilhões de outros? O desenrolar dos acontecimentos, e o final do romance, nos dirá.

Coisinhas que me incomodaram

A obra é muito bem escrita e essa sofisticação no enredo, com suas múltiplas linhas que se entrecruzam, é algo desejável desde O jogo do exterminador, que tem um enredo no final das contas muito simples, embora surpreendente.

Seja como for, há coisas que me incomodaram. Algumas na construção da obra, outras nas questões filosófico-religiosas que ela suscita.

Orson Scott Card, sabemos todos, é um mórmon, ou seja, um tipo de cristão só mais um pouquinho esquisito do que o normal. E sua Fé reflete-se, toda inteira, na tessitura do romance: a evangelização dos porquinhos, que havia se iniciado em O Orador dos Mortos, está a todo vapor em Xenocídio. É muito interessante ver todo o ecossistema dos porquinhos (esposas, irmãos, paiárvores, etc.) envolvido com o Cristianismo e usando metáforas bíblicas, mas não sei até que ponto um fanático paiárvore cristão, figura crucial em determinado ponto da narrativa, é de fato um personagem crível, que se sustenta. Para mim, foi um pouco demais. Pequeninos usando trechos do Velho Testamento como metáforas para explicar a sua condição e o seu mundo… Não, a minha suspensão da descrença não foi forte o bastante para engolir isso.

O autor é bastante realista com relação ao Cristianismo e suas consequências em vários momentos da narrativa, mas nunca reconhece o que de fato ele é: um instrumento de manipulação de corações e mentes. O curioso é que nesse terceiro volume da saga, uma outra “religião” é introduzida: o Taoismo, no planeta Caminho. Porém essa religião, que também é uma filosofia, acaba sendo ridicularizada por Orson Scott Card como sendo nada mais do que um mero instrumento de manipulação da casta governante do planeta. Dois pesos e duas medidas: o Cristianismo, com todos os seus zilhões de furos, falhas e crueldades, no final serve para alguma coisa boa enquanto que uma outra religião nada mais é do que formalismo e manipulação. Enfim: nada muito novo. Isso acontece todo o tempo na Fantasia (alô C.S. Lewis!) quanto na Ficção Científica – em especial a de Scott Card – e até mesmo na chamada “literatura mainstream”. Só que me incomodou.

Outra coisa difícil de engolir é a família de Novinha/Ender, que em poucas semanas consegue resolver questões que assombram a humanidade há muito tempo. Um exemplo? A descoberta de uma maneira de viajar mais rápido do que à velocidade da luz. Uma família de meia dúzia de irmãos que deve ser a mais brilhante de toda a literatura, versados em física quântica, química, genética, psicologia, religião, biologia – e nossos descendentes… Que orgulho.

Também a explicação (finalmente!) para a existência e, sobretudo, para a localização de Jane, a inteligência artificial, foi pouco convincente e “resolvida” apressadamente. Acho que o autor chegou muito perto de uma obra de Fantasia, com a sua “explicação científica” para Jane.

Um grave erro cometido por Scott Card, agora no nível da construção da narrativa, é a de chamar à ação determinados personagens no início do livro que terão, mais tarde, impacto e importância zero na narrativa, terminando como não mais do que figurantes de luxo. A promissora presença da irmã de Ender, Valentine, e do seu enteado deformado, Miro, são um exemplo disso. O primeiro contato dos dois é descrito em páginas antológicas, mas depois sua utilidade na narrativa desaparece, melancolicamente. Parece que Scott Card usou Valentine apenas para agradar aos fãs, que certamente reclamariam de sua ausência, e não por ela ter uma real importância para o conjunto da narrativa. O mesmo acontece – só que de forma muito mais lamentável e capenga – com a “ressurreição” de Peter, o Hegemona, o irmão psicopata de Ender e Valentine. Sua reaparição num esquema meio “deus ex machina”, andando pra cima e pra baixo usando frases pretensamente sarcásticas e cheias de veneninho, foi patética. Me lembro do menino Peter de O jogo do exterminador: ele me deu medo. Muito medo. O Peter de Xenocídio é um playboyzinho ridículo. E o pior: ele vai embora com a personagem mais legal do romance!? Poderia citar mais alguns personagens que têm sua importância completamente diluída no decorrer da narrativa, mas creio que vocês já entenderam.

Parece que uma vintena de personagens foi demais para Scott Card lidar – se bem que, repito, já era hora de a saga de Ender se encorpar. Estou curioso para saber como serão os próximos volumes. Nos EUA já foram publicados 6 romances da chamada “Saga de Ender”. Há também a série “Shadow”, do mesmo universo, mas que segue em paralelo e não pertence à linha narrativa da Saga. Orson Scott Card é um brilhante escritor, cheio de inventividade e fôlego, e provavelmente as próximas histórias serão melhores. Espero que ele tenha se lembrado da afirmação bíblica do “a quem muito é dado, muito será cobrado” e tenha havido um cuidado maior na manipulação dos personagens dos próximos volumes.

Espero que os leitores brasileiros que só leem em português não tenham que esperar mais 20 anos para descobrir isso.

Uma última observação

Desta vez, a Devir está de parabéns: a revisão – que é o calcanhar de Aquiles das editoras brasileiras que publicam obras de FC e Fantasia –, fora um ou outro deslize, o que é normal numa obra de mais de 500 páginas, está muito boa. Percebe-se que houve um cuidado especial nesse quesito. A capa não é lá essas coisas, mas está de acordo com as dos outros romances de Ender publicados aqui. Se bem que a nave da capa não é fiel à construída pela Rainha da Colmeia, que a rigor nada mais é do que uma caixa com uma porta, sem nem mesmo sistema propulsor – enquanto que a da capa está nitidamente flutuando por meios próprios. Mas quem disse que uma capa tem de ser fiel à obra, não é mesmo?