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Quem é Ivan Carlos Regina?

15/03/2011

Ivan Carlos Regina, a direita nesta foto, nasceu em Bauru, tem três filhas, plantou trinta e três árvores e escreveu treze livros. Entre estes, estão textos sobre vinhos, espiritualidade humana e poesia. Na área da ficção Científica, foi sócio fundador do Clube de Leitores de Ficção Científica, fundado em 1985 por Roberto Nascimento, que, juntamente com seu fanzine “Somnium”, ajudou a impulsionar a chamada “Segunda Onda” deste nosso gênero literário, (anos oitenta) seguindo-se à chamada “Geração GRD”, que teve este nome devido ao editor Gumercindo Rocha Dórea, nos anos sessenta. Ganhou as duas primeiras edições do “Nova” (1987 e 1988), prêmio atribuído aos melhores contos de FC nacional. Em junho de 1988 lançou o “Manifesto Antropofágico da Ficção Cientifica Brasileira”, iniciando um movimento pela revalorização de nossa temática dentro de um universo de FC com características brasileiras. Estreou com a inclusão de um conto na coletânea “Enquanto houver Natal”, tem contos dentro das coletâneas “Estranhos Contatos”, “Os melhores contos brasileiros de FC”, “Outras Copas, Outros mundos”, “Vinte voltas ao redor do Sol”, etc. A maior parte de seu reduzido trabalho está no livro “O Fruto maduro da Civilização”, tendo escrito sobre Stanley G. Weinbaun para a Coleção Império e traduzido o conto “Os que se afastam de Omelas”, de Ursula K. Le Guin. Foi jurado do último Concurso de FC brasileira da Devir Editora. Escreve pouco atualmente, mas, como diria Lobato, a velha quimera, de vez em quando, ainda solta umas fumaçinhas pelas ventas..

É só outro blogue: O Manifesto Antropofágico escrito por Oswald de Andrade vem com uma proposta de assimilação enquanto o seu nos remete à ideia de repúdio às influências das literaturas estrangeiras, principalmente a anglo-saxônica. Não lhe parece, hoje, que essa proposta tem muito de romantismo ou até de ingenuidade? Você ainda se mantém literalmente fiel a ela?

Ivan Carlos Regina: Há que, inicialmente, se estabelecer a real posição relativa do “Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira” enquanto texto.

Não podemos perder de vista que ele nasceu como um poema, uma brincadeira com o original de 1922, e que foi publicado num fanzine em 1988, um ano depois do desastre radioativo ocorrido em Goiânia.

Nesta ocorrência, um grupo de pessoas do centro do Brasil desmontou uma cápsula radioativa usada originalmente para radioterapia, se espantaram com o aspecto e brincaram com o cloreto de sódio, espalhando um círculo enorme de morte e sofrimento.

Enxerguei na ocasião que este incidente era uma metáfora perfeita para o que eu pensava (e continuo pensando) sobre a utilização da tecnologia pelo povo brasileiro. O que era para salvar vidas (era um equipamento médico), matou. Por isto escrevi no Manifesto: “Emulamos tecnologias sem conhecê-las”.

Recentemente, em entrevista publicada, o poeta e crítico literário uruguaio Eduardo Milan assim se referiu à produção da cultura na América Latina – “Passamos da escassez à superprodução de bens culturais cujo valor desconhecemos”.

É disto que umbilicalmente trata o Manifesto. Causa espécie aos brasileiros que viajam constantemente  ao exterior, a maneira como somos tratados aqui dentro do Brasil, e, só para ficarmos com dois exemplos, paro nos transportes coletivos e nos serviços bancários.

“O brasileiro não vive e não é servido, finge ou sofre”.

Os serviços bancários, os da área da saúde, os de informática, etc, não são efetivamente prestados, mas somente cobrados.

Assim nossa relação com a tecnologia não pode ser de amor, mas sim de ódio e repulsa. Nem a máquina de vender refrigerante funciona aqui.

Nós, brasileiros, vivemos permanentemente dentro do ambiente psicótico criado por Phillip K. Dick, com clonagem de cartões e policiais corruptos…

O simulacro, o ersatz, o falso, o fake, fazem parte de nossa vida cotidiana. Numa rua badalada de São Paulo, muito conhecida, você pode comprar imitações de produtos de marcas famosas. Uma bolsa original, por exemplo, custa alguns milhares de dólares. Você pode comprar uma falsificação muito boa por uma centena de dólares, mas o mais impressionante é que você pode comprar uma falsificação vagabunda por uma dezena de dólares. Assim, fica estabelecido o falso do falso, uma criação tipicamente brasileira… o que você não pode é passar a vontade de ter a bolsa e não ter orçamento para comprá-la…todos os desejos são atendidos, falsamente…

Muitas vezes acredito que o Brasil não exista como coisa real, é apenas uma ficção ou ilusão coletiva criada por nós, brasileiros, uma espécie de simulacro de um país. Talvez seja por isto que o resto do mundo nos desconhece.

Publicado primeiramente como poema ou brincadeira, o Manifesto da FCB foi imediatamente alvo de centenas de críticas, pró ou contra seu conteúdo.

Ouso afirmar que é o texto literário mais discutido dentro da FCB. E por quê?

Porque era necessário. Precisava ter existido neste país e naquele momento. Não sou crítico literário, mas simplesmente autor. Enquanto colaborei, contudo, com Roberto Nascimento, o idealizador não só do Clube de Leitores de Ficção Científica mas também do “Somnium”, seu fanzine, pude perceber que a grande maioria dos contos de ficção científica que nos chegava às mãos era de qualidade horrorosa, horripilante. Não eram só ruins em sua essência. Eram principalmente cópias deslavadas dos clichês do gênero, sem nenhuma criatividade. Estávamos imitando o pior dos gringos.

Oras, acreditar que no ano 4.872 todas as naves serão norte americanas e as mulheres servirão cafezinho na ponte de comando usando mini saias coloridas  é atentar contra a menor das inteligências constituídas. Este era o padrão, mas o panorama tinha que mudar.

Assim, enquanto o pessoal de 1922 acreditava que estávamos presos a modelos literários estrangeiros,  portanto produzindo literatura estéril, constatei que, ao menos para a FCB, a liberdade de criar nosso modelo não havia ainda sido decretada.

Não tínhamos a alforria (e logicamente menos ainda o orgulho) de ser brasileiros. Quando eu e outros autores começamos a por no comando da astronave Paulos, Robertos, Marias da Penha, Dolores ou Josés, fomos chamados de loucos, onde já se viu um conto sem James, Patrick ou Evans?

Isto para ficar na superfície dos fatos, na forma, na moldura do enredo.

Como dizia o Manifesto da FCB, queríamos ser (e fomos) uma revolução do conteúdo.

É importante ressaltar que ganhei as duas primeiras edições do Prêmio Nova, o mais importante de sua época. Com um conto ainda dentro do padrão “anglo- saxônico” de escrever, o “Pela valorização da Vida” abordava um universo onde partes de seres humanos eram clonados para substituir trabalhadores integrais, e se revoltavam, pois todos nós, seres humanos, caminhamos para a liberdade e sermos íntegros com nós mesmos.

No segundo ano ganhei novamente, usando a publicidade como pano de fundo, e o conto “A derradeira publicidade do hebefrênico Alfredo” era, em sua essência, um conto brasileiro.

Não basta, porém, demonstrar nem dizer. Quando os ouvidos estão tampados pelas mãos, é necessário gritar e exagerar.

Por isto escrevi  “O Caipora Caipira”, texto descaradamente antropofágico, ilustrativo, numa espécie de colagem exaustiva do arsenal proposto. Ele é estranho, aborrecido, e ao mesmo tempo mágico. Mistura tecnologia com folclore, humor com ritmo, tem uma evolução, um andamento sincopado que remete imediatamente à brasilidade.

Com ele fui vice-campeão do Prêmio Nova em sua terceira edição, acertadamente dado ao Bráulio Tavares. Foi o vice-campeonato mais comemorado da história deste país, pois o recado tinha sido dado.  Era possível, e ainda é.

Agora, não tenho repúdio algum da FC anglo-saxônica (leia-se norte americana e inglesa), sem dúvida a melhor e mais importante do mundo. O repto é chegar à qualidade dela.

Alguns amigos, inclusive, me criticam por ler pouca ficção científica brasileira. Parafraseando Churchill, em matéria de FC sou um leitor muito simples, contento-me somente com o melhor.

A vida é muito curta para ler porcarias, sejam elas brasileiras ou estrangeiras. Como disse Antonio de Alcântara Machado, na primeira Revista de Antropofagia: – “O antropófago come o índio e come o chamado civilizado: só ele fica lambendo os dedos”.

Assim, curto o Saci Pererê, a Mula sem Cabeça e o James T., todos eles arquétipos coletivos de nossa viagem rumo ao infinito de nossa raça.

Não houve romantismo ou ingenuidade na proposta original do Manifesto da FCB.

Seria mais interessante vê-lo como um remédio, um antibiótico, que veio para curar a septicemia momentânea do gênero, e conseguiu-o.

***

É só outro blogue: A busca por uma literatura com identidade nacional, valorizando, sobretudo, a nossa rica cultura é válida. Mas apegar-se a essa busca como se ela fosse, per si, a salvação de nossa literatura é um tanto quanto exagerado. A liberdade de criar permite que exploremos quaisquer cenários, mesmo aqueles que nos foram trazidos por culturas estrangeiras. Você não acha que a boa literatura de gênero está além dos limites de fronteira?

Ivan Carlos Regina: Após a eclosão do Manifesto Antropófago de 1922, ocorreu uma cisão entre seus membros, alinhando-se ideologicamente seus contendores com novas ideias políticas vindas de ultramar. Esta divisão mostrou-se, na prática, acima dos ideais de brasilidade que os levaram a se agregar debaixo de uma mesma bandeira, e, embora os continuassem praticando, a cisma foi inexorável.

Após o Manifesto da FCB, em 1988, ocorreu algo semelhante, ainda que sem caráter político. Uma facção contrária se mostrava partidária de uma FC sem fronteiras, pugnava que este gênero literário é, por excelência, a saga da humanidade como um todo, e, portanto, acima de quaisquer nações ou países.

A outra facção radicalizou, propondo uma literatura com modelos, molduras, cenários e enredos brasileiros, posicionando-se como uma espécie de bastião ou baluarte da brasilidade.

Para ser sincero, ambas estavam certas, embora o embate produzido tenha sido profícuo e deixado algumas sequelas.

Talvez a FC seja um gênero perfeito em si próprio, enquanto idealizador das novas tentativas que o homem fará para completar sua missão no Cosmos, ainda que menosprezar que existam culturas completamente diferentes é grossa besteira.

Tem a velha piadinha do mineiro que, chegando a um país estrangeiro, ouviu de um cidadão local: – “Aqui só temos machos”, ao que o “mineirim” retrucou – “Lá nas Geraes, metade é ôme e metade é muié, e nos damo muito bem!”.

Talvez possamos criar um modelo brasileiro de explorar o espaço em conjunto com outras nações, coisas que alguns acham impossível.

Já tivemos um astronauta brasileiro, nossos conterrâneos têm se mostrado ótimos pesquisadores, talvez a primeira nave tripulada a deixar o Sistema Solar seja brasileira… ainda que uma grossa comissão tenha sido paga “por fora” por seus fabricantes aos políticos que aprovaram a viagem…Quem sabe?

Somente a busca por uma literatura de FC brasileira não a salvará. O que temos que perseguir é qualidade. Ainda resta a ocupar nossos nichos e cenários com a mesma competência que outros o têm feito.

Chama a atenção a grande quantidade de romances de FC ambientados no Brasil (especialmente na Amazônia), escritos por autores de língua inglesa. Eu diria que eles “descobriram a riqueza de nosso ambiente”, fato que raramente o fazemos, limitando-nos a exemplos como o Roberto Causo que insiste em “marcar território”, ambientando seus romances em cenários tipicamente brasileiros como a floresta.

Há um verso de uma canção típica chilena que diz – “A rosa, quando é botão, há de tomá-la”. Infelizmente, não estamos colhendo nossas próprias flores, e outros o têm feito.

***

É só outro blogue: Você tem acompanhado a evolução de nossa literatura de gênero desde os anos 80? Tem lido os autores contemporâneos? Como você avaliaria a literatura que fazemos hoje em comparação a que era feita na sua época?

Ivan Carlos Regina: A chamada “Geração GRD” foi aquela que nos inspiramos para criar. Autores como Jerônimo Monteiro, Rubens Scavone, Fausto Silva e Nilson Martello atingiram uma grande maturidade no gênero, deixando trabalhos de ótima qualidade, graças ao esforço pessoal de Gumercindo Rocha Dórea.

A geração dos anos oitenta, posterior à GRD, encontrou um cenário desolador. Como já disse, a qualidade dos trabalhos era péssima.

Por assim dizer, reinventamos a roda de escrever. Alguns poucos nomes me vêm à memória como bons autores de FC, como:

– Roberto de Souza Causo, cujo trabalho de divulgador do gênero acaba se sobrepujando à alta qualidade de seus textos;

– Bráulio Tavares, outro cujo destaque vem mais do desempenho como agitador cultural do que graças a seus inegáveis dotes de bom escritor;

– Roberto Schima e Cid Fernandes – autores bissextos, que por não estarem “na mídia” acabaram relegados ao segundo plano;

– Carlos Orsi Martinho – se aplica o já dito, alta qualidade literária e pouca divulgação.

– Fábio Fernandes e Lucio Manfredi, autores herméticos, com trabalhos maravilhosos mas poucos conhecidos do grande público

Poderia citar mais um ou outro, mas seria mais pelos seus desempenhos na mídia do que pela qualidade literária de seus trabalhos.

Somos poucos, estamos no deserto. A geração dos sessenta teve seu Moisés, o Gumercindo, que nos trouxe uma tábua de dez grandes livros de FC.

A nossa geração preferiu o silêncio, optou pela cizânia, não houve união. Alguns poucos trabalham pela Ficção Científica no Brasil.  A maioria optou por fazer marketing pessoal de seu próprio nome, muitos pagando para publicar livros de qualidade duvidosa, na vã tentativa de que fossem guindados ao panteão da imortalidade pela escassez de concorrentes.

A vida não é assim.

Sentimos falta de um elemento aglutinador, uma nova casa editorial específica do gênero de FC, ou mesmo de uma universidade que pudesse abrigar sob seu teto nossas discussões e aspirações.

Não temos mais críticos literários, aí incluso o próprio “mainstream” da literatura geral. Paulo Franchetti, em recente artigo intitulado “A Demissão da Crítica”, nos ensina – “o crítico literário – tanto o da imprensa quanto o da universidade – é, para os escritores de hoje, uma nova espécie de colunista social”.

Assim os críticos e os escritores, ao invés de se preocuparem com a qualidade de seus escritos ou sua bagagem literária, estão mais interessados em registrar seus comentários no Facebook,   Orkut e Wikipédia. Eles creem que serão julgados não pela qualidade intrínseca de seus trabalhos, mas pela sua atuação como agitadores literários.

Talvez por isto, pela falta de uma referência editorial ou acadêmica, toda geração brasileira tem que partir do zero, reinventando-se a si mesma.

Fiz parte do júri do último concurso de contos de FCB, lindamente patrocinado pela Devir, e constatei que:

– existiam trabalhos péssimos, de gente que, claramente, se ressentia da ausência de um paradigma literário ao qual acima me referi.

– existiam trabalhos ótimos, muito bem escritos, reafirmando o que eu penso que o brasileiro tem um grande talento, uma vocação especial para escrever FC.

De certa maneira, a lei de Theodore Sturgeon continua válida: 90% de tudo é lixo, e somente 10% dos trabalhos merecem serem lidos e publicados. Nos Estados Unidos da América, o autor “aprende” a escrever FC e os ruins e péssimos tornam-se medíocres, fazendo trabalhos literários razoáveis.

O grande autor já nasce feito pela vida, não há quem ensine a escrever, somente acredito em ler (de tudo) e depois vomitar o texto pronto.

É assim que penso.

Dos brasileiros já falei, embora, ressalto, não seja um crítico literário, pode ser que existam bons jovens autores por aí, talvez ignorados pelos motivos que já expus.

***

É só outro blogue: Quais são suas referências literárias e quais autores nacionais contemporâneos são os seus preferidos e quais autores da chamada segunda onda mais o impressionaram?

Ivan Carlos Regina: Sou um leitor inveterado, gosto de tudo, mas só do melhor. Procurei trazer para a Ficção Científica temas e sensações raramente vistos no gênero, como: futebol, diversidade sexual, samba, poesia, obsessões psicológicas, sátira, humor, escárnio, filosofias orientais.

Escrevi pouco, mas estou contente com o que fiz. Sou um pobre homem de Bauru (parafraseando o grande Pedro Nava) e nunca fui a um Curso de Letras. Vivi minha adolescência nos anos sessenta, os mais contestadores que jamais houve. Li toda a geração “hard” de FC e, quase na mesma época de seus criadores, pude descobrir a nova FC “soft”, e saber que o homem podia ser mais do que uma máquina, talvez feito de cuspe, sangue e sêmen, como provavelmente Ginsberg o disse melhor nalgum porão de São Francisco. Bebi da água da contracultura e da mesma fonte que eles, e Blake foi meu padrinho de batismo.

Assisti Ionesco, Becket e Arrabal saírem do anonimato para se tornarem clássicos, e isto não foi nenhum absurdo. Vi a poesia dizer cada vez mais, para depois tornar-se subitamente muda.

No âmbito circunscrito da FC, do qual estamos nos referindo, é inegável dizer que adoro, e provavelmente tenha recebido influencias de:

– Robert Sheckley, pelo humor e irreverência de seus textos;

– Phillip José Farmer, pelo senso de maravilha de seus romances, e, principalmente, pelo seu lado “noir”, pouco conhecido, dos trabalhos como “Relações Estranhas “ e “A Imagem da Besta”;

– Robert Heinlei, pela sua evolução, de autor “hard”, para depois escrever “Um estranho numa terra estranha”;

–  Phillip K. Dick, pelo experimentalismo de seus textos e pela visão do mundo, paradoxalmente perto da nossa;

– Stanley G. Weinbaum, para mim, o paradigma do gênero, o autor que, se não tivesse morrido prematuramente, teria unificado as duas tendências de FC numa só magistral corrente;

– Úrsula K. Le Guin, uma autora que sempre  me faz pensar na importância do gênero para o futuro do mundo.

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É só outro blogue: Você tem escrito? Existem projetos novos seus, aproveitando a recente expansão do mercado editorial de gênero?

Ivan Carlos Regina: Um conhecido divulgador de FC, o Marcelo Branco, sempre me questiona por eu “ter virado as costas para a FC”, pelo fato de ter escrito pouco.

Talvez ele, como muitos, cobre de mim o fato de eu não ter virado um divulgador de meu próprio trabalho. Digo, insisto, repito: nunca paguei para publicar meus contos de FC (não estou dizendo que isto é errado), ao contrário, tenho recebido, ainda que pouco.

O trabalho que tentei fazer foi alargar as fronteiras das possibilidades do gênero enquanto autor brasileiro e do meu tempo.

Ser autor de FC no Brasil não é gratificante, exige muito sacrifício (somo um povo estoico), ou muita vaidade pessoal. Não tenho nem uma nem a outra qualidade, sou um lotófago (ver conto de Stanley G. Weinbaum com o mesmo nome).

Tenho escrito outras coisas, como livros sobre vinhos ou poesia ou mesmo um, curioso e que me consumiu cinco anos de puro prazer, no qual recrio receitas literárias a partir da emulação de grandes autores da língua portuguesa. Por ser de gênero inclassificável, talvez “ficção gastronômica”, não consigo muito espaço para publicação, mas continuo tentando, e talvez consiga em pouco tempo.

É pena que os remanescentes desta luta cultural por uma melhor FC brasileira não se unam para produzir o ambiente literário profícuo a um desenvolvimento genuíno do gênero.

Enquanto isto, os velhos dinossauros, como eu, sobrevivem no deserto da mediocridade literária, na qual estou incluído. Sozinho, abandonado e sedento, mas com uma tiara verde e amarela. Um brontossauro de chapéu.

Ou talvez um mamute congelado, com a bandeira brasileira engalanada nas patas, aguardando novos  tempos ou a morte, sinônimos do que vier primeiro.

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