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“Sense of wonder” e malabarismo estilístico.

16/09/2010

O diálogo abaixo surgiu após um comentário do Saint-Clair na postagem anterior. Exemplifica a maneira como interpreto as narrativas herméticas que pouco ou nada me acrescentam. Não acredito no sense of wonder pelo sense of wonder. Ele não serve como justificativa para si mesmo.

Todos sabem (pelo menos deveriam saber) que escrever fácil é muito difícil. Entendam como fácil uma historia (estamos falando de literatura de gênero) compreensível, com argumento inteligente, boa prosa, gramaticalmente correta, fluida, bem construída, que arrebate o leitor, que o transporte. É isso, afinal, que ele quer ao ler histórias com enredo.

Ah, mas literatura de gênero precisa de enredo, necessariamente? Eu acredito que sim. Senão não seria “de gênero”. Malabarismos linguísticos só são interessantes para uma pequena parcela de “iniciados”.

Tudo bem que o enredo não precisa ser linear. Pode ter uma elaboração que a torne única ou destacada entre as narrativas mais tradicionais. Mas isso ainda não tira dela a obrigação de interagir com o leitor, levando a leitura a uma conclusão satisfatória.

Tibor:

Eles escrevem bem, sim. Mas me incomoda que tentem escrever usando malabarismos estilísticos. Literatura de gênero é, apesar da redundância, literatura de gênero. EXIGE argumento, EXIGE enredo. Ignorar isso é tentar fazer um mix com o malabarismo circense de parte da literatura maisntream. Ambos ficam corrompidos nessa tentativa. Tanto os leitores do realismo vão torcer o nariz pro trabalho, quando os leitores do gênero. O que parte desses autores acaba fazendo é uma narrativa mainstream com pitadas de terminologia científica. Em vez de FC acabam criando um gênero híbrido que não tem a ver com nada. Uma espécie de Quasímodo literário.

Saint-Clair Stockler:

Mas você não acha que pode haver outro caminho pra literatura de gênero? Não desconsiderando o que você falou (com o que concordo inteiramente), não pode haver por aí fora alguém que faça malabarismos estilísticos e, ainda assim, seja escritor de gênero?

Tibor:

Posso aceitar esses malabarismos se eles conseguirem se justificar na trama e não como demonstração da habilidade do autor, num excesso de egocentrismo idiota. Tem gente que exagera, pô.

Saint-Clair Stockler:

Mas acho que empregam essa técnica para criar o sense of wonder nos leitores.

Tibor:

Eles tentam forçar o sense of wonder nos leitores. Há maneiras de conseguir isso sem apelar para malabarismos. E, convenhamos, se só nos malabarismos esse sense of wonder é alcançado por eles, temos aí um grande problema, não acha?

Saint-Clair Stockler:

Mas eu não estou dizendo que TODO escritor de ficção de gênero tem que fazer assim. O normal é fazer como você disse. Mas não podemos admitir algumas exceções?

Tibor:

Claro que as exceções são admissíveis. Só não podem exigir que eu, apesar de admiti-las, ainda tenha que gostar delas. Mas respeito quem, como você, gosta. Existem autores que conseguem atingir o sense of wonder sem apelar para malabarismos e a esses eu respeito muito mais. Leu o conto do Cirilo no Imaginários 3? É um bom exemplo sobre o que estou falando. Conseguir surpreender o leitor com uma história arrebatadora e bem contada é muito mais difícil do que criar cenários bizarros, personagens misteriosos, prosa criptografada e diálogos sem pé nem cabeça (cenários bizarros e personagens estranhos por si só, podem ser ingredientes de ótimas histórias). Tem gente que lê esses malabarismos e tem orgasmos. Eu tenho vontade de rasgar as páginas.

E não, o Saint-Clair ainda não leu o conto citado por mim. Se você também não leu, faça um favor a si mesmo e leia!

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