Posts Tagged ‘Resenha crítica’

Crítico literário, eu? Não, mesmo!

30/08/2010

Antes que se estabeleça uma situação inexistente e eu seja definitivamente rotulado como crítico literário, lanço-me, de armas em punho, na tentativa de uma defesa desesperada.

Vem surgindo aqui e ali comentários me apontando como crítico, coisa que não sou e nunca fui. Desde o início do É só outro blogue deixei claro que faria comentários às leituras realizadas, sem, contudo, classificá-las especificamente como resenhas críticas.

Entendo que para ser um crítico seja necessária uma bagagem que não possuo tal como conhecimentos em teoria literária, por exemplo.

Desde o início me comprometi a realizar leituras com o intuito de, talvez com um pouco mais de profundidade do que um leitor comum faria (já que também sou escritor), apontar o que considero bom ou ruim numa escala de valores baseada nos triviais “gostei”, “não gostei”.

Com franqueza. Essa também foi uma promessa. Dizer o que acho com a premissa de não mentir a mim mesmo.

Poderão argumentar, e não sem razão, que isso já é o suficiente para me classificar como crítico. Tenha eu conhecimento profundo da matéria ou não. Mas me sinto desconfortável com o rótulo. Prefiro ser visto como um comentador honesto e sem medo de ferir possíveis suscetibilidades.

Igualmente consciente de possuir um telhado de vidro; preparado para absorver críticas ao meu trabalho, sem reações imaturas como se vê em larga escala por aí. E no aguardo de que as críticas sejam, claro, fundamentadas e não resultado de vingança ou revanchismo (o que também se vê fácil por aí).

Assim, deixemos o título para o Antonio Luiz M. C. Costa, o único crítico literário voltado à literatura de gênero que conheço e respeito.

Crítica literária é coisa para especialistas. Sou só um curioso.

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Livros recebidos. Resenhas e comentários em breve.

06/07/2010

Recebi nesses dias, seis exemplares de Paraíso Líquido de Luiz Bras (enviado graciosamente pelas Terracota Editora)  e um exemplar de O caçador de apóstolos de Leonel Caldela (enviado pela Jambô Editora).

Serão lidos e resenhados pelo Saint-Clair ou lidos e comentados por mim. Quiçá ambas as coisas.

Um dos exemplares de Paraíso líquido, ou mais deles, serão sorteados no blog nos próximos dias. Então, fiquem atentos.

Há mais livros chegando, que eu sei. Quando estiverem em minhas mãos, aviso. É provável que mais sorteios sejam realizados futuramente.

Agradeço imensamente aos escritores e às editoras que vêm enviando suas obras.

Saint-Clair Stockler resenha Annabel & Sarah, de Jim Anotsu.

26/06/2010

Sugeriram-me que fizesse uma resenha do livro de Jim Anotsu Annabel & Sarah, sugestão que acato com muito prazer porque faço parte das centenas (gostaria de poder escrever “milhares”, mas vocês sabem: estamos no Brasil…) de fãs do primeiro livro do jovem – sim, bem jovem – autor.

Annabel & Sarah é um livro que vai beber em várias fontes: desde as Alices de Lewis Carroll, passando pelo noir americano (Raymond Chandler, Dashiell Hammett, James Ellroy) chegando aos Beatniks (Jack Kerouac, William Burroughs, Charles Bukowski, Lawrence Ferlinghetti). Há também citações ou influências de mangás (quando li o livro, o vilão só aparecia na minha cabeça como um personagem de um quadrinho japonês), HQs como Sandman, música pop, poetas como Edgard Allan Poe, desenhos animados como A viagem de Chihiro…. Você pode estar pensando: “Caramba, deve ter saído uma salada daquelas”. Pois é: saiu mesmo. Mas o resultado é impressionantemente bom. Nada destoa de nada, tudo se harmoniza para apresentar ao leitor uma bela, saborosa e criativa história, que nos prende até o seu desfecho. Jim Anotsu, percebe-se, é um leitor voraz, mas as citações e influências que aparecem no livro em momento algum nos dão a impressão de pedantismo, de que o autor queria mostrar que era muito “lido” (adoro esta expressão). Percebe-se que ele se divertiu escrevendo o livro e homenageando suas paixões literárias.

A história se passa parte em Londres, parte em outros “mundos paralelos” aonde as irmãs gêmeas radicalmente opostas Sarah e Annabel vão parar quando uma delas é raptada pelo vilão e a outra tem de ir atrás para salvá-la. A partir daí a narrativa se divide entre Sarah em um estranho lugar chamado Allegria e Annabel, auxiliada por Dean Chinaski, uma raposa que é o protótipo do detetive noir. Duas história pelo preço de uma (muito boa sacada). Interessante como Jim Anotsu consegue caracterizar muito bem os “mundos” ou “regiões” diferentes em que se encontram Sarah e Annabel. Com Annabel e Chinaski nós estamos em pleno romance policial de linhagem americana, como se estivéssemos lendo um livro de Raymond Chandler ou Dashiell Hammett. A raposa detetive Dean Chinaski é uma figuraça, sempre com uma tirada sarcástica na boca – aliás, os diálogos do livro são muito bons. Essa parte da narrativa é sombria e noturna, não só por se passar no período da noite, mas também pelo seu trágico desenlace. Já as aventuras de Sarah, a irmã sequestrada, que se passam numa terra que nada tem de alegre embora chame-se Allegria, é mais “lisérgica”. Lisérgica no sentido de que é mais “colorida” e mais “leve”, e também cheia de personagens que parecem saídos de uma “viagem” muito doida, embora a pobre Sarah vá comer o pão que o Diabo amassou na casa da vilã secundária da história. Essa é a parte “Fantasia” da narrativa, em contraponto à parte “Policial” de Annabel. Seguindo as a(des)venturas de Sarah, é então que aparece outra personagem encantadora: Beatrice, uma menina fantasmagórica e enigmática que a gente tem a impressão o tempo todo de que não bate bem da bola. Assumo que caí de amores por ela… Sou louco por personagens bizarros.

Não vou contar o final da história, claro, e nem mesmo darei pistas. Seria um total desrespeito para com Jim Anotsu e um bando de personagens que fizeram a minha vida muito feliz durante os dias que levei para ler o livro, só digo que foi uma das leituras mais divertidas que fiz nos últimos meses. Me diverti tentando perceber as citações que Anotsu espalha pela narrativa como “brindes” aos leitores. Se você nunca ouviu falar dos Beatniks, ou não sabe o que é “romance noir”, não se preocupe: sente-se confortavelmente em sua poltrona ou jogue-se de cabeça pra baixo em cima da cama, agarre Annabel & Sarah e comece a ler, sem maiores preocupações/obrigações. Você verá que a narrativa vai fisgá-lo e que fluirá agradavelmente até seu fim. É meio como assistir a um filme.

Agora vou contar-lhes uma coisinha que não me agradou: já não é de hoje que autores brasileiros de Fantasia, Terror e Ficção Científica ambientam parte ou toda a sua história no estrangeiro, em geral Estados Unidos, se bem que no caso de Annabel & Sarah seja a Inglaterra. Fico me perguntando se isso seria realmente produtivo no atual momento em que a ficção de gênero brasileira pretende se firmar de uma vez por todas. Pode ser uma cisma injustificada da minha parte, mas acho que deveríamos ver mais personagens brasileiros vivendo suas aventuras aqui no Brasil, nem que seja pra gente marcar território. Eu gostaria que Annabel e Sarah (que, então, nem se chamariam assim) fossem duas garotas brasileiras, ao invés de gringas. No caso de Jim Anotsu, há uma “desculpa”: a gente percebe que ele é primordialmente influenciado pela literatura de língua inglesa, talvez daí a necessidade de situar seus personagens no contexto da cultura anglo-saxã/americana. No final das contas o livro saiu tão bom que a gente até perdoa – mas espero que isso não se torne uma tendência da nossa ficção.

Não posso deixar de comentar a respeito do excelente trabalho gráfico que foi feito com Annabel & Sarah. O livro tem uma capa muito legal, das melhores que tivemos nos últimos anos, e a diagramação é linda: o trabalho interno é digno de um prêmio de design. Tenho reparado que as pessoas elogiam bastante não só a história como também a parte visual da obra. É isso aí: livro é, também, um produto que precisa ser vendido, e é muito mais gostoso a gente ler um livro com um cuidado gráfico tão evidente. A Editora Draco está de parabéns!

Quando será que Jim Anotsu nos brindará com outra história cheia de criatividade e aventuras, hein?

Nota: se você é autor ou editor, gostou desta e de outras resenhas publicadas, e gostaria de ter seu livro (Ficção Científica, Terror ou Fantasia) resenhado no É só outro blogue, por favor nos envie exemplares. Gostaríamos de comprar e resenhar todos os lançamentos que estão ocorrendo no Brasil, mas se assim o fizéssemos rapidamente nos tornaríamos réus em processos judiciais das operadoras de cartões de crédito.  Seja solidário! 😉

“Xenocídio”, de Orson Scott Card, sob a ótica de Saint-Clair Stockler.

22/06/2010

Tão logo tive a notícia de que a Devir estava lançando o terceiro volume da saga de Ender Wiggin, corri e fui ler a obra. Afinal, nós leitores brasileiros que não lemos em inglês estávamos esperando essa tradução por quase duas décadas.

Resumo rápido

Xenocídio (O jogo do exterminador e O Orador dos Mortos já foram devidamente traduzidos e publicados no Brasil, pela Devir, se bem que há muuuuito tempo) é o maior e o mais ambicioso livro da série até aqui.

Com pouco menos de 550 páginas, a história agora se subdivide em duas “frentes de batalha”, digamos: o nosso conhecido planeta Lusitânia (na “vida real” jamais teríamos um planeta colonizado por brasileiros com esse nome mas, OK Mr. Scott Card, vamos deixar passar esse deslize…) e o planeta Caminho, de colonização chinesa e taoista até a raiz de sua flora. No centro da história, novamente a família “adotada” por Ender: a geneticista Novinha e sua meia-dúzia de filhos, enteados de Ender, cada um mais brilhante do que o outro. O problema em questão, que faz a narrativa se mover: o vírus descolada, que está intimamente ligado a todo o ecossistema do planeta Lusitânia, é uma arma mortífera que ataca todo e qualquer organismo não-nativo do planeta. O Congresso das Vias Estelares acha-o perigoso demais para existir, com o risco de poder se espalhar pelos Cem Mundos, então envia uma esquadra levando um poderoso artefato – o Doutorzinho – que destruirá inteiramente o planeta, colocando o resto da humanidade a salvo.

Acontece que nós leitores sabemos desde O Orador dos Mortos que Lusitânia, além de lar dos porquinhos/pequeninos (a forma de chamar vai depender da empatia de quem os chama; mas se julgássemos pela capa, nós leitores os chamaríamos de clones de Alfie, o ETeimoso), uma espécie inteligente, é agora também lar de humanos e – talvez o mais importante – lar da única Rainha da Colmeia que sobrou após Ender, o Xenocida, ter acabado com a espécie dos abelhudos – chamados na primeira tradução de O jogo do exterminador de “insecta”, o que prefiro – no primeiro volume da série.

Começa então uma luta desesperada contra o tempo para evitar a destruição do planeta Lusitânia envolvendo Ender, sua irmã Valentine (que chega numa nave com sua família e uma ex-aluna, mais o enteado brilhante e deformado de Ender, Miro), a inteligência artificial Jane, um pai e sua filha, da casta dirigente do taoista planeta Caminho, com a inesperada ajuda de uma criada. Todos tentando descobrir modos de evitar a chegada da armada e a consequente destruição de Lusitânia e seus habitantes.

Há uma questão moral envolvida – que é o cerne do romance – e debatida à exaustão por vários personagens em vários momentos da narrativa: é lícito destruir um planeta e suas espécies para salvar cem outros mundos? Pode-se sacrificar um punhado de humanos para salvar bilhões de outros? O desenrolar dos acontecimentos, e o final do romance, nos dirá.

Coisinhas que me incomodaram

A obra é muito bem escrita e essa sofisticação no enredo, com suas múltiplas linhas que se entrecruzam, é algo desejável desde O jogo do exterminador, que tem um enredo no final das contas muito simples, embora surpreendente.

Seja como for, há coisas que me incomodaram. Algumas na construção da obra, outras nas questões filosófico-religiosas que ela suscita.

Orson Scott Card, sabemos todos, é um mórmon, ou seja, um tipo de cristão só mais um pouquinho esquisito do que o normal. E sua Fé reflete-se, toda inteira, na tessitura do romance: a evangelização dos porquinhos, que havia se iniciado em O Orador dos Mortos, está a todo vapor em Xenocídio. É muito interessante ver todo o ecossistema dos porquinhos (esposas, irmãos, paiárvores, etc.) envolvido com o Cristianismo e usando metáforas bíblicas, mas não sei até que ponto um fanático paiárvore cristão, figura crucial em determinado ponto da narrativa, é de fato um personagem crível, que se sustenta. Para mim, foi um pouco demais. Pequeninos usando trechos do Velho Testamento como metáforas para explicar a sua condição e o seu mundo… Não, a minha suspensão da descrença não foi forte o bastante para engolir isso.

O autor é bastante realista com relação ao Cristianismo e suas consequências em vários momentos da narrativa, mas nunca reconhece o que de fato ele é: um instrumento de manipulação de corações e mentes. O curioso é que nesse terceiro volume da saga, uma outra “religião” é introduzida: o Taoismo, no planeta Caminho. Porém essa religião, que também é uma filosofia, acaba sendo ridicularizada por Orson Scott Card como sendo nada mais do que um mero instrumento de manipulação da casta governante do planeta. Dois pesos e duas medidas: o Cristianismo, com todos os seus zilhões de furos, falhas e crueldades, no final serve para alguma coisa boa enquanto que uma outra religião nada mais é do que formalismo e manipulação. Enfim: nada muito novo. Isso acontece todo o tempo na Fantasia (alô C.S. Lewis!) quanto na Ficção Científica – em especial a de Scott Card – e até mesmo na chamada “literatura mainstream”. Só que me incomodou.

Outra coisa difícil de engolir é a família de Novinha/Ender, que em poucas semanas consegue resolver questões que assombram a humanidade há muito tempo. Um exemplo? A descoberta de uma maneira de viajar mais rápido do que à velocidade da luz. Uma família de meia dúzia de irmãos que deve ser a mais brilhante de toda a literatura, versados em física quântica, química, genética, psicologia, religião, biologia – e nossos descendentes… Que orgulho.

Também a explicação (finalmente!) para a existência e, sobretudo, para a localização de Jane, a inteligência artificial, foi pouco convincente e “resolvida” apressadamente. Acho que o autor chegou muito perto de uma obra de Fantasia, com a sua “explicação científica” para Jane.

Um grave erro cometido por Scott Card, agora no nível da construção da narrativa, é a de chamar à ação determinados personagens no início do livro que terão, mais tarde, impacto e importância zero na narrativa, terminando como não mais do que figurantes de luxo. A promissora presença da irmã de Ender, Valentine, e do seu enteado deformado, Miro, são um exemplo disso. O primeiro contato dos dois é descrito em páginas antológicas, mas depois sua utilidade na narrativa desaparece, melancolicamente. Parece que Scott Card usou Valentine apenas para agradar aos fãs, que certamente reclamariam de sua ausência, e não por ela ter uma real importância para o conjunto da narrativa. O mesmo acontece – só que de forma muito mais lamentável e capenga – com a “ressurreição” de Peter, o Hegemona, o irmão psicopata de Ender e Valentine. Sua reaparição num esquema meio “deus ex machina”, andando pra cima e pra baixo usando frases pretensamente sarcásticas e cheias de veneninho, foi patética. Me lembro do menino Peter de O jogo do exterminador: ele me deu medo. Muito medo. O Peter de Xenocídio é um playboyzinho ridículo. E o pior: ele vai embora com a personagem mais legal do romance!? Poderia citar mais alguns personagens que têm sua importância completamente diluída no decorrer da narrativa, mas creio que vocês já entenderam.

Parece que uma vintena de personagens foi demais para Scott Card lidar – se bem que, repito, já era hora de a saga de Ender se encorpar. Estou curioso para saber como serão os próximos volumes. Nos EUA já foram publicados 6 romances da chamada “Saga de Ender”. Há também a série “Shadow”, do mesmo universo, mas que segue em paralelo e não pertence à linha narrativa da Saga. Orson Scott Card é um brilhante escritor, cheio de inventividade e fôlego, e provavelmente as próximas histórias serão melhores. Espero que ele tenha se lembrado da afirmação bíblica do “a quem muito é dado, muito será cobrado” e tenha havido um cuidado maior na manipulação dos personagens dos próximos volumes.

Espero que os leitores brasileiros que só leem em português não tenham que esperar mais 20 anos para descobrir isso.

Uma última observação

Desta vez, a Devir está de parabéns: a revisão – que é o calcanhar de Aquiles das editoras brasileiras que publicam obras de FC e Fantasia –, fora um ou outro deslize, o que é normal numa obra de mais de 500 páginas, está muito boa. Percebe-se que houve um cuidado especial nesse quesito. A capa não é lá essas coisas, mas está de acordo com as dos outros romances de Ender publicados aqui. Se bem que a nave da capa não é fiel à construída pela Rainha da Colmeia, que a rigor nada mais é do que uma caixa com uma porta, sem nem mesmo sistema propulsor – enquanto que a da capa está nitidamente flutuando por meios próprios. Mas quem disse que uma capa tem de ser fiel à obra, não é mesmo?