Posts Tagged ‘Richard Diegues’

Portal Fundação – Comentários 1ª parte

09/01/2010

Antes de qualquer coisa, acho melhor voltar a abordar um assunto já tratado anteriormente.

Não tenho nem nunca tive a pretensão de me passar por um crítico literário, posto que certamente exige uma carga de conhecimento na área que não possuo. Isso não significa que não possa ter opinião, fundamentada nas impressões que cada narrativa me provoca. No caso específico dos Portais, passarei a me ater única e especificamente a cada trabalho, sem analisá-los em função do conjunto.

O que quero dizer com conjunto, neste caso?

Tenho pra mim (posso estar errado desde o início) que os Portais tinham a intenção primeira de mostrar tanto para os leitores de literatura realista, como para os de gênero, que existe vida inteligente em todas as vertentes literárias. Que as ferramentas de um podem ser úteis para o outro e vice-versa.

Na literatura de gênero valorizam mais o enredo. Na realista, valorizam mais a forma. Os Portais teriam a missão de conciliar ambas as ferramentas e mostrar ao leitor de ambos os gêneros que a união faz a força.

Por isso fui contra os experimentalismos estilísticos, os hermetismos. Para o leitor realista, um experimentalismo com linguagem de FC deve ser assustador. Para o leitor de gênero, idem. Uma boa história precisa ter… História. Precisa ser inteligível. Precisa ter uma boa trama. Precisa falar com todos os leitores e não com meia dúzia de eleitos.

De agora em diante, pelo menos em relação aos Portais, deixarei de analisar cada texto em razão de um objetivo que nem sei se existe. Vou ler cada conto como obra independente e não conciliada num coletivo literário com metas determinadas.

Assim sendo, vamos aos meus comentários:

Veja seu futuro – Ataíde Tartari

Já tinha lido esse conto antes. Gosto da prosa do Ataíde. Esse traz uma máquina especial numa loja de fotografia com o poder de mostrar o futuro às pessoas. Antecipar problemas e tentar resolvê-los na volta pode ser uma boa, mas nem sempre as coisas dão certo.

Cheiro de predador – Roberto de Sousa Causo

Continuação das aventuras de Shiroma/Bella Nunes, uma assassina implacável. Acho a narrativa do Causo cirurgicamente precisa. Mas não gosto da absoluta perfeição da protagonista. Pequenos erros de julgamento e imprecisões nos momentos de luta a tornariam mais crível. Torná-la humana nas últimas linhas não bastou. Há um trecho onde o Causo cita um spray capaz de endurecer tecidos moles. Acho pouco verossímil que isso fizesse uma camisa se transformar numa pá, já que ela não tem espessura e densidade suficientes para isso.

Estranho progresso – Richard Diegues

Bizarro, pra dizer o mínimo. Relato de um futuro distante ou de uma viagem alucinógena profunda. Cenário extravagante. Há trechos onde a compreensão fica dificultada e Isso prejudica o conjunto. Difícil abandonar a leitura. Apesar dos problemas a narrativa tem seus encantos.

A cor da tempestade – Mustafá Ali Kanso

Uma narrativa vigorosa. Lei Áurea liberta escravos, mas preconceito e racismo impedem que sejam imediatamente aceitos. É uma analogia, mas bastante adequada. Humanos e Sangarianos vivendo conflitos étnicos. Guerra com Najaris ocupa 2º plano na trama. Abordagem ética que conduz a uma espécie de lição moral. Cenário bem construído e muito boa ambientação.

Nuvem de cães-cavalos – Luiz Bras

Um conto bem escrito, mas o argumento, o cenário e a abordagem tornam, para mim, difícil aceitá-lo como ficção científica. Tirem as naves espaciais e coloquem em seus lugares carruagens, e a história terá a mesma força, sem perda de conteúdo.

O desenvolvimento insustentável do ser – Laura Fuentes

Outro conto que, para mim, não é ficção científica. Preocupações bastante contemporâneas com o progresso e suas conseqüências imediatas e futuras. Uma pequena extrapolação, inócua e poética, não justifica o gênero.
Existe um trecho que não bateu bem (sem trocadilhos): “…O sol daquela manhã mais parecia bigorna batendo no corpo sem dó…”. Bigornas não batem. Elas são o anteparo para o malho do ferro. Nem como licença poética isso me entra pela goela.

A segunda parte reunirá todos os demais contos e será postada na semana que vem.

Até lá.

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Paradigmas 4 – Edição de colecionador

19/08/2009

Paradigmas

Por essa nem o editor e organizador Richard Diegues esperava. Enumero abaixo os treze melhores contos – em minha opinião – dentre os trinta e nove publicados até agora, formando uma edição virtual do crème de la crème da ficção especulativa nacional. Representantes legalíssimos do que foi apresentado nesta coleção até agora. A ordem dos fatores não é significativa de qualidade. Ou seja: o primeiro da lista não é necessariamente o melhor, o último não o pior. Claro que esta edição especial segue um parâmetro avaliativo personalíssimo, cujos critérios serão esclarecidos amanhã em nova postagem neste blogue.

1- Baby Beef, Baby – Richard Diegues

2- MAI-NI Expressas – Richard Diegues

3- Efeitos Adversos – Flávio Medeiros

4- Fuga – Fernando Trevisan

5- Carta a Monsenhor – Ana Cristina Rodrigues

6- Triângulo em Tempo Rubato e Gota de Sangue – Saint-Clair Stockler

7- Hatzemberger – Davi M. Gonzales

8- Madalena – Osiris Reis

9- Sinfonia para Narciso – Cristina Lasaitis

10- Fogo de Artifício – Eric Novello

11- Vento, Seu Fôlego. O Mundo, Seu Coração – Jacques Barcia

12- O Homem Bicorpóreo – Hugo Vera

13- Lamentações de Jeremias – Lúcio Manfredi

Existem outros contos bons e que fariam parte desse indicativo, se os volumes publicados ultrapassassem os treze contos regulamentares. Independente disso indicarei mais três cujas qualidades não podem deixar de serem reconhecidas:

14- De Vento em Pedra – Viviane Yamabuchi

15- A Boa Senhora de Covent Garden – Camila Fernandes

16- O Mendigo e o Dragão – Bruno Cobbi

Paradigmas 3 – Comentários

11/08/2009

paradigmas3

Terminei o último livro da série que não tem prazo para acabar. Já que não creio ser necessária uma nova apresentação desse projeto, passo diretamente aos comentários, que, sei, é o que procuram aqui.

Baby Beef, Baby – Richard Diegues

Não sou fã desse gênero específico, mas não posso negar o ritmo frenético e a impossibilidade de abandonar a leitura até o final. Muito bom, o conto.

O Mito da Fecundação – Ludimila Hashimoto

Terminei sem saber se o conto abriu meu apetite ou se me enfastiou. Achei-o interessante, mas me pergunto para que alcachofras onde não se come mais que chá, café, sopa (talvez de alcachofra?), pão com pasta de frango, água e pasta de peixe.

Reminiscências de Um Mundo Verde – Ronaldo Luiz Souza

Um conto belo, comovente e assustador. Um presságio? Espero que não.

O Animal Morto – Saulo Sisnando

Este conto é um caso extraordinário. Não posso me conter. É tão ruim, que dói. E tão mal escrito que me pergunto se os organizadores o leram. É um trabalho que compromete a seriedade do projeto e coloca o poder de avaliação dos organizadores em xeque.

Lamentações de Jeremias – Lúcio Manfredi

Este conto me faz pensar se receberei a visita do Saulo Sisnando com um teleportador, pronto para me teleportar para o condomínio onde porcos invisíveis roncam pelo quarto e onde menininhas de 7 anos cavam buracos de 40 centímetros no solo duro apenas com as frágeis e delicadas mãozinhas. Tenho medo da menina! O porco, como no jantar.

Ah, o conto do Manfredi é bom. Como não poderia deixar de ser.

Esperança Corrompida – Leandro Reis

Porque a água enfraquece os moradores assim que passam pelos limites estabelecidos da cidade? Pude até buscar esta resposta em exercícios de adivinhação, mas ela precisaria estar explicada na história. Fora isso, o conto é bom.

Em Berço Esplêndido – Camila Fernandes

Legal. Agora sei mais da cidade de Bofete que grande parte dos moradores.

Choque de Civilizações – Marcelo Jacinto Ribeiro

Fiquei com dó dos duendes e torci o tempo inteiro para o senhor Darling ser morto por eles. Conto mais ou menos.

Hatzemberger – Davi M. Gonzales

Putz!! Este conto valeu a do Sisnando. Muito bom. A do Sisnando é pouco… valeu toda a coletânea. Quero o autógrafo desse autor no livro.

O Cavaleiro e o Senhor do Inverno – Gianpaolo Celli

Um conto bacaninha. Este é um universo que parece não oferecer mais novidades. Juro, pagar para publicar um conto Arturiano me parece completo nonsense… Perde-se grande oportunidade para extrapolar.

(Digo isso, mas contos anteriores mostram que também há espaço para fazer coisas piores que contos Arturianos)

Velha Remington – Wolmyr Alcantara

Um conto interessante, mas nem um pouco original.

De Vento em Pedra – Viviane Yamabuchi

A Viviane me fez enxergar períodos de minha própria vida neste conto. Mostra também que basta ser mulher – fada ou humana – para tornar-se “Fúria”, entidade presente em todas as tramas que unem homens e mulheres na ficção e fora dela. Gostei bastante.

O Homem Bicorpóreo – Hugo Vera

Já havia lido este conto no concurso da comunidade de FC. O considerei o terceiro melhor na ocasião. Ainda continua muito bom.

Paradigmas 2 comentado

06/08/2009

paradigmas2

A série Paradigmas é um case de sucesso da Tarja Editorial e já está no terceiro volume. Só o Richard Diegues e Deus sabem até onde esta série vai parar. Mas a considerar o ânimo, creio que será longa e bem sucedida.

Recentemente fui premiado num sorteio da comunidade de Fantasia do Orkut com o livro Paradigmas 2. Por conta do sorteio fiquei incumbido de resenhá-lo. Como já disse que não sou resenhista, farei apenas comentários em passant dos contos, todos eles retirados das anotações que faço a lápis no livro imediatamente após a leitura.

Ricardo Edgar, Detetive Particular – Ataíde Tartari

Um conto divertido e despretensioso. Prosa bastante leve e fluída.

O Pequeno Oenteph – Raul Tabajara

Conto interessante. Gostei. Mas se o autor retirasse quase todos os “eu” e “ele” do texto, fluiria bem melhor.

Efeitos Adversos – Flávio Medeiros

Assim, de começo, me lembrou Hulk. Depois referências a Star Trek e homens de preto. Gostei, achei divertido.

A Boa Senhora de Covent Garden – Camila Fernandes

Bom esse conto da Camila. Chapinha no lugar comum sem, entretanto, parecer um repeteco cansativo de outras tramas tão parecidas. Escreve bem, ela.

Fuga – Fernando Trevisan

O conto que mais me surpreendeu até aqui.  Muito bom controle narrativo e ritmo ágil. Parabéns ao Fernando. Gostei muito.

O Deus de Muitas Faces – Gabriel Boz

Nada extraordinário, um conto razoável.

Frei François – Ademir Pascale

Um dos contos mais fracos desta coletânea. Histórias de vampiros precisam ser constantemente renovadas, sofrendo releituras ininterruptas para não caírem na vala comum. Este não acrescentou nada ao cansativo universo dos chupadores de sangue.

Abaixo de Nós – Luciana Muniz

Me Jane, you Tarzan.

Outro conto muito fraco. Dois contos fracos seguidos um do outro. Isso me preocupa.

Carta a Monsenhor – Ana Cristina Rodrigues

Bastante assustador esse conto da Ana. Cenário e ambientação excelentes. Narrativa firme. Momentos de tensão bem vívidos. Gostei bastante.

Triângulo em Tempo Rubato e Gota de Sangue – Saint-Clair Stockler

Uma verdadeira obra de arte, embora eu também discuta a cultura impressionante do gato que tenha lido a Bíblia e consiga citá-la na ponta da língua e do focinho. O título é curioso, mas ainda prefiro o anterior: Kandahar.

A Dama e o Cavaleiro – Ricardo Delfin

Não consegui entrar na história senão perto do fim, quando uma conclusão surpresa se avizinhava. Ledo engano. O fim propriamente dito me decepcionou. Não entendi nada. Fiquei boiando. Este é o tipo de conto que precisa vir com um manual de instruções para auxiliar na leitura.

O Fazedor de Terra – Ubiratan Peleteiro

Um conto simpático, mas também demorei pra entrar na história (e a história demorou em se fazer compreender).

Clausura – Richard Diegues

Conto extenso demais. Tem alguns bons momentos de tensão, que não valem, porém, a extenuante leitura. Cortaria, tranqüilo, algumas páginas. A tensão pretendida se dilui ao longo da leitura que parece não acabar nunca.