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A Fantasia brasileira vai bem, obrigado. Mas e a FC, como está?

30/01/2013

Capas Livros FC e Fantasia

A discussão FC x Fantasia não é nova, mas é sempre produtiva. O que vemos hoje no Brasil é uma quantidade de publicações de livros de Fantasia que ultrapassa a de Ficção Científica em muito (10 para 4, segundo estatísticas que me foram fornecidas por Cesar Silva, editor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica).

Mas, onde está a questão?

Parece-nos bastante óbvio que seja assim. Afinal, obras de Fantasia são mais assimiláveis. Não obrigam o leitor a acompanhar — via de regra — longas e exaustivas explicações científicas, nem a ter conhecimento — mesmo que básico — de nada que se aproxime de tecnologia e ciência. Leis simples como as da gravidade são comumente desafiadas e vencidas. Nossos autores fazem com que todos os grandes obstáculos sejam suplantados com abracadabras, com pitadas de pó de pirlinpinpin, efeitos sobrenaturais inexplicáveis ou poções e encantamentos diversos. Gestos grandiloquentes fazem surgir tempestades, piscar de olhos movem montanhas.

Vilões e mocinhos se enfrentam numa tempestade coruscante de efeitos especiais, transformam e transmutam com uma sem-cerimônia tão banal quanto encantadora. E os personagens secundários, humanóides ou não, sucumbem diante de tantos poderes, arrasados, fragmentados, pulverizados.

Não temos no Brasil autores como Susanna Clarke, Ursula K. Le Guin, Fritz Leiber ou Patrick Rothfuss. Boa parte de nossos esforçados autores de Fantasia estão muito mais para J.K. Rowlings recauchutadas ou J.R.R. Tolkiens de calças curtas, exceção feita a poucos e talentosos autores que conseguiram fugir do lugar comum e desenvolver universos próprios. Infestam as imitações mal feitas, as poucas tentativas pífias de encontrar um estilo próprio, um cenário divergente e original (porque é muito mais fácil copiar o que já está consagrado).

Não há ciência nas histórias de fantasia (deixo de lado a fantasia científica, mas mesmo ela dialoga pouco com a verossimilhança). Há apenas uma imaginação profusa que não explica, apenas apresenta mirabolâncias.

A Fantasia traz à tona o nosso lado lúdico, nos faz retornar à infância, aos sonhos, às nossas íntimas fantasias pueris, quando nos imaginávamos repletos de poder. Nossa visão do mundo era mágica, o mundo nos parecia mágico. A FC é o contraponto a essa visão. Ela nos obriga a fincar os pés no chão, nos mostra que o mundo é físico e obedece a leis imutáveis. A FC nos rouba muito de nosso senso lúdico, nos esfrega a cara no chão. Obriga-nos a “despertar” para a realidade e para todas as responsabilidades decorrentes disso.

Será essa a razão porque a nossa literatura de Fantasia leva grande vantagem em relação à FC? Ou é mesmo porque não temos uma cultura tecnológica, de grandes descobertas e viagens espaciais?

Afinal é essa a explicação recorrente. Somos um país sem cultura científica. Nunca fizemos grandes descobertas, nossos melhores foguetes são os da Caramuru, nossos cientistas, os melhores, vão embora do país em busca de melhores condições de trabalho e em busca de reconhecimento.

Então, por que, afinal, histórias de Ficção Científica deveriam ser populares, não é mesmo?

Se formos falar de outras mídias, veremos que a FC vai muito bem nos HQs, nos games, no cinema e na TV. Filmes e séries desse gênero bombam e alcançam bilheterias expressivas e telespectadores apaixonados. São vários os lançamentos (inclusive brasileiros) disputando espaço nas salas de exibição.

Mas em quê a literatura de FC ganha com isso? Como nossos autores são beneficiados com o boom da FC nas outras mídias? A FC continua não sendo lida. Continua não sendo prestigiada, continua sofrendo o preconceito das casas editoriais (e de muitos leitores que a consideram um gênero “chato”) que parecem esperar que um de nossos autores (sem patrocínio, nem apoio de nenhuma editora significativa) consiga vencer as dificuldades de mercado e explodir em vendas (melhor ainda se tiver o livro transformado em filme).

Só esse chamado “boi de piranha” conseguiria superar o “dar de ombros” das principais casas editoriais e, enfim, fazer a FC brasileira ser vista com olhos mais condescendentes (porque a FC estrangeira é normalmente publicada aqui com rótulos diferentes que tentam disfarçá-la)?

Difícil crer que não haja público para uma boa e dinâmica história de FC. Ou que não existam leitores inteligentes que não se entusiasmem com histórias elaboradas, personagens com múltiplas camadas, cenários ricos, boas ambientações, argumentos convincentes e soluções criativas e verossímeis (Nem toda FC produzida aqui é assim tão complexa, mas não podemos esquecer que, qualitativamente, a literatura de FC brasileira é, no geral, muito mais bem trabalhada que a de Fantasia).

Ou crer que todos os leitores de FC estejam comodamente assentados dentro do nicho, incorporados ao fandom. Porque se for assim, é de se compreender a atitude das grandes editoras. Investir num gênero que não consegue reunir mais que uns poucos milhares de leitores (dos quais muitos sequer conhecem o que se produz contemporaneamente) é jogar tempo e dinheiro fora.

A Fantasia não precisa de apresentações prévias. Não precisa vencer o preconceito de editores. Há muita Fantasia sendo publicada, grande parte de qualidade duvidosa.

Sem contar que é notório que qualidade e apelo comercial não são correlatos. As editoras são casas comerciais e são as vendas (as boas, de preferência) que pagam as suas contas. Entre escolher um romance de Fantasia manco e com chulé, mas com apelo comercial palpável, e um romance de FC de boa qualidade, elas vão escolher o primeiro. Por que deveriam investir num gênero, construir paulatinamente um mercado, se o custo/benefício é incerto?

Casos como o de Luiz Brás que publicou Sozinho no deserto extremo pela Editora Prumo são exemplos que parecem apenas servir para confirmar a regra.

Assim, a FC fica relegada às pequenas editoras que trabalham com edições limitadas e publicam quase que especificamente para o nicho. Um possível manancial de leitores extra-fandom permanece inatingível, inalcançável. Porque esses vários milhares de leitores que adquirem Asimov, Clarke, Bradbury (e outros nomes estrangeiros que se escondem na chamada ficção especulativa), também podem adquirir Gersons-Lodis, Causos e Carlos Orsis.

Existe dificuldade nisso? Claro. Mas mercados existem para serem descobertos, desbravados. Não só por quem escreve (que esses não têm poder para erguer mercados) e, sim, pelas editoras que, se não têm nenhuma obrigação em formar leitores, também não deveriam se escudar inteiramente disso.

Afinal, assim como nas melhores obras brasileiras de Fantasia, existem trabalhos de Ficção Científica com bom potencial de vendas e com argumentos que cairiam muito bem em filmes. Nem é preciso garimpar muito. Basta abrir os olhos, não dar mais de ombros, atentar para a pilha de originais e conceder à FC brasileira um voto de confiança.

Pelo menos isso.

***

Links interessante cedido por Cesar Silva:

• Listagem de todas as publicações de literatura fantástica feitas em 2011 no Brasil para download:
http://issuu.com/cesarsilva7/docs/anu_rio_brasileiro_de_literatura_fant_stica_2011_l

Você quer o anuário?

• Anuários Brasileiros de Literatura Fantástica para aquisição (anos de 2009 e 2010, 2011 está esgotado até o momento):
http://loja.devir.com.br/catalogsearch/result/?q=anuario+brasileiro+de+literatura+fantastica

Capa da coletânea Brinquedos Mortais revelada.

22/03/2012

Brinquedos Mortais nasceu a partir do conto de Saint-Clair Stockler que, mesmo curto, me causou impacto. Enxerguei na mesma hora a possibilidade de ampliar o universo que aquele conto apenas permitia entrever e idealizei essa coletânea. A Editora Draco abraçou a proposta e pusemos, então, mãos a obra. Poderíamos tê-la aberta inteira para submissões, mas nos preocupamos prioritariamente com a qualidade literária e, para evitar longas buscas e exaustivas análises, achamos por bem convidar seis integrantes, certos de que não nos decepcionariam (e, de fato, não nos decepcionaram).

São eles: Ataíde Tartari, Braulio Tavares, Carlos Orsi Martinho, Lúcio Manfredi, Luiz Bras e Roberto de Sousa Causo.

As outras quatro vagas nós as deixamos para a disputa de contendores hábeis. E que vencessem os melhores. Foram muitas as submissões e algumas delas tão boas que nos causaram verdadeira dor deixá-las de fora.

Os quatro selecionados foram:  Brontops Baruq, João Beraldo, Pedro Vieira e Sid castro. Com as narrativas dos organizadores, a coletânea perfaz ao todo doze contos.

Sinopse oficial:

Brinquedos mortais, uma coletânea organizada por Saint-Clair Stockler e Tibor Moricz, reúne 12 autores que apresentam universos díspares e, ao mesmo tempo, convergentes, dialogando com o inusitado, o assustador, o cômico e o repulsivo. Burilam seus textos com cuidado cirúrgico, capricham na prosa para oferecer aos leitores uma excelente literatura de entretenimento.

Bonecos cheios de más intenções, brinquedos ameaçadores, jogos estranhos e perigosos. Narrativas onde a morte é uma constante e onde a vida em todas as suas formas está sempre por um fio.

Ataíde Tartari , Braulio Tavares, Brontops Baruq, Carlos Orsi Martinho, João Marcelo Beraldo, Lucio Manfredi, Nelson de Oliveira, Pedro Vieira, Roberto de Sousa Causo, Saint-Clair Stockler, Sid Castro e Tibor Moricz convidam os leitores a penetrar em mundos ameaçadores e a compartilhar essa fascinante e mortal experiência.

Breve sinopse de cada conto:

• Um FDP blindado (Ataíde Tartari)

Numa releitura de Dorian Gray, o conto narra a cabulosa história de Dagá, um rapaz protegido de todas as terríveis consequências de seus atos por um incrível artefato Hi-Tech.

• HAXAN (Braulio Tavares):

Num futuro próximo, um grupo de garotos se diverte praticando pequenas transgressões, fugindo das milícias armadas, e usando aparelhos de realidade virtual com fins educativos para brincadeiras violentas.

• Astronauta (Brontops Baruq)

“As câmeras de observação de raios-x já foram objetos de uso puramente militar. Hoje qualquer camelô vende uma de brinquedo tão boa quanto as usadas pelo Exército. Com estes binóculos, é possível acompanhar a rotina e os rituais de um estranho casal, que mora no edifício em frente. Dentro de alguns minutos, será chamada a polícia. Não é maldade, é apenas outra brincadeira.”

• Grande Panteão (Carlos Orsi):

Deuses ou brinquedos? No grande panteão, sacerdotes de todas as crenças e divindades preparam seus encantos para o festival, mas nem tudo que parece mágica realmente é: engrenagens, carvão e vapor criam os milagres a que milhares de peregrinos esperam assistir.

• Brinquedo perfeito (João Beraldo)

Explorar o espaço pode ser mais fácil do que lidar com uma adolescente. É o que descobre Thiago, viajante espacial e pai solteiro. Tentando se aproximar da filha, compra em uma de suas viagens o presente perfeito.

• Hipocampo (Lúcio Manfredi)

Um game, um cavalo marinho, labirintos intermináveis e mundos paralelos. Cuidado com suas escolhas. Elas podem mudar drasticamente o mundo à sua volta.

• Daimons (Luiz Bras)

Daimons (antiga palavra grega que significa espíritos) é sobre um grupo de brinquedos inteligentes conspirando contra a hegemonia humana. Os brinquedos querem tomar o poder e pra isso precisam da ajuda das crianças, que eles tentam manipular a seu favor. Nesse conto, os brinquedos agem como consciências más, sussurrando ordens no ouvido das crianças, torturando as mais desobedientes.

• Austenolatria (Pedro Vieira)

Em Austenolatria, o estranho fetiche de um professor de literatura inglesa pelas heroínas da obra de Jane Austen deixa de ser inofensivo quando provoca ciúmes em Elizabeth Bennet e seu seleto círculo de amizades.

• Um herói para Afrodite (Roberto de Sousa Causo)

Tudo começa quando Leandro Vieira adquire, por uma pechincha, uma estatueta, estranhamente erótica, de uma mulher de beleza estonteante. Uma brincadeira revela que a deusa representada na estátua o quer como seu herói. O preço a pagar é, porém, muito alto.

• O homúnculo (Saint-Clair Stockler) 

A mais perfeita engenharia genética. Homúnculos para o deleite, para o prazer de adquirentes perturbados pela rotina. Uma brincadeira que deixa de ser divertida para começar a ser dolorosa.

• O segredo do McGuffin (Sid Castro)

Nos sombrios módulos da mais antiga Estação Espacial do Universo, na gigantesca Central da Galáxia, o detetive Sol Spada enfrenta a sedução de uma sereia laureana, a ameaça de gangsteres alienígenas e a desconfiança de um policial robô de dúbia honestidade, enquanto busca o McGuffin, um artefato dos Primordiais que pode conter… o Segredo do Universo!

• Boneca Dendem, feliz quem a tem (Tibor Moricz)

A ânsia de sentir o plástico e os circuitos internos de seus corpos substituídos por carne e sangue, move um a um os bonecos de uma cidade inteira numa viagem ao passado na busca incansável dessa realização.

***

Fiquem ligados que o lançamento é breve, muito breve… 🙂



Escreva seu conto! Participe de 2013 – Ano um.

08/07/2011

2013 – Ano um é uma iniciativa da Editora Ornitorrinco e Editora Literata e tem como organizadores Alicia Azevedo e Daniel Borba. Está aceitando submissões do dia 10 de julho a 15 de setembro.

Não é um prazo muito longo, então sugiro aos interessados que metam mãos à obra desde já.

Serão escolhidos alguns contos inéditos (não há quantidade definida) que farão companhia aos trabalhos dos seguintes autores convidados:

Roberto de Sousa Causo
Gerson Lodi-Ribeiro
Tibor Moricz
Ana Lúcia Merege
Ademir Pascale
Duda Falcão
Adriano Siqueira

Aproveitem. 2013 – Ano um será um excelente palco para desfiarmos nossas esperanças ou desesperanças na raça humana. Utopias e distopias são muito bem vindas.

Saibam dos detalhes nesse link:
http://www.editoraornitorrinco.com.br/2013/sinopse.html

Assembleia Estelar, lido e comentado.

13/06/2011

A coletânea Assembleia Estelar, organizada por Marcello Branco e publicada pela Editora Devir conta com 14 noveletas/contos, tem 408 páginas e seu tema está voltado à política e a tudo aquilo que a constitui e a complementa.

Comecei a leitura com grandes expectativas imaginando que o tema proposto exigiria trabalhos muito bem elaborados e necessariamente (não obrigatoriamente) hipnóticos. Não foi exatamente o que encontrei. Surpreendeu-me, sobretudo, encontrar trabalhos com pouquíssimas páginas quando uma das exigências era a de que as narrativas deveriam obedecer ao formato noveleta.

Ou faltaram trabalhos melhores e mais complexos, ou uma flexibilidade de última hora do organizador atingiu níveis estratosféricos.

Assembleia Estelar recebe um BOM pelo conjunto, embora não seja exatamente uma coletânea memorável.

A capa old-fashioned (autor: Vagner Vargas) repete o padrão apresentado por outros livros da Devir. Eu, particularmente, não gosto delas, embora reconheça a qualidade dos traços artísticos do capista. Já estava na hora da Devir se lembrar de que estamos no século XXI. Os anos 1960 ficaram para trás.

As escolhas recaíram sobre autores nacionais e estrangeiros, trazendo-nos trabalhos de Bruce Sterling, Ursula K. Le Guin e Orson Scott Card, além de Fernando Bonassi, André Carneiro, Ataíde Tartari, Henrique Flory, Daniel Fresnot, Luis Filipe Silva, Flávio Medeiros, Carlos Orsi, Miguel Carqueija, Roberto de Sousa Causo e Roberval Barcellos.

Vamos aos comentários.

• A queda de Roma antes da telenovela
Luis Filipe Silva

O que seria se cada votação de projeto de lei fosse transformada em espetáculo, transmitido em rede nacional de TV? Luis Filipe Silva fala de um futuro hipotético onde políticos perfeitamente integrados ao modus operandi da época lidam com um parlamentar cujas técnicas ainda obedecem às velhas fórmulas do século XX, nas quais os debates ainda se sobrepujam a mera análise estatística dos números. Não se trata de uma noveleta com ação e momentos de tirar o fôlego, trata-se de uma abordagem reflexiva que caminha paripasso para um final coerente. Se não arrebata, também não aborrece. MÉDIO

•Anauê
Roberval Barcellos

Trata-se de uma história alternativa onde, em 1980, o Brasil é governado por integralistas e tem a Alemanha nazista como aliada. Esperam por Hudolf Hess, que visitará o país. O autor traz à tona toda a sensação de indignidade e revolta que a política de extermínio de judeus provocou, explorando esse cenário em pleno território brasileiro. O conto começa bem, porém, na medida em que avança, vai descendo a ladeira. Há momentos inverossímeis, pouca habilidade nas cenas de ação (que são ingênuas) e um final apressado (e piegas) que foi decepcionante. RUIM

• Gabinete blindado
André Carneiro

Sabotadores se preparam para a ação enquanto uma das integrantes mergulha em reminiscências e reflexões. Poderia ser uma história bastante interessante se houvesse uma preocupação maior com a trama do que com a literariedade. Eu vivo reclamando a pouca preocupação do escritor brasileiro com a forma, mas também condeno os exageros. Nesse caso, André Carneiro chutou pra escanteio o enredo, apresentando-o de forma fragmentada, e valorizou excessivamente a qualidade técnica. Tratou-se de uma leitura arrastada e aborrecida. RUIM

•Trunfo de Campanha
Roberto de Sousa Causo

Essa noveleta fala de estratégias políticas que pretendem conferir a um único homem poder absoluto sobre o universo conhecido. Parece-se muito com um excerto, um trecho extraído de uma obra maior e mais completa — e isso a enfraquece. A preocupação em detalhar o cenário político desse universo força a narrativa a uma leitura cansativa. Não há pontos de tensão, não há ação (e quando há, não convence). Monocórdia da primeira à última linha parece ter sido escolhida para esse livro em virtude apenas do aprofundamento político que lhe é dada. O organizador ignorou qualquer necessidade de tensão. Final previsível e ingênuo. RUIM

• Diário do cerco de Nova Iorque
Daniel Fresnot

Escritor francês em visita à America do Norte assiste convulsão social onde Nova Iorque mergulha numa batalha contra o resto do país. Narrativa hipnótica, muito bem conduzida, ritmo excelente. O leitor se vê arrastado em meio à trama, ansioso pelo final. Destaque especialíssimo a Jack, o periquito. MUITO BOM

• Saara Gardens
Ataíde Tartari

Esse é o trabalho mais curto do livro. Narra tramas políticas que visam permitir a exploração do deserto do Saara num empreendimento imobiliário. Conhecido por seu estilo despojado, Ataíde Tartari explora alusões a empreiteiras e personalidades contemporâneas. O conto peca especialmente por ser muito curto. Não há desenvolvimento, não há aprofundamento, não há envolvimento. O subterrâneo e os bastidores políticos poderiam ter sido melhor explorados. Quando achamos que o conto está começando, ele termina. Sua absoluta despretensão também o enfraquece. RUIM

• Era de aquário
Miguel Carqueija

Embora seja também curto, esse conto tem um desenvolvimento mais equilibrado. Um senador se prepara para uma importante conferência numa universidade em meio a um cenário distópico e caótico, onde assassinatos e convulsões sociais são regra e não exceção. Boa condução e bom ritmo. Agradável leitura. BOM

• A evolução dos homens sem pernas
Fernando Bonassi

A história discorre com ironia e se revela uma metáfora para a ciranda evolutiva do Homem, que constrói o ambiente de acordo com as suas necessidades, até que suas necessidades sejam o ambiente que o cerca. Atraente sem ser apaixonante, o conto se descobre profético. BOM

•A pedra que canta
Henrique Flory

Uma criança doente se revela potencialmente perigosa quando tem implantado cirurgicamente um dispositivo que a permite enxergar pontos de tensão em estruturas. Será importantíssimo em uma missão de sabotagem que pretende destruir Buenos Aires. Trata-se de uma história bastante interessante, bem contada e com bom ritmo. BOM

• O dia antes da revolução
Ursula K. Le Guin

Noveleta em ritmo de reminiscências, onde a protagonista revive o passado às vésperas de uma revolução. Também como excerto, o trabalho acaba sendo linear demais, não oferecendo os pontos de tensão tão necessários para aprisionar a atenção durante a leitura. Muito bem escrito, porém. Mas basta isso? A mim, não. MÉDIO

•O grande rio
Flávio Medeiros Jr.

Trata-se, sem dúvida, do melhor trabalho dessa coletânea. O assassinato de John Kennedy é planejado muitos anos depois de sua eleição, num mundo mergulhado na guerra. Viagem no tempo, paradoxos e muita criatividade. ÓTIMO.

•O originista
Orson Scott Card

O estudo da origem e complexidade da linguagem na formação histórica do ser humano trabalhado com maestria por Card. A história está baseada na trilogia da Fundação de Asimov e os protagonistas trabalham nos subterrâneos pela formação da Segunda Fundação. Talvez uma das narrativas mais longas, mas nem por isso aborrecida. Card conduz muito bem a história conseguindo prender a atenção do leitor com rara habilidade. Por vezes me flagrei protelando a leitura com medo que ela se acabasse. MUITO BOM

• Questão de sobrevivência
Carlos Orsi

São Paulo, ano de 2030. O caos social implode a cidade, doenças misteriosas assolam a população menos favorecida, governantes não têm pruridos em dizimar massas humanas em nome da ordem. Nesse cenário extremamente caótico um grupo de resistentes toma de assalto um veículo de transporte de leite materno. Dramático e pungente. Carlos Orsi consegue com habilidade narrar uma história assustadora. BOM

•Vemos as coisas de modo diferente
Bruce Sterling

Jornalista muçulmano visita os EUA para entrevistar um político líder de uma banda de rock. Com boa condução essa história bastante interessante nos traz um mundo sociopoliticamente transformado, num tempo em  que os EUA não são mais a polícia do mundo e as terras do Islã se uniram num único Califado. Profético, talvez? BOM

Bruce Sterling e Roberto de Sousa Causo, juntos.

25/11/2010

Título: Duplo Cyberpunk: O Consertador de Bicicletas/Vale-Tudo
Autores: Bruce Sterling/Roberto de Sousa Causo
Capa: Benson Chin
Número de páginas: 128
Formato: 9 x 15 cm
Editora: Devir Livraria – selo Asas do Vento
ISBN: 978-85-7532-455-5
Preço: R$ 15,90

Duas narrativas ousadas mas bem-humoradas sobre a vida nas ruas de grandes metrópoles do futuro próximo. Explorando a tecnologia da informação e a interface entre o homem e a máquina, a ficção científica cyberpunk tem estado na dianteira do gênero desde a década de 1980, e tem como principais expoentes Bruce Sterling e William Gibson.

As Histórias

O Consertador de Bicicletas (“Bicycle Repairman”), de Bruce Sterling. Nesta novela vencedora do Prêmio Hugo 1997, Sterling coloca Lyle Schweik, um simples consertador de bicicletas, no centro de uma intriga internacional envolvendo comunidades anarquistas, personalidades cibernéticas e contrabando de sistemas secretos. Bruce Sterling é autor do romance Tempo Fechado, também lançado pela Devir. “Bicycle Repairman” foi traduzida por Carlos Angelo.

“O Robin Hood dos foras-da-lei eletrônicos… Ninguém escreve melhor sobre o fato de que o fantasma na máquina somos nós.”
The Times

Vale-Tudo, de Roberto de Sousa Causo. Uma noveleta que descreve a visita da jornalista americana Jareen Jackson a um Brasil caótico, onde ela se depara com bizarros reality shows e um grupo de resistência social que tenta expor a verdade sobre o devastador acidente nuclear que mudou o país.

“Talvez um dos melhores autores da ficção científica brasileira da atualidade.”
—Ronaldo Bressane, Brasil Econômico

Os Autores

Bruce Sterling nasceu no Texas mas vive hoje na Itália. Começou a publicar ficção científica em fins da década de 1970, e durante os anos oitenta se tornou o principal promotor daquilo que ficou conhecido como o Movimento Cyberpunk, uma revolução dentro da ficção científica. Sterling, que organizou a primeira antologia cyberpunk, Reflexos do Futuro (Mirrorshades), ganhou o Prêmio John W. Campbell com o romance Piratas de Dados (Islands in the Net). Sterling recebeu também o Prêmio Hugo de 1997 com a noveleta “O Consertador de Bicicleta” e o Hugo 1999 com “Taklamakan”, outra noveleta. Distraction (1999), um romance, recebeu o Arthur C. Clarke Award 2000. Com William Gibson, escreveu The Difference Engine (1991), ajudando a sedimentar um novo subgênero para a ficção científica — o steampunk, muito em voga na atualidade. É editor contribuinte da revista Wired, e escreve um weblog. Durante 2005, foi o “Visionário Residente” junto ao Art Center College of Design em Pasadena, Califórnia. Em 2008, foi o Curador Convidado do Festival Share de Arte e Cultura Digital Art em Turim, Itália, e o Visionário Residente junto ao Sandberg Instituut em Amsterdã. Já apareceu nos programas Nightline da ABC, The Late Show da BBC, Morningside da CBC, na MTV e na TechTV, e em revistas e jornais como Time, Newsweek, The Wall Street Journal, o New York Times, Fortune, Nature, I.D., Metropolis, Technology Review, Der Spiegel, La Republica, e muitos outros veículos.

Roberto de Sousa Causo é autor dos romances A Corrida do Rinoceronte (2006) e Anjo de Dor (2009), ambos pela Devir, e da novela Selva Brasil (2010). É também organizador das antologias Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica (2008) e Rumo à Fantasia (2009), entre outras. Já contribuiu com o Jornal da Tarde, o Jornal do Brasil e a Gazetta Mercantil, e com as revistas Cult e Ciência Hoje, e é autor do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950. Causo mantém desde 2005 uma coluna sobre ficção científica no Terra Magazine, a revista eletrônica do Portal Terra. É vencedor dos concursos III Festival Universitário de Literatura e Projeto Nascente 11 (melhor texto).

Sobre o selo Asas do Vento: A Devir entra no mercado dos livros de bolso com uma linha de livros de fantasia, horror, ficção científica e aventura, publicando, em combinações surpreendentes, o melhor dos autores nacionais e estrangeiros. Uma parte importante do trabalho de edição é encontrar um formato para se publicar textos ou histórias que o editor acredita ser relevante e merecedor de publicação.

A literatura fantástica está repleta de histórias curtas de grande qualidade que não encontrávamos uma maneira adequada de publicar. A coleção Asas do Vento vem justamente preencher essa lacuna. Ela é uma série de livros de bolso de acabamento primoroso, que visa publicar histórias mais curtas (contos, novelas, noveletas) que se destacam mas que normalmente acabam esquecidas por não terem tamanho suficiente para ocupar um livro de tamanho normal ou encontram espaço apenas em revistas ou antologias.

Com alta portabilidade, ao contrário da maioria das edições de bolso no Brasil, os livros da Asas do Vento realmente cabem no bolso (e nas bolsas). Com capa semi-rígida, também possuem maior durabilidade. Livros para desfrutar e colecionar.

Os livros da Asas do Vento estarão disponíveis em livrarias e bancas selecionadas.

“Bruce Sterling no Brasil: Um dos lançadores do Movimento Cyberpunk e autor de Tempo Fechado e Piratas de Dados, o americano Bruce Sterling estará em São Paulo entre os dias 2 e 7 de dezembro de 2010. Em promoção das editoras Devir e Terracota, e da Universidade Cruzeiro do Sul, Sterling estará ministrando oficinas dentro do I Encontro Extensão para o Futuro – informações em http://terracotaeditora.com.br/?p=648 -, e fará sessão de autógrafos na FNAC Paulista (Av. Paulista N.º 901, Bela Vista, São Paulo-SP, perto do da Estação Brigadeiro do Metrô), no dia 6 de dezembro, das 18h30 às 21h30.”

Portal 2001 – Lido e comentado.

14/09/2010

Ter recebido todos os cinco portais tem sido uma honra que devo a Nelson de Oliveira, a quem agradeço pela enorme generosidade.

Recentemente me inquiriram sobre os dois primeiros (Solaris e Neuromancer) e se eu os tinha lido e comentado aqui no blog. Até pensei que tinha e fui procurá-los. Com surpresa descobri que, embora os tenha lido, não os resenhei.

Fica para uma próxima encarnação, então.

Perguntaram-me também porque ainda não tinha publicado nenhum conto nos portais. Respondi que até ia publicar no Neuromancer, mas problemas financeiros súbitos me impediram. Depois acabei desistindo por optar em manter um comportamento único para todas as coletâneas pagas. Ou seja: se tenho que pagar, então não participo.

Isso não tem nada a ver com qualidade editorial ou literária. Nem se se trata de coletânea caça-níquel ou não. Apenas critério.

Quanto ao Portal 2001, recebi e o li quase numa só tacada (tá, uma tacada que demorou uns cinco dias… rs). Gostei bastante desse, talvez mais que dos demais. Ainda assim há contos que não conseguiram dialogar comigo, nada tiveram a me dizer. Assim, ignorarei a esses, não os comentando (Não significam que sejam ruins, embora alguns sejam, sim, eca!). Poupo o meu vernáculo e poupo a integridade intelectual do autor.

Vamos aos meus comentários:

A república do recurso infinito – Braulio Tavares.

Braulio Tavares é hoje uma unanimidade nacional (por mais que toda a unanimidade seja burra, segundo Nelson Rodrigues). Dono de uma verve excelente e admirável criatividade. Nesse conto ele consegue ser bastante desconcertante. A excelência levada à enésima potencia fragmenta a sociedade em compartimentos cada vez menores e burocraticamente controlados. Traz como resultado a opressividade do controle estatal sobre o indivíduo.

Arribação rubra – Roberto de Sousa Causo.

O conto é um prosseguimento de trabalhos anteriores, publicados desde o primeiro Portal. Shiroma é a protagonista, uma agente mortífera e arduamente treinada. Assassina, trata-se de uma ferramenta eficaz nas mãos de tutores inescrupulosos. Dessa vez vi uma personagem mais falível. Não tanto inatingível ou implacável. O autor revelou que por trás da carapaça de eficácia se esconde uma mulher frágil e com anseios bastante humanos. Shiroma mesmo sob um aparente fracasso, completa sua missão de forma bem sucedida. Gostei muito da ambientação e do cenário. Dos contos do Causo com essa protagonista, o melhor até agora.

A paz forçada – Mayrant Gallo.

Nesse conto, o autor explora um futuro próximo onde questões políticas aparentemente insolúveis entre países, são resolvidas com pulverizações continentais. Mostra um avanço científico e tecnológico irreal para daqui a 30 ou 40 anos. Narrativa fluida e até contagiante, porém superficial. Mostra uma nova ordem mundial geopolítica numa abordagem muito periférica.

Além do espelho – Claudio Parreira.

Bebum numa mesa de bar devaneia ou vive uma realidade que só ele é capaz de atingir. Homem desesperado pela perda da mulher a quem amava faz trato com figura misteriosa, fruto do entorpecimento de seus sentidos ou entidade fantástica. Realidade e fantasia se misturam de forma que somos incapazes de dizer qual delas domina o cenário.

Sentinela – Delfin.

Avanço científico e tecnológico permite ao homem criar clones de si mesmo, estéreis, porém. O que não se poderia supor é que essa criação se tornasse independente, reivindicando direitos que antes não possuía. O problema se torna tão emblemático que apenas a guerra poderá resolver. É quando soluções alternativas são elaboradas. Boa narrativa de viagem no tempo, linguagem consistente e boa solução, embora relativamente previsível.

Herdeiro dos ventos – Mustafá Ali Kanso.

Esse conto me surpreendeu. Bela e poética narrativa sobre a necessidade de ser livre nos atos e pensamentos, sem patrulhamento ideológico e sobre a prisão que os incompetentes, os invejosos, os frustrados e os amargos constroem ao redor daqueles que buscam a realização pessoal.

Uma carta para Guinevere – Mustafá Ali Kanso.

Homem em vias de realizar uma viagem espacial e se ausentar da Terra por séculos em voo subluminar redige a derradeira carta aos que ama. Poético como o anterior, mas não tão intenso nem tão deslumbrante.

Planetas invisíveis: Diana – Brontops Baruq.

Em fuga de crises sucessivas, povo encontra na miniaturização a solução para seus problemas até que o verdadeiro problema se torne a miniaturização. Cenário fascinante que mereceria um trabalho mais longo. Uma novela ou um romance. Criativo e admirável.

Rebobinados – Brontops Baruq.

Presidiário enviado em viagem de 1.800 anos junto a um maníaco sexual. Luta diuturna para manter a integridade física. Interessante (embora absurda) concepção de longevidade para que os protagonistas terminem a viagem ainda vivos. Bem conduzido e construído.

Prometeu acorrentado reboot – Sid Castro.

Nave terráquea encontra planeta gigante com fascinante estrutura de vida. Boa condução embora tenha sido bastante previsível. A complexidade científica apresentada escapa ao meu conhecimento.

Novo Início – Marcelo L. Bighetti.

Esse conto mexe com argumentos difíceis de deixar de lado, pelo menos para mim. Nazismo, ufologia e viagem no tempo. Trata-se por isso, de um trabalho com o condão de me prender na poltrona, logo nas primeiras linhas. Por outro lado, o autor comete alguns pecadilhos. Um deles é o de entregar o final do conto logo na quarta página, tirando qualquer surpresa do leitor. Outro se vê na aparente necessidade de enxugar o texto. Coisas ficaram mal explicadas, como, por exemplo, o que a descoberta de um disco voador com tripulantes moribundos tem a ver com uma passagem temporal (ou buraco de minhoca). O autor não explica como os cientistas chegaram às suas conclusões. Também ignora as inúmeras possibilidades de alteração de passado que redundariam em futuros os mais díspares e não apenas naquele que encerra o conto. Assim, embora o argumento seja fascinante, faltou a ele maiores explicações para que tivesse mais consistência. Como uma parede de tijolos sem argamassa. Qualquer esbarrão e vai tudo por terra.

Contato alpha 9 – Rodrigo Novaes de Almeida.

Esse conto me fez lembrar vagamente de O túnel do tempo pelo estilo de narrativa. Observadores externos assistem momentos históricos extraídos dos sonhos de humanos. Buscam por um artefato com o poder de destruir toda a galáxia. O conto traz coordenadas geográficas que tive a pachorra de verificar. Não são aleatórias (Que cada leitor faça a mesma verificação e descubra a que lugares representam). Segue um bom ritmo.

Neve e sanduiches, A gruta de Vênus, Eblon, Mãos de borracha – Maria Helena Bandeira.

Os quatro contos seguem os mesmos parâmetros dos trabalhos anteriores dessa autora. Com um pouco menos de hermetismo, talvez, mas ainda demonstram o desinteresse numa história linear, com começo, meio e fim, perfeitamente delineados. Isso não é ruim. A autora brinca com situações cotidianas em cenários alienígenas ou não, cenários bizarros ou fantásticos, mas cientificamente alterados indicando um tempo (ou realidade) além do nosso. Não são particularmente bons, mas também não são particularmente médios (ruins não são). Me deu aquele gosto de gostei/não gostei tanto. Na necessidade de classificar, opto então por um bom.

Primeiro de abril: Corpus Christi – Luiz Bras.

Cidade autoconsciente sofre ataques que visam penetrá-la, compreendê-la e, se possível, neutralizá-la. A história confusa, alegórica e aparentemente sem sentido me obrigou a erguer a suspensão de credulidade e passar a lê-la como um texto de fantasia.

Futuro do pretérito Ricardo Delfin.

Narrativa muito interessante, inteira no futuro do pretérito. Remete-nos a uma espécie de fast forward antecipando acontecimentos futuros dramáticos. Nada a ver com FC (pra mim), tem os dois pés no fantástico.

Gazeta marciana – Ricardo Delfin.

Notícias de uma Marte futurística onde o homem já a colonizou e nela construiu suas cidades. Ambiente curioso embora nada muito diferente daquilo que vivemos agora. A existência de uma civilização marciana nativa desloca o conto da FC para a fantasia, descaracterizando o cenário.

Amor perfeito – Rogers Silva.

Ode ao amor entre dois antagônicos pós-apocalipse permite inúmeras reflexões. Narrativa de orações extensas e que nos obriga a uma leitura atenta. O risco de se perder entre os dois narradores é grande. Texto muito bem trabalhado, embora eu creia que se prolongue demasiadamente, tornando-a cansativa.

Contos imediatos. Dois exemplares sorteados já têm dono.

05/08/2010

Os famosos papeis picotados foram chacoalhados, atirados para cima, para os lados, para baixo, pisoteados e chutados. Os dois que sobraram depois de toda essa tortura massacrante foram os com os seguintes nomes:

– Flávio Medeiros

– Alliah

Tenho o prazer de anunciá-los como vencedores em mais um sorteio do É só outro blogue. Receberão, no conforto de suas casas, um exemplar de Contos imediatos, livro publicado pela Terracota editora e organizado por Roberto de Sousa Causo.

Parabéns aos dois!

Contos imediatos – sorteio

28/07/2010

Seguindo a política de realizar sorteios eventuais, coloco agora dois exemplares de Contos Imediatos, livro organizado por Roberto de Sousa Causo e publicado pela Terracota Editora, na pauta. Concorrerão aqueles que (repito sempre isso) deixarem comentário com email válido. A tecnologia de sorteio já é conhecida por todos (e quem não conhece, pergunte ao vizinho). Vale dizer que tem conto meu nesse livro. Se isso é garantia de qualidade? De jeito nenhum. Mas quem tem ânsias de criticar algo que eu tenha escrito, aí está uma boa oportunidade… rs.

São esses os autores presentes na obra: André Carneiro, Ataíde Tartari, Ademir Pascale, Chico Pascoal, João Batista Melo, Jorge Luiz Calife, Luiz Bras, Miguel Carqueija, Mustafá Ali Kanso, Sidemar V. de Castro, Tatiana Alves e eu.

Os ganhadores anteriores poderão participar, sem problemas.

Gostaria de desejar boa sorte para todos, mas só dois vão ganhar. Então, boa sorte a dois de vocês!

Draco anuncia: Selva Brasil está aí.

29/03/2010

Esta é uma história alternativa que imagina como seria o Brasil vinte anos depois da invasão militar brasileira das Guianas, na Fronteira Norte, segundo os planos megalomaníacos do Presidente Jânio Quadros. Simultaneamente, a Argentina invadiu as Ilhas Malvinas, no Atlântico Sul.

Contudo, uma coalizão formada pelos países atingidos pela ação militar brasileira – Inglaterra, França e Holanda – e os Estados Unidos contra‑atacaram e empurraram os soldados brasileiros de volta, ficando com um bom pedaço da Amazônia Brasileira.

Desde então instalou-se um conflito permanente na região, com o Brasil e aliados latino-americanos lutando para retomar o território perdido e manter sob controle uma guerrilha patrocinada por aqueles países do Primeiro Mundo. É um Brasil completamente diferente do nosso, contido política e economicamente por esse conflito perpétuo, e com gerações de jovens brasileiros comprometidas com o conflito.

Amparada por uma pesquisa cuidadosa, Selva Brasil acompanha um grupo de soldados que – ao seguir para um ponto anônimo do Amapá, na fronteira com a Guiana Francesa, onde devem substituir uma outra unidade do Exército Brasileiro – se depara com desertores e com um plano secreto para romper as regras de engajamento que limitam o conflito na região.

Ao mesmo tempo, esses homens são confrontados com um estranho experimento militar que, indo além dos parâmetros do seu projeto, pode ter aberto um portal entre essa realidade paralela e a nossa.

Roberto de Sousa Causo

formado em Letras pela USP, é autor dos livros de contos A Dança das Sombras (1999) e A Sombra dos Homens (2004), dos romances A Corrida do Rinoceronte (2006) e Anjo de Dor (2009) e do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil (2003). Seus contos apareceram em revistas e livros de dez países. Foi um dos classificados do Prêmio Jerônimo Monteiro e no III Festival Universitário de Literatura (com Terra Verde 2001); e ganhador do Projeto Nascente 11 de Melhor Texto, com O Par: Uma Novela Amazônica (2008).

Autor: Roberto de Sousa Causo
ISBN: 978-85-62942-07-5
Gênero: Literatura Fantástica
Formato: 14cm x 21cm
Páginas: 112 em preto e branco, em papel pólen bold 90g
Capa: Cartão 250g, laminação fosca, com orelhas de 6cm
Preço de capa: R$ 26,90

De Bar em Bar entrevista: Roberto de Sousa Causo

11/03/2010

Denso. Muito denso. A floresta estava fechada como uma teia de infindáveis ramificações. E tão abafada que minha grossa camisa de linho empapou de suor em poucos minutos. Olhei para o relógio quântico, tentando entender o que uma pré-programação que especificava um bar de oficiais num quartel na Oceania tinha a ver com mata, insetos e umidade intensa.

Observei melhor minhas roupas e me vi como um perfeito pé de alface, mas camuflado. Uniforme de milico, coturnos. A fivela do cinto estava suja, riscada e amassada. As calças exibiam alguns amassados. Deitado, as costas apoiadas num tronco caído, meio apodrecido. Um tapete de folhas cobria o chão, em meio a depressões, arbustos, cipós, mosquitos e formigas. Minha bunda estava apoiada numa pedra. Movi os quadris com cautela, procurando uma posição mais confortável.

Estava sozinho.

Olhei o relógio mais uma vez. Era para ter ao lado o entrevistado, e cheguei a pensar que ele estivesse bem longe, na caserna planejada, quando ouvi resmungos não muito distantes.

Ponderei minha situação e o histórico de entrevistas anteriores. Em nenhuma delas as coisas correram normalmente. Essa já havia começado errado e eu torcia muito para que os erros parassem por ali. Virei o corpo devagar procurando fazer o menor barulho possível, e espiei por cima do tronco atrás do qual me escondia. Não vi nada digno de nota. Mas os resmungos se repetiram. Tentei enxergar mais longe, procurando vencer a barreira imposta pela mata fechada, quando fui surpreendido. Do outro lado do tronco, de espessura razoável, ergueu-se uma cabeça. Um par de olhos cujo olhar preocupado chocou-se contra o meu.

Recuperado do susto, me acalmei. Era o Causo.

Contornar o tronco não foi trabalhoso. Nem sei por que eu o fiz rastejando já que poderia me erguer, mas havia uma sensação predominante de perigo. Quando cheguei até ele, vi um rosto cheio de arranhões, uniforme barrento, rasgado e descomposto.

— Sabe quanto tive que rastejar até chegar a esse tronco? — ele me perguntou, com uma irritação genuína na voz.

— Mas chegamos agora mesmo.

— Talvez você! Eu estou aqui há mais de uma hora!

Olhei para o relógio de novo. Se ele continuasse a cometer essas bizarrices, mesmo depois de exaustivamente enviado para conserto, eu teria que abandonar as entrevistas. Perigoso demais para todos.

— Espero que tenha dado tudo certo, nesse tempo — respondi, constrangido.

Foi quando eu o olhei mais detidamente. Além do uniforme em petição de miséria, trazia um fuzil. O mais perturbador foi vê-lo descalço. Os pés imundos e arranhados, as unhas sujas. Pensei em perguntar o porquê, mas temia a resposta.

— Ipanema! — ele disse, num sussurro raivoso.

— Como?

— Ipanema! Nem havaianas eram. I-pa-ne-ma! Você me trouxe para cá, de chinelos! CHI-NE-LOS!

Alguma coisa aclarou em minha memória.

— Você havia me dito, meses atrás, que coturnos lhe causavam frieiras…

Ele não respondeu, limitando-se a me lançar um olhar assassino. Os pés, além de arranhados, exibiam brotoejas inchadas e vermelhas. Picadas de insetos, na certa.

—… Os chinelos estão…

Ele ergueu uma das mãos. Um pé estava com ele. Uma das tiras solta, rasgada. Imaginei que o outro estivesse perdido na floresta.

— E por que rastejou até aqui? Por que não esperou onde estava?

— Por que só tenho cinco cartuchos. Podia ser uma AK105, ou uma FN Scar-L, ou uma FN 2000, armas modernas! Mas você me trouxe para cá com um antiquado mosquefal! E um maldito estilingue!

Ele retirou o estilingue do bolso traseiro e o jogou em cima de mim.

— Com apenas cinco cartuchos não posso enfrentar um contingente de contrabandistas, mercenários, guerrilheiros… Sei lá quem eram os homens que me perseguiram pela mata!

Fiquei calado, olhando para ele. O que diria? Que após um longo período onde o maldito relógio quântico deveria ter sido reparado, nada foi feito de efetivo? Que os perigos enfrentados nas entrevistas anteriores continuavam com a mesma intensidade? Pensei em guerrilheiros armados até os dentes, caminhando pela floresta, talvez longe de nós, talvez próximos. Estremeci.

— Cadê o bar? — perguntou o Causo, cheio de razão.

— Não sei — murmurei, aborrecido.

— Não é “De Bar em Bar”? Cadê a droga do bar? — voltou a perguntar, com evidente inconformismo.

Apertei os botões do relógio tentando abortar a entrevista, mas, claro, não funcionaram. Por que funcionariam?

— Você me disse que não bebe…

— Nem suco de laranja? Nem limonada? Nem água mineral? Não bebo nada?

Ele chacoalhou os pés, tentando afastar uma nuvem de muriçocas que os esvoaçavam. Recostei-me ao seu lado, ombro a ombro. Reclamos em nada adiantariam. Era melhor entrar no assunto. Pigarreei, ajeitei melhor as costas contra o tronco, flexionei as pernas e, observando melhor o estilingue, perguntei:

— Você acha que o mercado de literatura de gênero está amadurecido o bastante para abrigar prêmios literários?

Causo coçou o nariz, aproximou o mosquefal de si, acariciando de leve o ferrolho e fechou os olhos momentaneamente.

— Não é questão de maturidade — começou. — É questão de olhar em volta, enxergar o que há para enxergar, reconhecer o valor que há para se reconhecer. Um prêmio do tipo melhores do ano é como uma grande patrulha de reconhecimento… gera informação essencial para se poder operar no terreno de um teatro de operações. Revela quem está atuando, que indivíduos, que grupos, nesse terreno.

Parou e olhou para o céu entremeado pelas altas ramagens. Franziu o cenho.

— Algum problema? — perguntei.

— Não… Nada. Acho…

Ergueu-se de leve e olhou para o outro lado do tronco. Perscrutou a redondeza. Verificou o fuzil, testando a alça de mira.

— Prêmios assim permitem que a gente se organize e faça planos de atuação. Gera informação. Pode ser que seja uma informação que não bata com a expectativa, mas informação é informação; e informação é essencial. A criação de um prêmio desse tipo já passou da hora.

Abaixou a arma e se agachou, voltando a se esconder atrás do tronco; aproximou os pés e os coçou com vontade. Uma das unhas parecia solta.

— Quando isto acabar e eu voltar pra casa, meus pés continuarão assim?

— Não sei.

— Que droga. Eles parecem dois cancros. A Finisia vai me pôr pra dormir na sala por uns três dias.

— O ritmo de lançamentos mostra um mercado efervescente. Mais quantidade que qualidade? Ou há algum equilíbrio?

— Está com pressa de acabar, hein?

— Você não está?

— Estou, claro. Não enxergo equilíbrio ainda. Mas provavelmente ele nunca houve ou haverá. A Lei de Sturgeon impera na selva: “90% de toda a FC é lixo; mas pensando bem, 90% de tudo é lixo.” O que importa agora é que um número recorde de pequenas editoras está aceitando trabalhos e procurando autores. Dessa ponta do mercado, eu diria que…

O Causo parou de novo. Dessa vez mais atento. Pareceu farejar o ar. Tentei prestar atenção, captar alguma coisa que ele, evidentemente, já vinha captando. Senti uma vibração, suave, melíflua, quase imperceptível. A vida na floresta se calou. Nenhum pio, nenhum chiado, nenhum coaxar ou cantar de cigarras. Silêncio completo. A vibração não mudava de intensidade. Nossos olhares se mantinham voltados para cima. O meu acompanhava o dele e mesmo sem saber o que havia para se ver, esperava por alguma coisa. Logo, as altas árvores da floresta pareceram se vergar, como se alguma coisa muito, muito grande estivesse bem próximo dali e cuja estranha emanação exercesse misterioso poder sobre elas. O Causo ergueu-se um pouco, pondo-se sentado. Ia se levantar quando uma pequena explosão fez voar estilhaços de madeira para todos os lados. Uma segunda e uma terceira vieram em seguida. Uma quarta passou zunindo e foi explodir no tronco de uma figueira, uma dezena de metros à frente. Ele se jogou no chão, assustado. Eu me mantive ali, estilingue firmemente agarrado. Apertando os ponteiros do relógio, sem nenhum resultado.

— Os malditos! — ele vociferou, irritado.

— Eu diria — prosseguiu com a resposta, para minha mais completa surpresa, enquanto empunhava o fuzil — que o mercado está mesmo aquecido. Na ponta do lado do leitor, talvez nem tanto. Mas cada oportunidade conta. Cada autor deve se fazer valer nessa batalha, com trabalhos de qualidade, mais representativos e menos participativos. O combatente tem que durar na ação… Com sorte, alguns sobreviverão para assistir à vitória final, num futuro próximo.

— Futuro próximo? Batalha? Vencedor? Combatente? Deus, você incorporou o espírito do guerreiro exaltado! Socorro!

— Estamos em guerra. Empunhe a sua arma, soldado!

Ergui o estilingue, olhando perplexo para ele. As balas continuavam explodindo contra o tronco e silvando sobre nossas cabeças. Ouvíamos palavras de ordem gritadas nalgum lugar distante. Falavam em espanhol.

— São as FARC! — vociferou Causo, enquanto esperava uma oportunidade para se erguer e dar seu primeiro disparo. — Vamos, faça as outras perguntas. Ou acabou?

Quem tem presença de espírito para fazer perguntas em meio a uma saraivada de balas? Respirei fundo tentando controlar o tremor e a gagueira.

— A discussão mainstream X gênero continua com fôlego. Você acha que existe alguma possibilidade de ambos os gêneros evoluírem um com o outro?

— Esta é a grande questão literária para a FC e a fantasia no século XXI. Incrível que os generais Luiz Bras e Nelson de Oliveira tenham tido tamanha ousadia estratégica neste conflito, mas eles ousaram dizer que o mainstream deveria se aproximar da FC para se renovar e evitar a estagnação nas suas fileiras. Antes disso só se dizia que a FC precisava se aproximar do mainstream para deixar as barricadas do gueto, para amadurecer como literatura. Engraçado é que eu, que fui chamado por muita gente de guardião dos portões do gueto, já fazia incursões fora dos seus muros há algum tempo. Ganhei concursos mainstream como o Festival Universitário de Literatura e o Projeto Nascente, e apareci nas publicações mainstream Cult e Rascunho. Nunca precisei mudar as características da minha ficção para isso. Então essa batalha é complexa e desafiadora, mas a discussão lançada por Bras e Oliveira é mais do que bem-vinda… ela também já passou da hora, mesmo considerando que ter sido lançada por gente do mainstream como eles é absolutamente extraordinário. Mas eu não me surpreenderia se, na aliança entre mainstream e FC, surgisse algo pouco reconhecível pra quem conhece a ficção científica e trabalha com ela há algum tempo. Nessa aliança, o mainstream sempre terá mais poder.

Ele pareceu terminar. Ficou agarrado ao fuzil, olhando para mim. Seu olhar era de uma grande determinação. Vazava deles um ódio genuíno — mas não por mim — que me assustou.

— Eles pararam de atirar. É a nossa oportunidade de mostrar que não estamos indefesos. Se atirarmos juntos e em sucessão, pensarão que somos muitos — explicou. — Terão mais cautela.

Tentei avisar que ele só tinha cinco cartuchos e que eu estava com um estilingue, mas nada parecia demovê-lo da ideia. Posicionou-se de joelhos, em posição de tiro. Procurou por algum movimento que pudesse denunciar nossos inimigos. Instou-me, mais uma vez, a me preparar com a atiradeira. Fiz o que ele falou. De que adiantava qualquer argumentação contrária? Ele queria nos matar. Apalpei o chão atrás de alguma pedra. Peguei uma pesada e roliça. Preta. Coloquei-a a tencionei a borracha cirúrgica ao máximo de sua elasticidade.

— Pronto! — eu disse, apavorado.

— Atire primeiro. Isso poderá denunciá-los. Aí eu atirarei em seguida assim que um deles se mover.

Disparei, vendo a pedra se distanciar num arco preciso. Instantes depois ela se abriu, parou em meio à sua trajetória e se elevou, batendo as asas em ritmo frenético. Ficamos os dois, olhando, pasmos e boquiabertos, o besouro ir ganhando altura.

Uma nova saraivada de disparos foi feita contra nós. O Causo puxou o gatilho do mosquefal. Puro ato reflexo. Disparo sem alvo nem pontaria. Um cartucho perdido. Nos jogamos atrás do tronco. Eu, desesperançoso, ele, furioso.

— Merda! — disse entredentes, enquanto acionava o ferrolho, expulsando o estojo e armando novamente o fuzil.

— Se levar um tiro talvez fique uns seis ou sete dias dormindo no sofá da sala.

— Vão nos pegar — eu disse. Dava pra ouvir claramente os passos apressados que vinham em nossa direção.

— Vão. Mas levo uns comigo, ah, se levo.

Então a vibração aumentou. Foi súbito. Surpreendeu-nos. Uma massa escura e oblonga como um imenso charuto passou sobre as arvores, fazendo-as chacoalhar nervosamente de um lado ao outro. Eu fiquei atônito. O Causo, exultante. O solo tremia. Os homens que corriam em nossa direção pareceram parar e gritavam uns com os outros, alarmados.

— Utopia, distopia… — murmurei. — Quem é você? Um pregador de utopias ou de distopias?

— Chegou a cavalaria, Tibor. Estamos salvos!

— Pois sim.

— Nem distopias nem utopias — ele disse —; não tenho um programa literário que deseje impor a todos. Não sou pregador. Sou um soldado de infantaria tentando sobreviver nesta selva. Há lideranças nesta luta, às quais me oponho. Mas não questiono o direito delas de serem lideranças. Não quero depô-las ou substituí-las. É uma selva de política literária das mais básicas e violentas, e a maioria dos correligionários e soldados em ação nem admite que participa de uma disputa política. São só amigos jogando conversa fora na choperia… Mas na verdade, está em jogo a disputa por vagas na programação das editoras, pelo poder de indicar, incluir e excluir, ditar o que tem ou não valor literário. E frequentemente, usam uma régua muito circunstancial. O que fala mais alto com eles é o poder de agregar ou ostracizar. Por isso vêm dizer que você violou o regulamento disciplinar, ao mencionar aquele-que-não-deve-ser-mencionado. Gente que há dez anos dizia que fandom é pura bobagem hoje luta para criar seu feudo dentro dele. Eu me contento em fazer a minha oposição solitária, esperando que um ou outro se dê conta desse estado de coisas, e se posicione com alguma consciência do que está fazendo. Nesta guerra, eu sou só um franco-atirador.

Os gritos ao longe eram de terror. “Madre de Dios”, berrou alguém, antes de soltar um urro gutural. Agarrei o fuzil das mãos do Causo, pronto, pela primeira vez, ao combate. Alguma coisa muito ruim vinha em nossa direção.

— Não! — disse-me ele. — Neste caso específico, utopia, Tibor.

— De jeito nenhum — contrapus. — Distopia.

— Primeiro contato. Raça alienígena. Utopia!

— Primeiro contato. Raça alienígena! Distopia!

Íamos nos digladiando, o fuzil indo de uma mão para outra, quando um monte de visco mal cheiroso caiu sobre nós. Olhamos para cima e demos de cara com uma coisa grande e estranha, cheia de tentáculos, protuberâncias palpitantes e concavidades de onde exsudava uma gosma pestilenta. O Causo largou o fuzil em minhas mãos, ergueu-se num salto jogando o chinelo para o lado e pôs-se a correr, gritando “distopia” a plenos pulmões.

Os botões do relógio só foram destravar quando nos dois já estávamos enrodilhados por aqueles tentáculos, prestes a virar patê de carne e ossos.

Até agora o Causo não me disse se os pés estão bem ou não, nem se teve que passar uma noite que seja dormindo na sala. Não responde meus emails e, segundo amigos comuns, não quer ver minha cara nem pintada de ouro. Esse meu relógio quântico ainda vai me colocar em muito maus lençóis.

Roberto de Sousa Causo é escritor. Autor de A corrida do rinoceronte e Anjo de dor.


Pedro Moreno

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