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Contos imediatos – sorteio

28/07/2010

Seguindo a política de realizar sorteios eventuais, coloco agora dois exemplares de Contos Imediatos, livro organizado por Roberto de Sousa Causo e publicado pela Terracota Editora, na pauta. Concorrerão aqueles que (repito sempre isso) deixarem comentário com email válido. A tecnologia de sorteio já é conhecida por todos (e quem não conhece, pergunte ao vizinho). Vale dizer que tem conto meu nesse livro. Se isso é garantia de qualidade? De jeito nenhum. Mas quem tem ânsias de criticar algo que eu tenha escrito, aí está uma boa oportunidade… rs.

São esses os autores presentes na obra: André Carneiro, Ataíde Tartari, Ademir Pascale, Chico Pascoal, João Batista Melo, Jorge Luiz Calife, Luiz Bras, Miguel Carqueija, Mustafá Ali Kanso, Sidemar V. de Castro, Tatiana Alves e eu.

Os ganhadores anteriores poderão participar, sem problemas.

Gostaria de desejar boa sorte para todos, mas só dois vão ganhar. Então, boa sorte a dois de vocês!

Draco anuncia: Selva Brasil está aí.

29/03/2010

Esta é uma história alternativa que imagina como seria o Brasil vinte anos depois da invasão militar brasileira das Guianas, na Fronteira Norte, segundo os planos megalomaníacos do Presidente Jânio Quadros. Simultaneamente, a Argentina invadiu as Ilhas Malvinas, no Atlântico Sul.

Contudo, uma coalizão formada pelos países atingidos pela ação militar brasileira – Inglaterra, França e Holanda – e os Estados Unidos contra‑atacaram e empurraram os soldados brasileiros de volta, ficando com um bom pedaço da Amazônia Brasileira.

Desde então instalou-se um conflito permanente na região, com o Brasil e aliados latino-americanos lutando para retomar o território perdido e manter sob controle uma guerrilha patrocinada por aqueles países do Primeiro Mundo. É um Brasil completamente diferente do nosso, contido política e economicamente por esse conflito perpétuo, e com gerações de jovens brasileiros comprometidas com o conflito.

Amparada por uma pesquisa cuidadosa, Selva Brasil acompanha um grupo de soldados que – ao seguir para um ponto anônimo do Amapá, na fronteira com a Guiana Francesa, onde devem substituir uma outra unidade do Exército Brasileiro – se depara com desertores e com um plano secreto para romper as regras de engajamento que limitam o conflito na região.

Ao mesmo tempo, esses homens são confrontados com um estranho experimento militar que, indo além dos parâmetros do seu projeto, pode ter aberto um portal entre essa realidade paralela e a nossa.

Roberto de Sousa Causo

formado em Letras pela USP, é autor dos livros de contos A Dança das Sombras (1999) e A Sombra dos Homens (2004), dos romances A Corrida do Rinoceronte (2006) e Anjo de Dor (2009) e do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil (2003). Seus contos apareceram em revistas e livros de dez países. Foi um dos classificados do Prêmio Jerônimo Monteiro e no III Festival Universitário de Literatura (com Terra Verde 2001); e ganhador do Projeto Nascente 11 de Melhor Texto, com O Par: Uma Novela Amazônica (2008).

Autor: Roberto de Sousa Causo
ISBN: 978-85-62942-07-5
Gênero: Literatura Fantástica
Formato: 14cm x 21cm
Páginas: 112 em preto e branco, em papel pólen bold 90g
Capa: Cartão 250g, laminação fosca, com orelhas de 6cm
Preço de capa: R$ 26,90

De Bar em Bar entrevista: Roberto de Sousa Causo

11/03/2010

Denso. Muito denso. A floresta estava fechada como uma teia de infindáveis ramificações. E tão abafada que minha grossa camisa de linho empapou de suor em poucos minutos. Olhei para o relógio quântico, tentando entender o que uma pré-programação que especificava um bar de oficiais num quartel na Oceania tinha a ver com mata, insetos e umidade intensa.

Observei melhor minhas roupas e me vi como um perfeito pé de alface, mas camuflado. Uniforme de milico, coturnos. A fivela do cinto estava suja, riscada e amassada. As calças exibiam alguns amassados. Deitado, as costas apoiadas num tronco caído, meio apodrecido. Um tapete de folhas cobria o chão, em meio a depressões, arbustos, cipós, mosquitos e formigas. Minha bunda estava apoiada numa pedra. Movi os quadris com cautela, procurando uma posição mais confortável.

Estava sozinho.

Olhei o relógio mais uma vez. Era para ter ao lado o entrevistado, e cheguei a pensar que ele estivesse bem longe, na caserna planejada, quando ouvi resmungos não muito distantes.

Ponderei minha situação e o histórico de entrevistas anteriores. Em nenhuma delas as coisas correram normalmente. Essa já havia começado errado e eu torcia muito para que os erros parassem por ali. Virei o corpo devagar procurando fazer o menor barulho possível, e espiei por cima do tronco atrás do qual me escondia. Não vi nada digno de nota. Mas os resmungos se repetiram. Tentei enxergar mais longe, procurando vencer a barreira imposta pela mata fechada, quando fui surpreendido. Do outro lado do tronco, de espessura razoável, ergueu-se uma cabeça. Um par de olhos cujo olhar preocupado chocou-se contra o meu.

Recuperado do susto, me acalmei. Era o Causo.

Contornar o tronco não foi trabalhoso. Nem sei por que eu o fiz rastejando já que poderia me erguer, mas havia uma sensação predominante de perigo. Quando cheguei até ele, vi um rosto cheio de arranhões, uniforme barrento, rasgado e descomposto.

— Sabe quanto tive que rastejar até chegar a esse tronco? — ele me perguntou, com uma irritação genuína na voz.

— Mas chegamos agora mesmo.

— Talvez você! Eu estou aqui há mais de uma hora!

Olhei para o relógio de novo. Se ele continuasse a cometer essas bizarrices, mesmo depois de exaustivamente enviado para conserto, eu teria que abandonar as entrevistas. Perigoso demais para todos.

— Espero que tenha dado tudo certo, nesse tempo — respondi, constrangido.

Foi quando eu o olhei mais detidamente. Além do uniforme em petição de miséria, trazia um fuzil. O mais perturbador foi vê-lo descalço. Os pés imundos e arranhados, as unhas sujas. Pensei em perguntar o porquê, mas temia a resposta.

— Ipanema! — ele disse, num sussurro raivoso.

— Como?

— Ipanema! Nem havaianas eram. I-pa-ne-ma! Você me trouxe para cá, de chinelos! CHI-NE-LOS!

Alguma coisa aclarou em minha memória.

— Você havia me dito, meses atrás, que coturnos lhe causavam frieiras…

Ele não respondeu, limitando-se a me lançar um olhar assassino. Os pés, além de arranhados, exibiam brotoejas inchadas e vermelhas. Picadas de insetos, na certa.

—… Os chinelos estão…

Ele ergueu uma das mãos. Um pé estava com ele. Uma das tiras solta, rasgada. Imaginei que o outro estivesse perdido na floresta.

— E por que rastejou até aqui? Por que não esperou onde estava?

— Por que só tenho cinco cartuchos. Podia ser uma AK105, ou uma FN Scar-L, ou uma FN 2000, armas modernas! Mas você me trouxe para cá com um antiquado mosquefal! E um maldito estilingue!

Ele retirou o estilingue do bolso traseiro e o jogou em cima de mim.

— Com apenas cinco cartuchos não posso enfrentar um contingente de contrabandistas, mercenários, guerrilheiros… Sei lá quem eram os homens que me perseguiram pela mata!

Fiquei calado, olhando para ele. O que diria? Que após um longo período onde o maldito relógio quântico deveria ter sido reparado, nada foi feito de efetivo? Que os perigos enfrentados nas entrevistas anteriores continuavam com a mesma intensidade? Pensei em guerrilheiros armados até os dentes, caminhando pela floresta, talvez longe de nós, talvez próximos. Estremeci.

— Cadê o bar? — perguntou o Causo, cheio de razão.

— Não sei — murmurei, aborrecido.

— Não é “De Bar em Bar”? Cadê a droga do bar? — voltou a perguntar, com evidente inconformismo.

Apertei os botões do relógio tentando abortar a entrevista, mas, claro, não funcionaram. Por que funcionariam?

— Você me disse que não bebe…

— Nem suco de laranja? Nem limonada? Nem água mineral? Não bebo nada?

Ele chacoalhou os pés, tentando afastar uma nuvem de muriçocas que os esvoaçavam. Recostei-me ao seu lado, ombro a ombro. Reclamos em nada adiantariam. Era melhor entrar no assunto. Pigarreei, ajeitei melhor as costas contra o tronco, flexionei as pernas e, observando melhor o estilingue, perguntei:

— Você acha que o mercado de literatura de gênero está amadurecido o bastante para abrigar prêmios literários?

Causo coçou o nariz, aproximou o mosquefal de si, acariciando de leve o ferrolho e fechou os olhos momentaneamente.

— Não é questão de maturidade — começou. — É questão de olhar em volta, enxergar o que há para enxergar, reconhecer o valor que há para se reconhecer. Um prêmio do tipo melhores do ano é como uma grande patrulha de reconhecimento… gera informação essencial para se poder operar no terreno de um teatro de operações. Revela quem está atuando, que indivíduos, que grupos, nesse terreno.

Parou e olhou para o céu entremeado pelas altas ramagens. Franziu o cenho.

— Algum problema? — perguntei.

— Não… Nada. Acho…

Ergueu-se de leve e olhou para o outro lado do tronco. Perscrutou a redondeza. Verificou o fuzil, testando a alça de mira.

— Prêmios assim permitem que a gente se organize e faça planos de atuação. Gera informação. Pode ser que seja uma informação que não bata com a expectativa, mas informação é informação; e informação é essencial. A criação de um prêmio desse tipo já passou da hora.

Abaixou a arma e se agachou, voltando a se esconder atrás do tronco; aproximou os pés e os coçou com vontade. Uma das unhas parecia solta.

— Quando isto acabar e eu voltar pra casa, meus pés continuarão assim?

— Não sei.

— Que droga. Eles parecem dois cancros. A Finisia vai me pôr pra dormir na sala por uns três dias.

— O ritmo de lançamentos mostra um mercado efervescente. Mais quantidade que qualidade? Ou há algum equilíbrio?

— Está com pressa de acabar, hein?

— Você não está?

— Estou, claro. Não enxergo equilíbrio ainda. Mas provavelmente ele nunca houve ou haverá. A Lei de Sturgeon impera na selva: “90% de toda a FC é lixo; mas pensando bem, 90% de tudo é lixo.” O que importa agora é que um número recorde de pequenas editoras está aceitando trabalhos e procurando autores. Dessa ponta do mercado, eu diria que…

O Causo parou de novo. Dessa vez mais atento. Pareceu farejar o ar. Tentei prestar atenção, captar alguma coisa que ele, evidentemente, já vinha captando. Senti uma vibração, suave, melíflua, quase imperceptível. A vida na floresta se calou. Nenhum pio, nenhum chiado, nenhum coaxar ou cantar de cigarras. Silêncio completo. A vibração não mudava de intensidade. Nossos olhares se mantinham voltados para cima. O meu acompanhava o dele e mesmo sem saber o que havia para se ver, esperava por alguma coisa. Logo, as altas árvores da floresta pareceram se vergar, como se alguma coisa muito, muito grande estivesse bem próximo dali e cuja estranha emanação exercesse misterioso poder sobre elas. O Causo ergueu-se um pouco, pondo-se sentado. Ia se levantar quando uma pequena explosão fez voar estilhaços de madeira para todos os lados. Uma segunda e uma terceira vieram em seguida. Uma quarta passou zunindo e foi explodir no tronco de uma figueira, uma dezena de metros à frente. Ele se jogou no chão, assustado. Eu me mantive ali, estilingue firmemente agarrado. Apertando os ponteiros do relógio, sem nenhum resultado.

— Os malditos! — ele vociferou, irritado.

— Eu diria — prosseguiu com a resposta, para minha mais completa surpresa, enquanto empunhava o fuzil — que o mercado está mesmo aquecido. Na ponta do lado do leitor, talvez nem tanto. Mas cada oportunidade conta. Cada autor deve se fazer valer nessa batalha, com trabalhos de qualidade, mais representativos e menos participativos. O combatente tem que durar na ação… Com sorte, alguns sobreviverão para assistir à vitória final, num futuro próximo.

— Futuro próximo? Batalha? Vencedor? Combatente? Deus, você incorporou o espírito do guerreiro exaltado! Socorro!

— Estamos em guerra. Empunhe a sua arma, soldado!

Ergui o estilingue, olhando perplexo para ele. As balas continuavam explodindo contra o tronco e silvando sobre nossas cabeças. Ouvíamos palavras de ordem gritadas nalgum lugar distante. Falavam em espanhol.

— São as FARC! — vociferou Causo, enquanto esperava uma oportunidade para se erguer e dar seu primeiro disparo. — Vamos, faça as outras perguntas. Ou acabou?

Quem tem presença de espírito para fazer perguntas em meio a uma saraivada de balas? Respirei fundo tentando controlar o tremor e a gagueira.

— A discussão mainstream X gênero continua com fôlego. Você acha que existe alguma possibilidade de ambos os gêneros evoluírem um com o outro?

— Esta é a grande questão literária para a FC e a fantasia no século XXI. Incrível que os generais Luiz Bras e Nelson de Oliveira tenham tido tamanha ousadia estratégica neste conflito, mas eles ousaram dizer que o mainstream deveria se aproximar da FC para se renovar e evitar a estagnação nas suas fileiras. Antes disso só se dizia que a FC precisava se aproximar do mainstream para deixar as barricadas do gueto, para amadurecer como literatura. Engraçado é que eu, que fui chamado por muita gente de guardião dos portões do gueto, já fazia incursões fora dos seus muros há algum tempo. Ganhei concursos mainstream como o Festival Universitário de Literatura e o Projeto Nascente, e apareci nas publicações mainstream Cult e Rascunho. Nunca precisei mudar as características da minha ficção para isso. Então essa batalha é complexa e desafiadora, mas a discussão lançada por Bras e Oliveira é mais do que bem-vinda… ela também já passou da hora, mesmo considerando que ter sido lançada por gente do mainstream como eles é absolutamente extraordinário. Mas eu não me surpreenderia se, na aliança entre mainstream e FC, surgisse algo pouco reconhecível pra quem conhece a ficção científica e trabalha com ela há algum tempo. Nessa aliança, o mainstream sempre terá mais poder.

Ele pareceu terminar. Ficou agarrado ao fuzil, olhando para mim. Seu olhar era de uma grande determinação. Vazava deles um ódio genuíno — mas não por mim — que me assustou.

— Eles pararam de atirar. É a nossa oportunidade de mostrar que não estamos indefesos. Se atirarmos juntos e em sucessão, pensarão que somos muitos — explicou. — Terão mais cautela.

Tentei avisar que ele só tinha cinco cartuchos e que eu estava com um estilingue, mas nada parecia demovê-lo da ideia. Posicionou-se de joelhos, em posição de tiro. Procurou por algum movimento que pudesse denunciar nossos inimigos. Instou-me, mais uma vez, a me preparar com a atiradeira. Fiz o que ele falou. De que adiantava qualquer argumentação contrária? Ele queria nos matar. Apalpei o chão atrás de alguma pedra. Peguei uma pesada e roliça. Preta. Coloquei-a a tencionei a borracha cirúrgica ao máximo de sua elasticidade.

— Pronto! — eu disse, apavorado.

— Atire primeiro. Isso poderá denunciá-los. Aí eu atirarei em seguida assim que um deles se mover.

Disparei, vendo a pedra se distanciar num arco preciso. Instantes depois ela se abriu, parou em meio à sua trajetória e se elevou, batendo as asas em ritmo frenético. Ficamos os dois, olhando, pasmos e boquiabertos, o besouro ir ganhando altura.

Uma nova saraivada de disparos foi feita contra nós. O Causo puxou o gatilho do mosquefal. Puro ato reflexo. Disparo sem alvo nem pontaria. Um cartucho perdido. Nos jogamos atrás do tronco. Eu, desesperançoso, ele, furioso.

— Merda! — disse entredentes, enquanto acionava o ferrolho, expulsando o estojo e armando novamente o fuzil.

— Se levar um tiro talvez fique uns seis ou sete dias dormindo no sofá da sala.

— Vão nos pegar — eu disse. Dava pra ouvir claramente os passos apressados que vinham em nossa direção.

— Vão. Mas levo uns comigo, ah, se levo.

Então a vibração aumentou. Foi súbito. Surpreendeu-nos. Uma massa escura e oblonga como um imenso charuto passou sobre as arvores, fazendo-as chacoalhar nervosamente de um lado ao outro. Eu fiquei atônito. O Causo, exultante. O solo tremia. Os homens que corriam em nossa direção pareceram parar e gritavam uns com os outros, alarmados.

— Utopia, distopia… — murmurei. — Quem é você? Um pregador de utopias ou de distopias?

— Chegou a cavalaria, Tibor. Estamos salvos!

— Pois sim.

— Nem distopias nem utopias — ele disse —; não tenho um programa literário que deseje impor a todos. Não sou pregador. Sou um soldado de infantaria tentando sobreviver nesta selva. Há lideranças nesta luta, às quais me oponho. Mas não questiono o direito delas de serem lideranças. Não quero depô-las ou substituí-las. É uma selva de política literária das mais básicas e violentas, e a maioria dos correligionários e soldados em ação nem admite que participa de uma disputa política. São só amigos jogando conversa fora na choperia… Mas na verdade, está em jogo a disputa por vagas na programação das editoras, pelo poder de indicar, incluir e excluir, ditar o que tem ou não valor literário. E frequentemente, usam uma régua muito circunstancial. O que fala mais alto com eles é o poder de agregar ou ostracizar. Por isso vêm dizer que você violou o regulamento disciplinar, ao mencionar aquele-que-não-deve-ser-mencionado. Gente que há dez anos dizia que fandom é pura bobagem hoje luta para criar seu feudo dentro dele. Eu me contento em fazer a minha oposição solitária, esperando que um ou outro se dê conta desse estado de coisas, e se posicione com alguma consciência do que está fazendo. Nesta guerra, eu sou só um franco-atirador.

Os gritos ao longe eram de terror. “Madre de Dios”, berrou alguém, antes de soltar um urro gutural. Agarrei o fuzil das mãos do Causo, pronto, pela primeira vez, ao combate. Alguma coisa muito ruim vinha em nossa direção.

— Não! — disse-me ele. — Neste caso específico, utopia, Tibor.

— De jeito nenhum — contrapus. — Distopia.

— Primeiro contato. Raça alienígena. Utopia!

— Primeiro contato. Raça alienígena! Distopia!

Íamos nos digladiando, o fuzil indo de uma mão para outra, quando um monte de visco mal cheiroso caiu sobre nós. Olhamos para cima e demos de cara com uma coisa grande e estranha, cheia de tentáculos, protuberâncias palpitantes e concavidades de onde exsudava uma gosma pestilenta. O Causo largou o fuzil em minhas mãos, ergueu-se num salto jogando o chinelo para o lado e pôs-se a correr, gritando “distopia” a plenos pulmões.

Os botões do relógio só foram destravar quando nos dois já estávamos enrodilhados por aqueles tentáculos, prestes a virar patê de carne e ossos.

Até agora o Causo não me disse se os pés estão bem ou não, nem se teve que passar uma noite que seja dormindo na sala. Não responde meus emails e, segundo amigos comuns, não quer ver minha cara nem pintada de ouro. Esse meu relógio quântico ainda vai me colocar em muito maus lençóis.

Roberto de Sousa Causo é escritor. Autor de A corrida do rinoceronte e Anjo de dor.

De Bar em Bar VOLTOU!

10/03/2010

A última entrevista do De Bar em Bar foi em dez de dezembro do ano passado. A entrevistada foi a Cristina Lasaitis e passamos juntos por maus bocados num bar alienígena (antes dela tivemos o Adriano Piazzi, Antonio Xerxenesky e Erick santos). Desde então me mantive afastado dessas entrevistas. Ora envolvido em projetos pessoais, ora mergulhado no trabalho que não deu trégua em nenhum momento, ora enrodilhado pela preguiça.

Mas já estava na hora de recomeçar essa tarefa perigosíssima. Voltei a mandar o relógio quântico para uns ajustes, tentando corrigir as distorções que ocorriam, mas não deu muito certo.

O entrevistado da vez foi o Roberto de Sousa Causo. Claro que saiu tudo diferente do que foi programado. Acabamos numa roubada, correndo risco de morte iminente. Creio que nenhuma das entrevistas foi tão perigosa.

Ela será postada amanhã.

Não percam.

O melhor da FC brasileira em seu segundo volume.

24/02/2010

Quando o livro Os melhores contos brasileiros de ficção científica foi lançado, não faltaram críticas à seleção de contos. Agora fica claro para todos, detratores ou não, que se trata de uma série que não se restringirá a apenas dois volumes.

Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica: Fronteiras, livro que dá prosseguimento ao projeto da editora de resgate de contos importantes do passado, iniciado com Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica (2008), um dos sucessos do selo Pulsar.

Este segundo volume traz 14 histórias, por Lima Barreto, Berilo Neves, Afonso Schmidt, André Carneiro, Domingos Carvalho da Silva, Jerônymo Monteiro, Rubens Teixeira Scavone, Lygia Fagundes Telles, Marien Calixte, Jorge Luiz Calife, Braulio Tavares (com um conto ganhador do Prêmio Nova), Ivan Carlos Regina, Cid Fernandez e Leonardo Nahoum. A seleção acentua os encontros – dentro do conceito do “fronteiriço” – da ficção científica com outras formas de literatura de gênero (como o horror ou a fantasia), e com a alta literatura.

Variada, a antologia oferece contos muito diversificados em tom, tema e estilo, de narrativas apocalípticas a ficção religiosa, histórias de revolta da natureza, de opressão totalitária, guerras e mistérios espaciais, e visitas alienígenas à Terra.

Com capa de Vagner Vargas e 186 páginas, custa apenas R$ 21,95.

Comprar é importantíssimo para manter a FC Nacional em constante evidência. E não só por isso, mas também pela oportunidade de ter em mãos uma coleção de bons contos. E o preço, vamos ser justos… é beeem camarada.

Em qualquer livraria perto da sua casa.

Portal Fundação – Comentários 1ª parte

09/01/2010

Antes de qualquer coisa, acho melhor voltar a abordar um assunto já tratado anteriormente.

Não tenho nem nunca tive a pretensão de me passar por um crítico literário, posto que certamente exige uma carga de conhecimento na área que não possuo. Isso não significa que não possa ter opinião, fundamentada nas impressões que cada narrativa me provoca. No caso específico dos Portais, passarei a me ater única e especificamente a cada trabalho, sem analisá-los em função do conjunto.

O que quero dizer com conjunto, neste caso?

Tenho pra mim (posso estar errado desde o início) que os Portais tinham a intenção primeira de mostrar tanto para os leitores de literatura realista, como para os de gênero, que existe vida inteligente em todas as vertentes literárias. Que as ferramentas de um podem ser úteis para o outro e vice-versa.

Na literatura de gênero valorizam mais o enredo. Na realista, valorizam mais a forma. Os Portais teriam a missão de conciliar ambas as ferramentas e mostrar ao leitor de ambos os gêneros que a união faz a força.

Por isso fui contra os experimentalismos estilísticos, os hermetismos. Para o leitor realista, um experimentalismo com linguagem de FC deve ser assustador. Para o leitor de gênero, idem. Uma boa história precisa ter… História. Precisa ser inteligível. Precisa ter uma boa trama. Precisa falar com todos os leitores e não com meia dúzia de eleitos.

De agora em diante, pelo menos em relação aos Portais, deixarei de analisar cada texto em razão de um objetivo que nem sei se existe. Vou ler cada conto como obra independente e não conciliada num coletivo literário com metas determinadas.

Assim sendo, vamos aos meus comentários:

Veja seu futuro – Ataíde Tartari

Já tinha lido esse conto antes. Gosto da prosa do Ataíde. Esse traz uma máquina especial numa loja de fotografia com o poder de mostrar o futuro às pessoas. Antecipar problemas e tentar resolvê-los na volta pode ser uma boa, mas nem sempre as coisas dão certo.

Cheiro de predador – Roberto de Sousa Causo

Continuação das aventuras de Shiroma/Bella Nunes, uma assassina implacável. Acho a narrativa do Causo cirurgicamente precisa. Mas não gosto da absoluta perfeição da protagonista. Pequenos erros de julgamento e imprecisões nos momentos de luta a tornariam mais crível. Torná-la humana nas últimas linhas não bastou. Há um trecho onde o Causo cita um spray capaz de endurecer tecidos moles. Acho pouco verossímil que isso fizesse uma camisa se transformar numa pá, já que ela não tem espessura e densidade suficientes para isso.

Estranho progresso – Richard Diegues

Bizarro, pra dizer o mínimo. Relato de um futuro distante ou de uma viagem alucinógena profunda. Cenário extravagante. Há trechos onde a compreensão fica dificultada e Isso prejudica o conjunto. Difícil abandonar a leitura. Apesar dos problemas a narrativa tem seus encantos.

A cor da tempestade – Mustafá Ali Kanso

Uma narrativa vigorosa. Lei Áurea liberta escravos, mas preconceito e racismo impedem que sejam imediatamente aceitos. É uma analogia, mas bastante adequada. Humanos e Sangarianos vivendo conflitos étnicos. Guerra com Najaris ocupa 2º plano na trama. Abordagem ética que conduz a uma espécie de lição moral. Cenário bem construído e muito boa ambientação.

Nuvem de cães-cavalos – Luiz Bras

Um conto bem escrito, mas o argumento, o cenário e a abordagem tornam, para mim, difícil aceitá-lo como ficção científica. Tirem as naves espaciais e coloquem em seus lugares carruagens, e a história terá a mesma força, sem perda de conteúdo.

O desenvolvimento insustentável do ser – Laura Fuentes

Outro conto que, para mim, não é ficção científica. Preocupações bastante contemporâneas com o progresso e suas conseqüências imediatas e futuras. Uma pequena extrapolação, inócua e poética, não justifica o gênero.
Existe um trecho que não bateu bem (sem trocadilhos): “…O sol daquela manhã mais parecia bigorna batendo no corpo sem dó…”. Bigornas não batem. Elas são o anteparo para o malho do ferro. Nem como licença poética isso me entra pela goela.

A segunda parte reunirá todos os demais contos e será postada na semana que vem.

Até lá.

De Bar em Bar dá uma trégua aos entrevistados.

16/12/2009

Roberto de Sousa Causo e André Vianco suspiram aliviados.

Nas últimas duas semanas desse ano, não publicarei nenhuma entrevista, adiando-as para as primeiras semanas de janeiro.

Estou atolado com uma noveleta que está tomando meu tempo mais do que pretendia (e cujo “deadline” está me mordendo os calcanhares). Me enrosquei no cenário e na ambientação de tal forma que não me sobra espaço para elaborar outras ficções.

Sorte dos dois que escaparam (só por enquanto) da sanha destrutiva de meu relógio quântico, cujas discrepâncias se tornaram rotina.

Mas ano que vem o De Bar em Bar volta com tudo e trará entrevistas surpreendentes, com autores inesperados. Quem viver (epa!), verá.

Procuram-se autores para nova coletânea.

02/12/2009

Eu e Saint-Clair Stockler estamos organizando uma nova coletânea, essa exclusivamente de ficção científica, tanto hard quanto soft, e ainda em qualquer um de seus subgêneros.

Procuramos 4 autores para, junto a outros 8 previamente convidados, integrar um grupo de 12.

O tema será “Brinquedos do futuro” e o título do livro Brinquedos mortais.

Queremos contos inéditos que causem desconforto, perturbação, medo, perplexidade, inquietação. Contos que fujam dos clichês ou os utilizem de forma criativa e original.

O tamanho dos contos não poderá exceder 12 páginas formato A4, tabulação padrão do Word, fonte Times New Roman, corpo 12, com entrelinhas de 1,5.

Antecipamos que contos mal escritos, com evidente descuido de revisão e forma, serão descartados logo de início. Os 4 aprovados publicarão ao lado de seis “feras” da ficção científica brasileira.

São eles: Ataíde Tartari, Braulio Tavares, Carlos Orsi Martinho, Lúcio Manfredi, Luis Brás (heterônimo de Nelson de Oliveira), Roberto de Sousa Causo, Saint-Clair Stockler e Tibor Moricz.

Os contos deverão ser enviados até o dia 28 de fevereiro de 2010 para o email: brinquedosmortais@gmail.com

A editora parceira é a Editora Draco e a publicação tem previsão para até junho de 2010.

Queremos MUITA transpiração de todos.

Bom trabalho!

É hoje! Bate papo sobre a antologia Rumo à fantasia.

05/11/2009

Capa Rumo à Fantasia

Impulsionado pelos sucessos de autores como J. K. Rowling e J. R. R. Tolkien, a fantasia é um gênero que vem crescendo espetacularmente no Brasil. Muito além dos clichês, a fantasia tem múltiplas faces e enfoques. Para promover a consciência essa multiplicidade, a Devir lançou a antologia Rumo à Fantasia, livro que cruza épocas e espaços geográficos distintos, tanto nas origens dos personagens quanto dos autores. Neste bate-papo que a Biblioteca Viriato Corrêa e a Devir realizam no dia 6 de novembro, alguns dos autores brasileiros presentes no livro discutem suas histórias e as múltiplas faces do gênero: Cesar Silva, Braulio Tavares e Roberto de Sousa Causo (o organizador da antologia). O bate-papo também contará com a presença do ilustrador da capa, Vagner Vargas.

Cesar Silva é um dos editores do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, há cinco anos a principal fonte de análise e informação sobre ficção científica, fantasia e horror no Brasil.

Considerado um dos principais autores brasileiros de ficção científica e fantasia, Braulio Tavares venceu o concurso Caminho Ficção Científica em 1989 com o livro de contos A Espinha Dorsal da Memória, e acaba de ganhar o Prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantil com A Invenção do Mundo pelo Deus-Curumim. Também roteirista da Rede Globo, trabalhou na adaptação de A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna.

Um vencedor dos concursos Prêmio Jerônimo Monteiro (1991), III Festival Universitário de Literatura (2000) e do 11.º Projeto Nascente (2001), da Universidade de São Paulo, com as novelas Terra Verde e O Par, Roberto de Sousa Causo também organizou para a Devir a antologia Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica (2008).

Vagner Vargas é um dos principais praticantes da arte de ficção científica e fantasia no Brasil, tendo feito capas para as coleções Star Trek e Zenith (Editora Aleph), e Pulsar e Quymera (Editora Devir). Foi o Ilustrador Convidado de Honra da V InteriorCon, uma convenção de ficção científica, em 1997.

Dia 5 de novembro na Biblioteca Viriato Corrêa, em São Paulo, às 19h00. A Biblioteca Viriato Correa fica na Rua Sena Madureira, 298, Vila Mariana, São Paulo (F.: 11-5573-4017) .

Os autores da antologia: Ambrose Bierce, Jean-Louis Trudel, Braulio Tavares, Daniel Fresnot, Eça de Queiroz, Rosana Rios, Gian Danton, Orson Scott Card, Bruce Sterling, Anna Creusa Zacharias, Cesar Silva, Roberto de Sousa Causo e Ursula K. Le Guin.

E eu estarei lá.

Contos Imediatos – Sai a capa.

24/09/2009

CAPA Contos Imediatos2

Faltam pouco mais de dois meses para o lançamento da antologia Contos Imediatos, organizada pelo Roberto de Sousa Causo, com a retaguarda da Terracota Editora. A capa reúne, curiosamente, todos os elementos clichê que caracterizam o gênero, mas não cai no lugar comum. Destaca-se por apresentar uma arte com estilo de HQ, bastante atrativa. Gostei muito do trabalho.

Será na Martins Fontes, dia 28 de novembro de 2009, das 15 às 18h30.

Os autores são: Luiz Brás, Ataíde Tartari, Sidemar V. de Castro, Ademir Pascale, Miguel Carqueija, Tatiana Alves, João Batista Melo, Chico Pascoal, André Carneiro, Jorge Luiz Calife, Mustafá Ali Kanso, Tibor Moricz.

Além destes autores, a antologia terá um ensaio sobre FC e FC brasileira assinado por Ramiro Giroldo, doutorando na Universidade de São Paulo.