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Capa da coletânea Brinquedos Mortais revelada.

22/03/2012

Brinquedos Mortais nasceu a partir do conto de Saint-Clair Stockler que, mesmo curto, me causou impacto. Enxerguei na mesma hora a possibilidade de ampliar o universo que aquele conto apenas permitia entrever e idealizei essa coletânea. A Editora Draco abraçou a proposta e pusemos, então, mãos a obra. Poderíamos tê-la aberta inteira para submissões, mas nos preocupamos prioritariamente com a qualidade literária e, para evitar longas buscas e exaustivas análises, achamos por bem convidar seis integrantes, certos de que não nos decepcionariam (e, de fato, não nos decepcionaram).

São eles: Ataíde Tartari, Braulio Tavares, Carlos Orsi Martinho, Lúcio Manfredi, Luiz Bras e Roberto de Sousa Causo.

As outras quatro vagas nós as deixamos para a disputa de contendores hábeis. E que vencessem os melhores. Foram muitas as submissões e algumas delas tão boas que nos causaram verdadeira dor deixá-las de fora.

Os quatro selecionados foram:  Brontops Baruq, João Beraldo, Pedro Vieira e Sid castro. Com as narrativas dos organizadores, a coletânea perfaz ao todo doze contos.

Sinopse oficial:

Brinquedos mortais, uma coletânea organizada por Saint-Clair Stockler e Tibor Moricz, reúne 12 autores que apresentam universos díspares e, ao mesmo tempo, convergentes, dialogando com o inusitado, o assustador, o cômico e o repulsivo. Burilam seus textos com cuidado cirúrgico, capricham na prosa para oferecer aos leitores uma excelente literatura de entretenimento.

Bonecos cheios de más intenções, brinquedos ameaçadores, jogos estranhos e perigosos. Narrativas onde a morte é uma constante e onde a vida em todas as suas formas está sempre por um fio.

Ataíde Tartari , Braulio Tavares, Brontops Baruq, Carlos Orsi Martinho, João Marcelo Beraldo, Lucio Manfredi, Nelson de Oliveira, Pedro Vieira, Roberto de Sousa Causo, Saint-Clair Stockler, Sid Castro e Tibor Moricz convidam os leitores a penetrar em mundos ameaçadores e a compartilhar essa fascinante e mortal experiência.

Breve sinopse de cada conto:

• Um FDP blindado (Ataíde Tartari)

Numa releitura de Dorian Gray, o conto narra a cabulosa história de Dagá, um rapaz protegido de todas as terríveis consequências de seus atos por um incrível artefato Hi-Tech.

• HAXAN (Braulio Tavares):

Num futuro próximo, um grupo de garotos se diverte praticando pequenas transgressões, fugindo das milícias armadas, e usando aparelhos de realidade virtual com fins educativos para brincadeiras violentas.

• Astronauta (Brontops Baruq)

“As câmeras de observação de raios-x já foram objetos de uso puramente militar. Hoje qualquer camelô vende uma de brinquedo tão boa quanto as usadas pelo Exército. Com estes binóculos, é possível acompanhar a rotina e os rituais de um estranho casal, que mora no edifício em frente. Dentro de alguns minutos, será chamada a polícia. Não é maldade, é apenas outra brincadeira.”

• Grande Panteão (Carlos Orsi):

Deuses ou brinquedos? No grande panteão, sacerdotes de todas as crenças e divindades preparam seus encantos para o festival, mas nem tudo que parece mágica realmente é: engrenagens, carvão e vapor criam os milagres a que milhares de peregrinos esperam assistir.

• Brinquedo perfeito (João Beraldo)

Explorar o espaço pode ser mais fácil do que lidar com uma adolescente. É o que descobre Thiago, viajante espacial e pai solteiro. Tentando se aproximar da filha, compra em uma de suas viagens o presente perfeito.

• Hipocampo (Lúcio Manfredi)

Um game, um cavalo marinho, labirintos intermináveis e mundos paralelos. Cuidado com suas escolhas. Elas podem mudar drasticamente o mundo à sua volta.

• Daimons (Luiz Bras)

Daimons (antiga palavra grega que significa espíritos) é sobre um grupo de brinquedos inteligentes conspirando contra a hegemonia humana. Os brinquedos querem tomar o poder e pra isso precisam da ajuda das crianças, que eles tentam manipular a seu favor. Nesse conto, os brinquedos agem como consciências más, sussurrando ordens no ouvido das crianças, torturando as mais desobedientes.

• Austenolatria (Pedro Vieira)

Em Austenolatria, o estranho fetiche de um professor de literatura inglesa pelas heroínas da obra de Jane Austen deixa de ser inofensivo quando provoca ciúmes em Elizabeth Bennet e seu seleto círculo de amizades.

• Um herói para Afrodite (Roberto de Sousa Causo)

Tudo começa quando Leandro Vieira adquire, por uma pechincha, uma estatueta, estranhamente erótica, de uma mulher de beleza estonteante. Uma brincadeira revela que a deusa representada na estátua o quer como seu herói. O preço a pagar é, porém, muito alto.

• O homúnculo (Saint-Clair Stockler) 

A mais perfeita engenharia genética. Homúnculos para o deleite, para o prazer de adquirentes perturbados pela rotina. Uma brincadeira que deixa de ser divertida para começar a ser dolorosa.

• O segredo do McGuffin (Sid Castro)

Nos sombrios módulos da mais antiga Estação Espacial do Universo, na gigantesca Central da Galáxia, o detetive Sol Spada enfrenta a sedução de uma sereia laureana, a ameaça de gangsteres alienígenas e a desconfiança de um policial robô de dúbia honestidade, enquanto busca o McGuffin, um artefato dos Primordiais que pode conter… o Segredo do Universo!

• Boneca Dendem, feliz quem a tem (Tibor Moricz)

A ânsia de sentir o plástico e os circuitos internos de seus corpos substituídos por carne e sangue, move um a um os bonecos de uma cidade inteira numa viagem ao passado na busca incansável dessa realização.

***

Fiquem ligados que o lançamento é breve, muito breve… 🙂



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O crítico literário, esse ser incompreendido.

09/02/2011

Escrever  críticas não é para qualquer um. É necessário que se tenha capacidade técnica, conhecimento teórico e tempo livre para se dedicar a essa prática (quando o fazem pelo gosto de fazer).

Não há exagero se dissermos que o crítico precisa ter também ouvidos moucos e olhos cobertos por catarata para fazer de conta que não escuta e nem lê as besteiras – às vezes nem tanto – que se comentam à custa de sua crítica.

Impressiona a incapacidade dos detratores de ler atentamente e se ater com profundidade àquilo que foi dito. Escapa-lhes, talvez propositadamente, a argúcia e o bom senso. Dentro de um texto com algumas dezenas de linhas, seus olhos só conseguem esbarrar nas críticas e passam longe dos elogios, como se eles sequer existissem.

Um bom exemplo é a resenha que Roberto de Sousa Causo fez do livro Neon Azul de Eric Novello (Editora Draco – 2010).

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4930567-EI6622,00-Perdidos+na+noite.html

Poderia estar me referindo a outras, feitas por tantos outros críticos, já que o problema é universal. Cansei de ver Antonio Luiz Monteiro da Costa (Carta Capital) ser agredido verbalmente por pessoas que não concordavam com ele.

No caso em pauta, surpreende-me que uma resenha tão boa, que considerou a obra bem acima da média, pudesse ter sido desqualificada por comentaristas em redes virtuais que acusaram o crítico de má vontade, de eventual indisposição com o autor e outros que tais.

Incapazes, todos eles, de lerem e avaliarem a crítica com equilíbrio?

Segundo Saint-Clair Stockler, cujas opiniões respeito muito, tratou-se de: “uma das críticas mais respeitosas que já li. Ele cumpriu bem o papel de um crítico: destacou pontos elogiáveis e pontos falhos. Isso é que é fazer crítica”.

Eu, pessoalmente, fiquei com excelente impressão da obra ao terminar de ler a matéria de Roberto de Sousa Causo e minha vontade em lê-la só aumentou.

Destaco duas passagens emblemáticas da resenha e que fundamentam todos os meus argumentos:

1- “A necessidade de manter um tom melancólico deixa o texto um pouco apático”

2- “Esse tipo de reflexão só pode ser provocado por um livro como este – sublinhado pela ótima capa e tratamento gráfico de Erick Sama -, que chega tão próximo de ser um trabalho excepcional”.

… um pouco apático.” soou bem mais forte aos detratores que “… tão próximo de ser um trabalho excepcional.” (considerando que podemos contar nos dedos de uma só mão – mui provavelmente – os trabalhos excepcionais em FC&F já publicados no Brasil).

Para estar próximo de “excepcional”, precisa estar, no mínimo, dentro da categoria de “ótimo”. Ou seja, na ponta da pirâmide. E, mesmo assim, reclamam.

Ô gente mais sem noção.

——

Baseado na crítica, o livro está recomendadíssimo. Encontrem-no em:
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=22163961&sid=8737202901321491611721318&k5=2E5C2881&uid=

 

E como anda Brinquedos Mortais, hein?

10/01/2011

Muita gente deve estar se perguntando como anda a coletânea Brinquedos Mortais, que estava prevista para sair em 2010, publicada pela Editora Draco e organizada por mim e Saint-Clair Stockler.

Nem sempre as coisas acontecem como a gente quer. Fatores externos à nossa vontade acabam atrapalhando algumas programações.

Assim como aconteceu com O Peregrino, cuja publicação estava prevista para 2010, a coletânea Brinquedos Mortais também foi deixada para 2011. Mais provavelmente para o período de junho/julho.

Espero que todos os autores envolvidos no projeto se tranquilizem. Logo, logo nossos trabalhos estarão sendo publicados. Afinal, o tempo passa rápido (ainda mais depois que a gente ultrapassa os 50) e quem esperou até agora, espera um pouquinho mais 🙂 .

“Sense of wonder” e malabarismo estilístico.

16/09/2010

O diálogo abaixo surgiu após um comentário do Saint-Clair na postagem anterior. Exemplifica a maneira como interpreto as narrativas herméticas que pouco ou nada me acrescentam. Não acredito no sense of wonder pelo sense of wonder. Ele não serve como justificativa para si mesmo.

Todos sabem (pelo menos deveriam saber) que escrever fácil é muito difícil. Entendam como fácil uma historia (estamos falando de literatura de gênero) compreensível, com argumento inteligente, boa prosa, gramaticalmente correta, fluida, bem construída, que arrebate o leitor, que o transporte. É isso, afinal, que ele quer ao ler histórias com enredo.

Ah, mas literatura de gênero precisa de enredo, necessariamente? Eu acredito que sim. Senão não seria “de gênero”. Malabarismos linguísticos só são interessantes para uma pequena parcela de “iniciados”.

Tudo bem que o enredo não precisa ser linear. Pode ter uma elaboração que a torne única ou destacada entre as narrativas mais tradicionais. Mas isso ainda não tira dela a obrigação de interagir com o leitor, levando a leitura a uma conclusão satisfatória.

Tibor:

Eles escrevem bem, sim. Mas me incomoda que tentem escrever usando malabarismos estilísticos. Literatura de gênero é, apesar da redundância, literatura de gênero. EXIGE argumento, EXIGE enredo. Ignorar isso é tentar fazer um mix com o malabarismo circense de parte da literatura maisntream. Ambos ficam corrompidos nessa tentativa. Tanto os leitores do realismo vão torcer o nariz pro trabalho, quando os leitores do gênero. O que parte desses autores acaba fazendo é uma narrativa mainstream com pitadas de terminologia científica. Em vez de FC acabam criando um gênero híbrido que não tem a ver com nada. Uma espécie de Quasímodo literário.

Saint-Clair Stockler:

Mas você não acha que pode haver outro caminho pra literatura de gênero? Não desconsiderando o que você falou (com o que concordo inteiramente), não pode haver por aí fora alguém que faça malabarismos estilísticos e, ainda assim, seja escritor de gênero?

Tibor:

Posso aceitar esses malabarismos se eles conseguirem se justificar na trama e não como demonstração da habilidade do autor, num excesso de egocentrismo idiota. Tem gente que exagera, pô.

Saint-Clair Stockler:

Mas acho que empregam essa técnica para criar o sense of wonder nos leitores.

Tibor:

Eles tentam forçar o sense of wonder nos leitores. Há maneiras de conseguir isso sem apelar para malabarismos. E, convenhamos, se só nos malabarismos esse sense of wonder é alcançado por eles, temos aí um grande problema, não acha?

Saint-Clair Stockler:

Mas eu não estou dizendo que TODO escritor de ficção de gênero tem que fazer assim. O normal é fazer como você disse. Mas não podemos admitir algumas exceções?

Tibor:

Claro que as exceções são admissíveis. Só não podem exigir que eu, apesar de admiti-las, ainda tenha que gostar delas. Mas respeito quem, como você, gosta. Existem autores que conseguem atingir o sense of wonder sem apelar para malabarismos e a esses eu respeito muito mais. Leu o conto do Cirilo no Imaginários 3? É um bom exemplo sobre o que estou falando. Conseguir surpreender o leitor com uma história arrebatadora e bem contada é muito mais difícil do que criar cenários bizarros, personagens misteriosos, prosa criptografada e diálogos sem pé nem cabeça (cenários bizarros e personagens estranhos por si só, podem ser ingredientes de ótimas histórias). Tem gente que lê esses malabarismos e tem orgasmos. Eu tenho vontade de rasgar as páginas.

E não, o Saint-Clair ainda não leu o conto citado por mim. Se você também não leu, faça um favor a si mesmo e leia!

Imaginários 3. A continuação da saga.

11/08/2010

Belíssima capa!

Quando a saga Imaginários começou nem se chamava assim. Tinha uma proposta diferenciada e tentava reunir os melhores autores da época, coisa que conseguiu. Mas tropeçou na falta de editora – que pulou fora, de repente – e dormiu na gaveta por alguns meses. Isso até que Martha Argel me contatasse dizendo do interesse de um novo editor por contos ou coletâneas.

Foi assim que conheci Erick Santos e a Editora Draco.

Apresentei-lhe o projeto que estava em criogenia e ele se interessou de imediato. Começamos a negociar e trocar propostas sobre capa e título, e, logo, tínhamos um produto nas mãos.

Lançado, mostrou força ao receber resenhas elogiosas em sua maioria, validando as obras e seus autores. Resultado do trabalho de equipe na busca do melhor.

Como um filho que atinge a maioridade, a saga Imaginários alcança o terceiro volume, esse organizado inteiramente por Erick Santos. Mas é uma espécie de rebento que tomo como meu, também, já que trabalhei na sua realização e crescimento. Vejo-o hoje sob a batuta de novos mestres, mas com uma carinha que não nega o pai (ou os pais, incluindo aí Saint-Clair Stockler e Eric Novello).

Parabéns aos organizadores anteriores (incluindo-me a mim mesmo… rs), parabéns à Editora Draco, parabéns a Erick Santos e parabéns a todos os autores que trilharam, trilham e ainda trilharão essa saga. Fazem parte de um projeto que nasceu para ser grandioso.

Release:

Grandes e novos autores exploram infinitos imaginários nesta coletânea da Editora Draco. A coleção Imaginários trará, a cada volume, contos inéditos que explorarão o fantástico em todas as suas variantes, contando histórias de ontem, de hoje, de amanhã e – por que não? – de nunca.

Neste terceiro volume da coleção IMAGINÁRIOS da Editora Draco organizado por ERICK SANTOS CARDOSO, os autores EDUARDO SPOHR, MARCELO FERLIN ASSAMI, ROBER PINHEIRO, DOUGLAS MCT, LIDIA ZUIN, MARCELO GALVÃO, CIRILO S. LEMOS, FERNANDO SANTOS DE OLIVEIRA, ANA CRISTINA RODRIGUES e FÁBIO FERNANDES desafiam as fronteiras do real e apresentam excelentes histórias de fantasia, ficção-científica e terror.

É hora de começar a viagem. Prepare-se para uma aventura inesquecível da primeira à última linha, numa coletânea que é um sopro de frescor no panorama da literatura fantástica nacional.

Saint-Clair Stockler resenha Annabel & Sarah, de Jim Anotsu.

26/06/2010

Sugeriram-me que fizesse uma resenha do livro de Jim Anotsu Annabel & Sarah, sugestão que acato com muito prazer porque faço parte das centenas (gostaria de poder escrever “milhares”, mas vocês sabem: estamos no Brasil…) de fãs do primeiro livro do jovem – sim, bem jovem – autor.

Annabel & Sarah é um livro que vai beber em várias fontes: desde as Alices de Lewis Carroll, passando pelo noir americano (Raymond Chandler, Dashiell Hammett, James Ellroy) chegando aos Beatniks (Jack Kerouac, William Burroughs, Charles Bukowski, Lawrence Ferlinghetti). Há também citações ou influências de mangás (quando li o livro, o vilão só aparecia na minha cabeça como um personagem de um quadrinho japonês), HQs como Sandman, música pop, poetas como Edgard Allan Poe, desenhos animados como A viagem de Chihiro…. Você pode estar pensando: “Caramba, deve ter saído uma salada daquelas”. Pois é: saiu mesmo. Mas o resultado é impressionantemente bom. Nada destoa de nada, tudo se harmoniza para apresentar ao leitor uma bela, saborosa e criativa história, que nos prende até o seu desfecho. Jim Anotsu, percebe-se, é um leitor voraz, mas as citações e influências que aparecem no livro em momento algum nos dão a impressão de pedantismo, de que o autor queria mostrar que era muito “lido” (adoro esta expressão). Percebe-se que ele se divertiu escrevendo o livro e homenageando suas paixões literárias.

A história se passa parte em Londres, parte em outros “mundos paralelos” aonde as irmãs gêmeas radicalmente opostas Sarah e Annabel vão parar quando uma delas é raptada pelo vilão e a outra tem de ir atrás para salvá-la. A partir daí a narrativa se divide entre Sarah em um estranho lugar chamado Allegria e Annabel, auxiliada por Dean Chinaski, uma raposa que é o protótipo do detetive noir. Duas história pelo preço de uma (muito boa sacada). Interessante como Jim Anotsu consegue caracterizar muito bem os “mundos” ou “regiões” diferentes em que se encontram Sarah e Annabel. Com Annabel e Chinaski nós estamos em pleno romance policial de linhagem americana, como se estivéssemos lendo um livro de Raymond Chandler ou Dashiell Hammett. A raposa detetive Dean Chinaski é uma figuraça, sempre com uma tirada sarcástica na boca – aliás, os diálogos do livro são muito bons. Essa parte da narrativa é sombria e noturna, não só por se passar no período da noite, mas também pelo seu trágico desenlace. Já as aventuras de Sarah, a irmã sequestrada, que se passam numa terra que nada tem de alegre embora chame-se Allegria, é mais “lisérgica”. Lisérgica no sentido de que é mais “colorida” e mais “leve”, e também cheia de personagens que parecem saídos de uma “viagem” muito doida, embora a pobre Sarah vá comer o pão que o Diabo amassou na casa da vilã secundária da história. Essa é a parte “Fantasia” da narrativa, em contraponto à parte “Policial” de Annabel. Seguindo as a(des)venturas de Sarah, é então que aparece outra personagem encantadora: Beatrice, uma menina fantasmagórica e enigmática que a gente tem a impressão o tempo todo de que não bate bem da bola. Assumo que caí de amores por ela… Sou louco por personagens bizarros.

Não vou contar o final da história, claro, e nem mesmo darei pistas. Seria um total desrespeito para com Jim Anotsu e um bando de personagens que fizeram a minha vida muito feliz durante os dias que levei para ler o livro, só digo que foi uma das leituras mais divertidas que fiz nos últimos meses. Me diverti tentando perceber as citações que Anotsu espalha pela narrativa como “brindes” aos leitores. Se você nunca ouviu falar dos Beatniks, ou não sabe o que é “romance noir”, não se preocupe: sente-se confortavelmente em sua poltrona ou jogue-se de cabeça pra baixo em cima da cama, agarre Annabel & Sarah e comece a ler, sem maiores preocupações/obrigações. Você verá que a narrativa vai fisgá-lo e que fluirá agradavelmente até seu fim. É meio como assistir a um filme.

Agora vou contar-lhes uma coisinha que não me agradou: já não é de hoje que autores brasileiros de Fantasia, Terror e Ficção Científica ambientam parte ou toda a sua história no estrangeiro, em geral Estados Unidos, se bem que no caso de Annabel & Sarah seja a Inglaterra. Fico me perguntando se isso seria realmente produtivo no atual momento em que a ficção de gênero brasileira pretende se firmar de uma vez por todas. Pode ser uma cisma injustificada da minha parte, mas acho que deveríamos ver mais personagens brasileiros vivendo suas aventuras aqui no Brasil, nem que seja pra gente marcar território. Eu gostaria que Annabel e Sarah (que, então, nem se chamariam assim) fossem duas garotas brasileiras, ao invés de gringas. No caso de Jim Anotsu, há uma “desculpa”: a gente percebe que ele é primordialmente influenciado pela literatura de língua inglesa, talvez daí a necessidade de situar seus personagens no contexto da cultura anglo-saxã/americana. No final das contas o livro saiu tão bom que a gente até perdoa – mas espero que isso não se torne uma tendência da nossa ficção.

Não posso deixar de comentar a respeito do excelente trabalho gráfico que foi feito com Annabel & Sarah. O livro tem uma capa muito legal, das melhores que tivemos nos últimos anos, e a diagramação é linda: o trabalho interno é digno de um prêmio de design. Tenho reparado que as pessoas elogiam bastante não só a história como também a parte visual da obra. É isso aí: livro é, também, um produto que precisa ser vendido, e é muito mais gostoso a gente ler um livro com um cuidado gráfico tão evidente. A Editora Draco está de parabéns!

Quando será que Jim Anotsu nos brindará com outra história cheia de criatividade e aventuras, hein?

Nota: se você é autor ou editor, gostou desta e de outras resenhas publicadas, e gostaria de ter seu livro (Ficção Científica, Terror ou Fantasia) resenhado no É só outro blogue, por favor nos envie exemplares. Gostaríamos de comprar e resenhar todos os lançamentos que estão ocorrendo no Brasil, mas se assim o fizéssemos rapidamente nos tornaríamos réus em processos judiciais das operadoras de cartões de crédito.  Seja solidário! 😉

“Xenocídio”, de Orson Scott Card, sob a ótica de Saint-Clair Stockler.

22/06/2010

Tão logo tive a notícia de que a Devir estava lançando o terceiro volume da saga de Ender Wiggin, corri e fui ler a obra. Afinal, nós leitores brasileiros que não lemos em inglês estávamos esperando essa tradução por quase duas décadas.

Resumo rápido

Xenocídio (O jogo do exterminador e O Orador dos Mortos já foram devidamente traduzidos e publicados no Brasil, pela Devir, se bem que há muuuuito tempo) é o maior e o mais ambicioso livro da série até aqui.

Com pouco menos de 550 páginas, a história agora se subdivide em duas “frentes de batalha”, digamos: o nosso conhecido planeta Lusitânia (na “vida real” jamais teríamos um planeta colonizado por brasileiros com esse nome mas, OK Mr. Scott Card, vamos deixar passar esse deslize…) e o planeta Caminho, de colonização chinesa e taoista até a raiz de sua flora. No centro da história, novamente a família “adotada” por Ender: a geneticista Novinha e sua meia-dúzia de filhos, enteados de Ender, cada um mais brilhante do que o outro. O problema em questão, que faz a narrativa se mover: o vírus descolada, que está intimamente ligado a todo o ecossistema do planeta Lusitânia, é uma arma mortífera que ataca todo e qualquer organismo não-nativo do planeta. O Congresso das Vias Estelares acha-o perigoso demais para existir, com o risco de poder se espalhar pelos Cem Mundos, então envia uma esquadra levando um poderoso artefato – o Doutorzinho – que destruirá inteiramente o planeta, colocando o resto da humanidade a salvo.

Acontece que nós leitores sabemos desde O Orador dos Mortos que Lusitânia, além de lar dos porquinhos/pequeninos (a forma de chamar vai depender da empatia de quem os chama; mas se julgássemos pela capa, nós leitores os chamaríamos de clones de Alfie, o ETeimoso), uma espécie inteligente, é agora também lar de humanos e – talvez o mais importante – lar da única Rainha da Colmeia que sobrou após Ender, o Xenocida, ter acabado com a espécie dos abelhudos – chamados na primeira tradução de O jogo do exterminador de “insecta”, o que prefiro – no primeiro volume da série.

Começa então uma luta desesperada contra o tempo para evitar a destruição do planeta Lusitânia envolvendo Ender, sua irmã Valentine (que chega numa nave com sua família e uma ex-aluna, mais o enteado brilhante e deformado de Ender, Miro), a inteligência artificial Jane, um pai e sua filha, da casta dirigente do taoista planeta Caminho, com a inesperada ajuda de uma criada. Todos tentando descobrir modos de evitar a chegada da armada e a consequente destruição de Lusitânia e seus habitantes.

Há uma questão moral envolvida – que é o cerne do romance – e debatida à exaustão por vários personagens em vários momentos da narrativa: é lícito destruir um planeta e suas espécies para salvar cem outros mundos? Pode-se sacrificar um punhado de humanos para salvar bilhões de outros? O desenrolar dos acontecimentos, e o final do romance, nos dirá.

Coisinhas que me incomodaram

A obra é muito bem escrita e essa sofisticação no enredo, com suas múltiplas linhas que se entrecruzam, é algo desejável desde O jogo do exterminador, que tem um enredo no final das contas muito simples, embora surpreendente.

Seja como for, há coisas que me incomodaram. Algumas na construção da obra, outras nas questões filosófico-religiosas que ela suscita.

Orson Scott Card, sabemos todos, é um mórmon, ou seja, um tipo de cristão só mais um pouquinho esquisito do que o normal. E sua Fé reflete-se, toda inteira, na tessitura do romance: a evangelização dos porquinhos, que havia se iniciado em O Orador dos Mortos, está a todo vapor em Xenocídio. É muito interessante ver todo o ecossistema dos porquinhos (esposas, irmãos, paiárvores, etc.) envolvido com o Cristianismo e usando metáforas bíblicas, mas não sei até que ponto um fanático paiárvore cristão, figura crucial em determinado ponto da narrativa, é de fato um personagem crível, que se sustenta. Para mim, foi um pouco demais. Pequeninos usando trechos do Velho Testamento como metáforas para explicar a sua condição e o seu mundo… Não, a minha suspensão da descrença não foi forte o bastante para engolir isso.

O autor é bastante realista com relação ao Cristianismo e suas consequências em vários momentos da narrativa, mas nunca reconhece o que de fato ele é: um instrumento de manipulação de corações e mentes. O curioso é que nesse terceiro volume da saga, uma outra “religião” é introduzida: o Taoismo, no planeta Caminho. Porém essa religião, que também é uma filosofia, acaba sendo ridicularizada por Orson Scott Card como sendo nada mais do que um mero instrumento de manipulação da casta governante do planeta. Dois pesos e duas medidas: o Cristianismo, com todos os seus zilhões de furos, falhas e crueldades, no final serve para alguma coisa boa enquanto que uma outra religião nada mais é do que formalismo e manipulação. Enfim: nada muito novo. Isso acontece todo o tempo na Fantasia (alô C.S. Lewis!) quanto na Ficção Científica – em especial a de Scott Card – e até mesmo na chamada “literatura mainstream”. Só que me incomodou.

Outra coisa difícil de engolir é a família de Novinha/Ender, que em poucas semanas consegue resolver questões que assombram a humanidade há muito tempo. Um exemplo? A descoberta de uma maneira de viajar mais rápido do que à velocidade da luz. Uma família de meia dúzia de irmãos que deve ser a mais brilhante de toda a literatura, versados em física quântica, química, genética, psicologia, religião, biologia – e nossos descendentes… Que orgulho.

Também a explicação (finalmente!) para a existência e, sobretudo, para a localização de Jane, a inteligência artificial, foi pouco convincente e “resolvida” apressadamente. Acho que o autor chegou muito perto de uma obra de Fantasia, com a sua “explicação científica” para Jane.

Um grave erro cometido por Scott Card, agora no nível da construção da narrativa, é a de chamar à ação determinados personagens no início do livro que terão, mais tarde, impacto e importância zero na narrativa, terminando como não mais do que figurantes de luxo. A promissora presença da irmã de Ender, Valentine, e do seu enteado deformado, Miro, são um exemplo disso. O primeiro contato dos dois é descrito em páginas antológicas, mas depois sua utilidade na narrativa desaparece, melancolicamente. Parece que Scott Card usou Valentine apenas para agradar aos fãs, que certamente reclamariam de sua ausência, e não por ela ter uma real importância para o conjunto da narrativa. O mesmo acontece – só que de forma muito mais lamentável e capenga – com a “ressurreição” de Peter, o Hegemona, o irmão psicopata de Ender e Valentine. Sua reaparição num esquema meio “deus ex machina”, andando pra cima e pra baixo usando frases pretensamente sarcásticas e cheias de veneninho, foi patética. Me lembro do menino Peter de O jogo do exterminador: ele me deu medo. Muito medo. O Peter de Xenocídio é um playboyzinho ridículo. E o pior: ele vai embora com a personagem mais legal do romance!? Poderia citar mais alguns personagens que têm sua importância completamente diluída no decorrer da narrativa, mas creio que vocês já entenderam.

Parece que uma vintena de personagens foi demais para Scott Card lidar – se bem que, repito, já era hora de a saga de Ender se encorpar. Estou curioso para saber como serão os próximos volumes. Nos EUA já foram publicados 6 romances da chamada “Saga de Ender”. Há também a série “Shadow”, do mesmo universo, mas que segue em paralelo e não pertence à linha narrativa da Saga. Orson Scott Card é um brilhante escritor, cheio de inventividade e fôlego, e provavelmente as próximas histórias serão melhores. Espero que ele tenha se lembrado da afirmação bíblica do “a quem muito é dado, muito será cobrado” e tenha havido um cuidado maior na manipulação dos personagens dos próximos volumes.

Espero que os leitores brasileiros que só leem em português não tenham que esperar mais 20 anos para descobrir isso.

Uma última observação

Desta vez, a Devir está de parabéns: a revisão – que é o calcanhar de Aquiles das editoras brasileiras que publicam obras de FC e Fantasia –, fora um ou outro deslize, o que é normal numa obra de mais de 500 páginas, está muito boa. Percebe-se que houve um cuidado especial nesse quesito. A capa não é lá essas coisas, mas está de acordo com as dos outros romances de Ender publicados aqui. Se bem que a nave da capa não é fiel à construída pela Rainha da Colmeia, que a rigor nada mais é do que uma caixa com uma porta, sem nem mesmo sistema propulsor – enquanto que a da capa está nitidamente flutuando por meios próprios. Mas quem disse que uma capa tem de ser fiel à obra, não é mesmo?

SpaceBlooks, ciclo de bate-papo sobre ficção científica

03/05/2010

Em meio a ciclos de debates, conferências e palestras, a Blooks Livraria apresenta SpaceBlooks: ciclo de bate-papo sobre ficção científica. Autores e leitores reunidos diante da produção carioca de FC e seu espaço conquistado em meio a um mercado editorial que não pode mais ignorá-la. SpaceBlooks são encontros informais e, por isso mesmo, muito francos, onde colocaremos temas como viagens no tempo, colonização de outros mundos e criaturas pan-dimensionais na frente da prateleira.

Spaceblooks acontecerá em maio na Blooks mesmo (Praia de Botafogo, 316, ali no Cinema Arteplex) e contará com a presença de gente que produz, escreve e gosta de conversar sobre o tema. Confira a agenda e os convidados mais que especiais:

  • Dia 6 de maio, 19h | Cinema e Ficção Científica: o escritor e roteirista Bráulio Tavares, o animadorCésar Coelho, o jornalista do Globo Rodrigo Fonseca e o jornalista Eduardo Souza Lima, o Zé José.
  • Dia 13 de maio, 19h |Ficção científica na Internet: Os escritores Fábio FernandesAna Cristina Rodrigues Saint-Clair Stockler expõem seus sucessos e vitórias nesse território de bravos.
  • Dia 20 de maio, 19h |Steampunk:  o escritor e editor Gérson Lodi-Ribeiro, o ilustrador Alexandre Lancaster e o multimidiático Fausto Fawcett falam sobre suas visões de passado na última mesa da noite.

A curadoria do evento é do escritor Octávio AragãoToinho Castro, este que vos fala.  Então o convite está feito e contamos com a presença de leitores e escritores de ficção científica, ou gêneros afins, além de pessoas interessadas em literatura em geral. Curiosos são bem-vindos, e também os clientes da Blooks Livraria que por acaso estejam ali na hora dos encontros.

Repeti, aí em cima, a divulgação original da Blooks Livraria de 13 de abril desse ano. Fiquei sabendo só hoje sobre esses eventos. Sinal que ando mal informado…rs… de qualquer forma parecem ser programas imperdíveis, pelos assuntos e pelos convidados que são experts.

Quem for do Rio, aproveite. Não são eventos que se perdem de bobeira.

Cadê os contos?

27/01/2010

No último minuto, da última hora, do último dia de fevereiro se encerrará o prazo para o envio dos contos dos que se propõe a testar o talento, numa disputa acirrada para fazer parte do time de autores convidados da coletânea organizada por mim e por Saint-Clair Stockler.

Sabemos que essa não é uma tarefa fácil, já que as avaliações serão rigorosas. E justamente por isso nos perguntamos se a quantidade de contos enviados até agora, que foi ínfima, na casa da dezena, reflete exatamente o temor dessa disputa. Ou se, por outro lado, como bons brasileiros, estejam, quase todos, deixando para a última hora o envio dos seus trabalhos.

Esperamos que seja a última opção, embora ela nos obrigue a ler inúmeros contos num prazo exíguo de tempo, numa corrida insana contra o relógio.

Só para deixá-los preocupados, adianto que dos dez contos recebidos lemos até agora quatro. E desses quatro nenhum se salvou.

Essa foto é pra vocês se estimularem.

Afiem as lâminas, vistam as armaduras, empunhem suas espadas.

O bicho tá pegando.

ADENDO DE ÚLTIMA HORA – Acabei de ler um conto enviado e tenho o prazer de informar que foi pré-selecionado. Isso não significa que está garantido, mas é um quase um gol de letra.

Saint-Clair Stockler fala de Dias estranhos.

25/01/2010

Conheço-o desde 2007. Desde então sei de Dias estranhos, o livro que escreveu e que ansiava publicar um dia, se tivesse sorte. Bem, ela chegou. Mas a sorte não faria nada sozinha se não tivesse em mãos uma antologia fantástica de indiscutível qualidade e um autor consciente disso.

Dias estranhos recebeu uma ótima resenha do jornal O Globo, caderno Prosa & Verso, no dia 15 de setembro de 2007. Isso não é para qualquer um. Será publicado esse ano pela Editora Draco. Clique na imagem para ler.

Saint-Clair:

“Dias estranhos é um livro de contos escritos num período de 13 anos. É isso mesmo: levei quase uma década e meia pra formar o livro. Sou devagar, porque não escrevo todos os dias. Escrevo apenas quando sinto vontade, quando acho que tenho uma boa idéia, nem que seja apenas uma imagem (que depois terá de ser trabalhada até surgir uma história). No entanto, agora com o livro “fechado”, olho e me surpreendo que apesar das várias técnicas que empreguei na feitura dos contos (e foram muitas), o livro tenha unidade, seja coeso e não um amontoado de coisas soltas sem equilíbrio, juntadas às pressas só pra fazer volume.

Só escrevo quando sinto uma força que não pode ser contrariada me forçando a escrever. Eu sou assim. Também fico “polindo” muito: troco palavras de lugar, reconstruo frases, corto ou acrescento adjetivos, advérbios, verbos. Gosto de pensar em mim como um artesão da palavra. Cada vez que releio um texto meu descubro coisas a mudar, a cortar, a acrescentar. É uma luta incessante, é como ser Sísifo. Escrevo porque gosto, porque a literatura representou pra mim uma via de escape de uma infância terrível; lendo, esquecia da minha realidade mas acabava – sem saber – aprendendo cada vez mais sobre mim e sobre tudo que me cercava. Um paradoxo, eu sei: fugindo, me encontrava. Mas a literatura é assim. Escrevo também porque produzir uma obra de arte é uma tentativa de parar o tempo, ou de tentar amenizar a sua força terrível. A gente morre, a obra – se dermos sorte – fica. É a única forma de imortalidade em que acredito.

A maior parte dos contos pertence ao gênero fantástico porque isso reflete a minha visão do mundo. Pra mim o mundo é cheio de coisas estranhas, de pessoas estranhas, de acontecimentos estranhos. Refuto com veemência a corrente “realista” da literatura brasileira. Mesmo quando algum conto meu não tem nada de exatamente fantástico, o fantástico está presente no viés com que o narrador mostra eventos e pessoas. Nesse sentido, sinto-me mais próximo dos homens e mulheres da Idade Média do que dos meus contemporâneos. Naquele período as pessoas viviam imersas na dimensão maravilhosa das coisas. O mundo era um mistério (reforçado, entre outros, por instrumentos como a Igreja), e podia ser belo embora frequentemente fosse terrível. Mas o mundo era, repito, um mistério a ser gozado e não uma equação a ser resolvida. Desde então o mundo se empobreceu muito. Acho que perdemos muito, nós sobreviventes dos séculos XX e XXI.

Sou essencialmente um contista, porque a forma curta me agrada demais. Posso, num livro, contar 20 histórias diferentes, ao passo que se fosse um romancista teria um livro de 300 páginas contando apenas uma única história. E mais: sou um contista barroco. O que quero dizer com isso? Só lendo um dos meus contos você entenderá. Nunca achei que a menor distância entre dois pontos fosse a linha reta. Mas sou, principalmente, um contista que acredita que um conto tem de ter uma história e não meramente ser um exercício de estilo. Perguntei a Elvira Vigna – que, além de ser minha amiga, é para mim um dos maiores escritores que o Brasil tem -, depois que ela leu os contos que formariam o Dias estranhos, se havia gostado. Elvira ficou um tempo calada e respondeu, naquele seu jeito direto, sem enfeites: “Gosto dos seus contos”. E depois acrescentou: “Você me lembra um buldogue. Você anda com o osso na boca pra cima e pra baixo, mas nunca o larga. Você nunca solta o osso”. O “osso” a que ela se referia era o enredo. Meus enredos nunca são lineares, mas também não há pontas soltas. No final tudo se encaixa.

Estou com 37 anos e esse é o meu primeiro livro. Tem gente que com 18 já publicou. Eu achava que não ia publicar nunca um livro só meu. Tem centenas de garotos e garotas com vários livros publicados e eu quase na meia-idade e nada. Mas não me incomodo. Me incomodaria mais se tivesse a certeza de que árvores estariam sendo abatidas para a publicação de um livro de merda. Não é o caso, apesar de ser suspeito em afirmá-lo. Não perderei noites de sono pensando nas pobres árvores que viraram Dias estranhos, porque tenho a certeza de que estou oferecendo um livro honesto e bem escrito aos leitores que vierem a se interessar por ele. Sou grato ao Espírito das árvores, e sei que ele não se sentirá ofendido comigo, mas tenho muita pena de gente como o José Sarney, a Zíbia Gasparetto ou a Fernanda Young.  É um livro belo, também. Erick Santos, o editor da Draco, me disse: “Seus contos são muito tristes”. Não sei bem se é tristeza, mas com certeza há um certo amargor, misturado com humor negro e com ironia. Eu olho o ser humano e não tenho ilusões quanto ao que nós somos. Nós somos muito ruins, não prestamos, somos mentirosos, mesquinhos, falsos, nos vendemos facilmente por 30 moedas – e mostro isso nos meus contos. Minha cunhada leu alguns deles e comentou chocada com o meu irmão: “Ele é um pervertido”. Não sei se há tristeza, mas sei que há certa beleza neles. Um dos segredos da vida é esse: há beleza em tudo o que existe, até mesmo nas coisas feias.