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Quem é Miguel Carqueija?

02/03/2011

 

Miguel Carqueija é o primeiro a esquerda, nessa foto de 2006 onde acontece uma reunião do CLFC. Nasceu e mora no Rio de Janeiro onde escreve "desde tempos imemoriais", mas participa do fandom desde 1983 - isto é, quase desde o seu início - e vem publicando desde então. Afora centenas de textos em fanzines, revistas, jornais e páginas virtuais, contabiliza 14 livros individuais, sendo 9 em papel, 1 em papel e com versão digital, e 4 "e-books". Desses 14, o livro virtual As portas do magma (scarium.com.br) é de coautoria com Jorge Luiz Calife. Menciona-se ainda A âncora dos Argonautas (1999), A Rainha Secreta (2001), A Esfinge Negra (2003), O fantasma do apito (2007, reeditado em 2010), Farei meu destino (versões em papel e virtual, 2008 -gizeditorial.com.br) e "Tempo das caçadoras" (2009). Também participou de mais de duas dezenas de antologias, umas amadoras, outras profissionais, destacando Poe 200 anos, organizada por Maurício Montenegro e Ademir Pascale e lançada em 2010, onde além de um dos contos também assina o prefácio. Seu conto O tesouro de Dona Mirtes foi filmado em 2004 e o curta resultante pode ser assistido pelo youtube (http://www.youtube.com/watch?v=CYn_11sQEQI).

É só outro blogue: Como você definiria as décadas de 1980 e 2010? Quais são as fundamentais e observáveis diferenças entre a FC praticada naquela época e a que é praticada hoje?

Miguel Carqueija: Naquele tempo os “gêneros interessantes” – basicamente, ficção científica, fantasia, terror e mistério não estavam tão unidos como hoje em dia, quando não separamos mais os que fazem isso ou aquilo, estamos todos no mesmo barco. Eu, particularmente, diversifiquei minhas experiências, passei a escrever terror, fanfics, cheguei à alta fantasia e tenho incursões no policial. Além disso, nos anos 80 ainda não existiam celular e internet, que influenciaram muito nos textos posteriores. Também nos baseávamos mais nos fanzines de papel e poucos de nós publicavam em livros, quando o faziam eram edições amadoras e/ou cooperativadas. Hoje em dia é mais fácil chegar ao livro, pelo menos às antologias, sem falar nos “e-books” – só eu já tenho quatro.

É só outro blogue: Você exibe, hoje, em parte de seus escritos, uma profunda crença religiosa. Seus personagens obedecem ao estereótipo maniqueísta onde bem e mal estão claramente definidos. Você não acha que, em tempos de ateísmo (e agnosticismo) cada vez mais abrangente entre os intelectuais, essa abordagem pode afastar leitores potenciais?

Miguel Carqueija: Em certas novelas principalmente as que lidam mais profundamente com a alma feminina (sou um especialista em heroínas) coloco religiosidade, e diferenciação clara entre o bem e o mal. Mas não vejo isso como maniqueísmo, pois procuro colocar vivacidade nos personagens e nas ações. E as atitudes dos bons são justificadas. Creio que estabelecer uma diferença clara entre o certo e o errado é o melhor caminho, muito melhor que o relativismo moral. Por outro lado, bilhões de pessoas no mundo são religiosas, embora em graus diferentes e também de maneiras diferentes; e existem autores ateus que, nos seus escritos, operam claro proselitismo das ideias ateístas. Ora, para mim a religião está mais forte do que nunca, especialmente a minha (católica) e sei que o materialismo jamais conseguirá prevalecer. Outros podem pensar de outra maneira, mas esta é uma aposta minha. Gostaria de lembrar que nessas historias também coloco muito humor entremeado, e trabalho com um estilo narrativo que Jorge Luiz Calife considerou “cinematográfico” no prefácio que escreveu para a novela A face oculta da Galáxia (“e-book” publicado em casadacultura.org, no “link” de ficção científica). É interessante observar que Calife é decididamente descrente, pelo menos deixa isso claro em Padrões de contato (não sei se é sua posição atual), mas não se incomodou com as referências à religião feitas na citada novela; ele enxergou outras coisas. Uma coisa que posso dizer é que me esforço para que os meus textos sejam interessantes do começo ao fim, evito as narrativas resumidas que tantos fazem, ou repletas de explicações cansativas, sou de opinião que uma história explica a si mesma pelo seu desenvolvimento. Assim, não me considero um “moralista chato”, mas não abro mão de considerar a literatura um veículo para ideias e mensagens. E não considero um bom caminho o brutalismo à Rubem Fonseca seguido por vários colegas do fandom; entretanto é um caminho que eles escolheram, e eu escolhi o meu, mais próximo p.ex. do João Batista Melo.

É só outro blogue: Dentre os escritores brasileiros de ficção de gênero (Fantasia, Terror, Ficção Científica, etc.), quais os que mais lhe chamam a atenção e por quê?

Miguel Carqueija: Gosto de alguns antigos como Thales Andrade, autor de O sono do monstro e A filha da floresta, e que acompanhou a minha infância, é um autor injustamente esquecido. E Malba Tahan, nosso grande fabulista, que até numa de suas histórias, A caixa do futuro, antecipou as cápsulas de mensagem para os pósteros, coisa que hoje já existe. São autores que podem ser lidos por todas as idades e que mantém uma inocência básica que vejo como muito importante, apesar de ser um valor esquecido. O João Batista Melo eu aprecio muito, como o nosso Bradbury. Um de seus contos mais aliciantes, onde o fantástico é sutilíssimo, é aquele em que um diretor de escola corrupto afasta uma professora antiga e querida pelos alunos para dar lugar a uma apaniguada jovem, e em consequência todos os alunos desaparecem, colocando-o em palpos de aranha. Também gosto dos trabalhos de Simone Saueressig e Roberto Causo, a primeira pela sua veia fabulística, o Causo pela correção de seu estilo e seu resgate dos temas do folclore indígena. E quero mencionar também duas autoras pouco comentadas, Regina Sylvia, cujo romance 9225 antecipou a internet numa distopia curiosíssima (é uma edição particular) e Elizabeth Maggio, cujo conto Aqui não há nuvens, saído na antologia As sete faces da ficção científica, é uma obra-prima.

É só outro blogue: O que o atrai a ponto de dedicar seus esforços em algumas histórias crossover baseadas em mangás? Não o incomoda que uns considerem esses trabalhos infantilóides?

Miguel carqueija: Com relação a isso, talvez você esteja se baseando no fato de que meus dois últimos livros publicados foram fanfics-crossovers: A cidade do terror, que saiu em contosgrotescos.com.br, e O fator caos, publicado no Portal Cranik, ambos em 2010. Mas veja bem, isto foi uma estratégia: surgindo oportunidade de lançar “e-books” dei preferência a essas novelas já antigas, pois a internet é o espaço mais adequado para as fanfics – tanto que existem milhões na rede, e cada dia aumenta o número.
Além do mais, minhas fanfics não são inspiradas só em mangás, já fiz com Batman, Chapolin, Tio Patinhas etc. Fanfics são homenagens dos fãs e representam um interessante exercício, pois o autor deve se esforçar em respeitar o caráter básico dos personagens utilizados. Monteiro Lobato, na série do  “Sítio do Pica-pau Amarelo” trabalhou muito com fanfics (Peter Pan, por exemplo), embora naquele tempo não se usasse esse termo.
Gosto de produzir fanfics. No campo dos mangás fiz várias de Sailor Moon e estou preparando uma do Cowboy Bebop. Mas, quero frisar bem este ponto, fanfics são apenas uma fração da minha obra, já que invisto em muitas modalidades. Já criei até um pirata para uma nova série. Escrevo terror, fantasia, mini-contos de vários tipos, policial, história alternativa, contos de ficção científica de fundo social e satírico. Quanto a serem tais histórias “infantiloides”, bem, eu sou assumidamente um escritor de ficção infanto-juvenil. Não me julgo infantiloide, pois tento caprichar nos diálogos, construção das cenas etc. e meu texto é econômico. Realmente, meus textos são amenos e nesse ponto contrastam bem com certa FC barra-pesada que se tornou moda em alguns autores, mas não tenho a mínima intenção de mudar. Acredito que não se pode abandonar de todo as histórias idealistas e que o público aprecia a exaltação de valores, senão séries como “Harry Potter” e “Guerra nas estrelas” não fariam tanto sucesso. Como autor, uma das minhas preocupações é constatar as impressões dos leitores. Tanto isso é verdade, que costumo remeter meus livros para possíveis resenhadores. Comentários que não se limitem a “gostei” ou “não gostei” são bem recebidos, mesmo que sejam desfavoráveis. Os leitores/críticos muitas vezes enxergam coisas que os próprios autores não percebem. E mesmo que você tenha sabido de críticas “ferozes” contra meus textos, também estou acostumado a receber elogios às vezes inesperados e até exagerados.
Agora, se você acha que escrever fanfics é um desperdício de talento, devo esclarecer que estou com vários livros que não são fanfics à espera de edição profissional em papel. Tenho um romance de ficção científica e policial, Neblina e a Ninja, que trata do problema da violência urbana (portanto, mais atual que nunca), prefaciado por Marcello Simão Branco. Estou com dois novos romances que representam experiências novas na minha obra: O estigma do feiticeiro negro (com prefácio de Cesar Silva), que é uma alta fantasia, e O despertar das bruxas, uma fantasia urbana contemporânea e acho que ambos poderão dar o que falar. Meu próximo livro, porém, que deverá sair em formato de bolso, será Os mistérios do Mundo Negro, uma mistura de terror e FC.

É só outro blogue: O mercado literário de gênero, hoje, vem passando por uma expansão editorial jamais vivenciada antes. Tratando-se você de um autor com currículo e história em nossa FC, o que justifica publicar Farei meu destino na Editora Giz, como edição de autor? Você chegou a procurar por editoras tradicionais?

Miguel Carqueija: Não acho tão fácil assim motivar as editoras profissionais, mas eu lhe digo que, depois de publicar Farei meu destino, muitas portas começaram a se abrir. Basta dizer que, desde então, publiquei três “e-books” individuais e participei de duas antologias virtuais; lancei mais um livro individual semi-profissional, Tempo das caçadoras; O fantasma do apito, de 2007, obteve segunda edição em 2010 (já houve quem o classificasse de “cult”): e participei de nada menos que sete antologias em papel profissionais. Na verdade, nunca publiquei tanto e em tantas edições profissionais. Por isso, creio que valeu a pena investir.

Quem é Simone Saueressig?

23/02/2011

 

Simone Saueressig nasceu em Campo Bom (RS), em 1964. Atualmente mora em Novo Hamburgo (RS). Professora de balé, estreou na Literatura em 1987. Tem vários títulos publicados dentro do gênero do Fantástico, muitos deles voltados para o público infantil e infanto-juvenil como “A Noite da Grande Magia Branca” (2007), “A Fortaleza de Cristal” (2007), “O Palácio de Ifê” (1989) “A Estrela de Iemanjá” (2009), “A Máquina Fantabulástica” (1997), “Receita para um dragão” (1999) e o livro de contos “O Ninho” (2000). Na década de 90, publicou contos infantis no jornal "Ya", de Madrid (Espanha) e o conto de realidade fantástica “As linhas na pele do viajante” na revista lusitana “Ibn Maruan” (1996). Participou de diferentes antologias, como “Como era gostosa a minha alienígena” (2002) e de vários fanzines, como o Boletim Antares, Somnium, Hiperespaço, e Scarium, entre 1987 e 2008. Em 2003 conquistou o 1º lugar no concurso 1º Concurso de Contos e Ilustrações – Na rota das caravanas promovido pela Revista Scarium e o 1º lugar no concurso Museus: Mundos Imaginários, promovido pelo Museu Imperial de Petrópolis. Seus trabalhos podem ser encontrados em vários sites da internet, inclusive no http://www.porteiradafantasia.com onde podem ser lidos gratuitamente os e-books “O pitbull é manso, mas o dono dele já mordeu uns quantos...” e “O Jogo no Tabuleiro” de sua autoria.

Começarei as entrevistas com autores identificados com a Segunda Onda com Simone Saueressig. Simone, mesmo tendo uma peridiocidade de publicações bastante razoável, é, misteriosamente, desconhecida do Fandom atual, esse que vem se formando de forma paulatina, acompanhando a expansão de mercado da Terceira Onda. Talvez essa entrevista ajude-a a se tornar mais visível, talvez não. Para quem não a conhece, apresento-lhes uma autora de técnica narrativa refinada e muita criatividade.

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É só outro blogue: Você escreve obras tanto para adultos quanto para crianças e jovens. Há mesmo alguma diferença entre escrever para adultos e escrever para crianças/jovens?

Simone: Creio que há uma diferença de abordagem, o que significa uma diferença de linguagem. Mas não mais do que isso. Existem alguns autores que acreditam que existem temas “tabu” para a literatura voltada ao público infantil, mas eu acho que não. A dificuldade maior está na abordagem e no próprio autor. Alguns autores se sentem mais a vontade para falar de temas como sexo e violência e outros não. O fórum interno de cada um conta muito mais do que a gente pensa.

É só outro blogue: Suas obras de Fantasia são marcadas pela preocupação em utilizar elementos da mitologia indígena brasileira. Mas vivemos numa “aldeia global”, para citar a frase que já virou clichê de Marshall McLuhan. No que uma escritora brasileira de Fantasia difere de, digamos, uma escritora escocesa de Fantasia?

Simone: A diferença deveria ser a matéria-prima do imaginário e a maneira como uma cultura lida com isso. A cultura massificada dos nossos dias tem uma tendência a ficar na superfície das coisas e esquece que os elementos da mitologia falam diretamente ao simbólico, ao subconsciente das pessoas. Pouco antes de eu começar a escrever, muita gente se preocupava com a “invasão cultural norte-americana”: era uma discussão muito viva e abrangente, com críticas voando de lado a lado. Eu vivi uma situação polarizada: de um lado amigos politizados que criticavam minhas leituras (basicamente FC e Fantasia, o que na época significava ler autores norte americanos e europeus) e de outro umas poucas pessoas que compartilhavam comigo a paixão por esse tipo de histórias (que eram poucas e estavam distantes). Encontrei o equilíbrio quando percebi que poderia escrever fantasia usando os elementos do meu folclore – o que é exatamente a mesma coisa que a hipotética escritora escocesa da pergunta faria com os elementos do folclore dela. A grande diferença é que depois da abertura política e a chegada da internet, a discussão em torno da invasão cultural foi se esvaziando e praticamente desapareceu. Então quase não existe mais resistência, porque se antes a frase de Marshall McLuhan era quase uma metáfora, hoje ela não é mais. A rede aproxima as pessoas, mantém laços afetivos, promove encontros que antes não eram possíveis. Por isso mesmo é tão importante que recuperemos a discussão sobre a invasão cultural e a mantenhamos viva. Isso não quer dizer ignorar as mitologias que chegam de fora, mas ter claro que elas são outra leitura do imaginário humano, que não o meu, enquanto brasileira e sul-americana – mas aí surge outra discussão sobre quais os símbolos com os quais nós nos identificamos: se com o Saci-Pererê ou com o gnomo que oculta seu tesouro no fim do arco-íris e qual a legitimidade de eu usar um símbolo com o qual eu não me identifico, porque a cultura urbana e globalizada me deu outros elementos que os considerados originalmente como brasileiros e estes, muitas vezes, são mais alienígenas, no sentido que não os reconheço como meus, do que os estrangeiros que povoaram os filmes e livros que consumi e que me formaram como ser humano. Toda vez que lidamos com um símbolo cultural, estamos lidando com valores de uma cultura especifica. Então é muito importante que mantenhamos vivas as diferenças culturais, não como uma fronteira que separe, mas como forma de enriquecer o patrimônio imaginário humano. Por isso é  importante manter vivos os seus elementos mitológicos e folclóricos: para não perder a variedade que nos torna únicos na Natureza. Talvez a principal diferença entre uma escritora de Fantasia brasileira e uma escocesa, é que a escocesa tem tão arraigada a importância de manter a sua identidade cultural, que ela não vai se preocupar com isso – é parte do seu trabalho. Mas de uma maneira geral, a escritora brasileira terá de compreender o processo e sua importância, terá de se convencer disso, porque ela foi bombardeada durante muito tempo com objetos culturais onde são exaltados e dados a conhecer figuras mitológicas de outras culturas. Ela já está acostumada a guerreiros medievais, sabe – ou pensa que sabe – o que são. Ela já se apaixonou por dragões e tem claras as paisagens das histórias de Fantasia europeias. De uma maneira geral, conhece as dificuldades climáticas e os desafios do relevo. Em que história de Fantasia não neva? Não tem um pântano com guerreiros afogados? Que graça uma história de Fantasia sem altas montanhas para transpor? Tudo isso faz parte da paisagem europeia, e já foi tão explorado por esse tipo de literatura que qualquer leitor médio saberia descrever medianamente um cenário de história de Fantasia. Mas quando a gente atravessa o Atlântico, aparece o desafio. De repente não há mais guerreiros medievais, os monstros mudam, o cenário muda. As regras mudam. E além de você ter de pesquisar tudo isso, ainda por cima tem de descrever de uma maneira atrativa para um público que, normalmente, não sabe do que se está falando. Então a escritora brasileira terá de se convencer de fato de que o sua matéria-prima é tão importante quanto a da escocesa – que já está convencida disso – e esta é uma diferença muito importante.

É só outro blogue: Como é o seu método de trabalho? Quando se senta para escrever, você já tem toda a história planejada ou vai descobrindo na medida em que escreve? Como você se inspira? Quem ou quais são as suas influências?

Simone: Normalmente, eu escrevo para descobrir a história. Quero saber o que vai acontecer com algum personagem. Eventualmente tenho uma “cena” que gostaria de escrever e para ela funcionar, é preciso criar um arcabouço de eventos onde ela possa ser inserida com a dramaticidade que eu a imaginei. “A Fortaleza de Cristal”, por exemplo, foi escrito somente para por um personagem de joelhos (pura crueldade, já me disseram!). Contudo, de vez em quando escrevo uma história cujo final já imaginei, como o inédito “Os Sóis da América”. Quando isso acontece, costuma ser um sufoco, porque a partir do momento em que eu sei o final da história ela perde o interesse para mim. “Os Sóis da América” não perdeu o interesse porque mesmo sabendo o final da história eu precisava resolver tantas coisas na aventura do personagem principal que fiquei ligada até a última linha. O que não significa que o texto está pronto, longe disso. Aí é que começa o trabalho mesmo, porque a primeira versão costuma ser pura diversão. Depois é que o vou trabalhar de verdade.
É complicado falar em “método”. Depende do texto. Se for uma história de Fantasia sem um contrato especifico com o imaginário brasileiro ou sul americano, é mais fácil, como em “A Máquina Fantabulástica”. O próprio “O Jogo no Tabuleiro”, que lida com elementos tradicionais das histórias de Fantasia (tem dragões, montanhas, magos e guerreiros), foi relativamente fácil de ser escrito, embora trabalhoso. “O pitbull é manso, mas o dono dele já mordeu uns quantos…” fluiu muito bem, quando não toquei no texto depois de pronto.  Mas quando estou focada em alguma das nossas tradições, o texto é escrito mais ou menos junto com a pesquisa. Reconheço que sou preguiçosa. As coisas facilmente perdem o interesse para mim, então dificilmente eu faço primeiro a pesquisa, para depois escrever. Acho que só fiz isso com “O Palácio de Ifê” e “A Estrela de Iemanjá”, que têm como tema a cultura afro-brasileira.
Quanto à inspiração, bem que eu gostaria de dizer “como eu me inspiro”, porque daí ia ficar fácil repetir o processo toda vez que precisar! A única vez em que a inspiração veio de verdade, aquela que a gente tem como ideal, foi quando escrevi “A Máquina Fantabulástica”, inspirada no maluco do elevador do prédio onde moro. Normalmente as histórias partem de uma ideia vaga: “eu gostaria de escrever algo feito aquele livro, com um tema parecido ou uma voz textual semelhante”. Mas é claro que dificilmente algo me inspirará mais do que um filme ruim. Quanto pior o filme, mais ele me desperta indagações e controvérsias interiores. Ainda estou me recuperando de “O último mestre do ar”.
E por fim, as influências, são múltiplas: Asimov, Bradbury, Tolkien, Lewis, Leblanc, King, Poe, Lovecraft, o que vou lendo no momento… é difícil de dizer. No fundo eu acho que todo autor que a gente lê contribui, em certa medida, no texto que vamos escrever. Mas sem dúvida, Tolkien, Poe e Asimov foram os que contribuíram na minha paixão pela literatura fantástica. Sem eles, eu não teria lido todos os demais. E antes todos eles, Lewis e suas Crônicas de Nárnia. Sem Lewis, eu sequer teria me tornado uma leitora.

É só outro blogue: Olhando em retrospecto, o que você diria para um jovem escritor brasileiro de Fantasia não fazer?

Simone: Não copiar – o que é muito difícil. Mesmo “A noite da grande magia branca”, o primeiro livro que editei buscando uma Fantasia com elementos brasileiros, tem tanta influência de Tolkien que é quase impossível não lê-lo nas entrelinhas – e isso que foi uma luta constante. Quando eu digo “não copiar”, não estou acusando ninguém de plágio, notem bem. Não estou dizendo que este ou aquele autor copia realmente seus livros e suas histórias de clássicos. Eles existem, mas felizmente são em menor número. Contudo, estaria bem que no lugar de tanto feiticeiro, bruxa e guerreiro medieval, pudéssemos contar com bandeirantes, pais de santo e jagunços, por exemplo. Outra coisa que está acontecendo com esses autores é que eles ficam olhando muito para o próprio umbigo. O sujeito escreve um livro e vende (que bom!)– e se acha o máximo. Em vez de ele partir para a próxima, pensar “tá, e agora?”, ele fica inflando o ego com números e resenhas elogiosas. Quando eu comecei a colocar meus contos nos fanzines, descobri que estava dando a cara à tapa. As críticas nem sempre eram boas. Claro que ninguém gosta de ser criticado, mas é ela que ensina. A primeira coisa que se faz hoje, quando isso acontece, é revidar como se fosse uma coisa pessoal. A crítica é, sobretudo, o olhar do outro, e o “outro” é o leitor, a outra ponta da corrente. Sem ele não existe Literatura.
E também tem o básico: se estiver começando, não o faça com uma saga de cinco volumes de 700 páginas cada um!  A gente precisa aprender a ter calma. Se quiser escrever a tal da saga, o melhor é deixá-la num cantinho por um ano ou dois, depois de pronta. Quando o escritor a pegar de novo verá se ela de fato merece tudo isso ou se precisa ser recortada. Em todo o caso, se o autor pensar que é isso mesmo o que ele quer, então que vá em frente, mesmo que o mundo inteiro diga que não. Muitas vezes os editores erram de maneira tão absurda que a gente fica pensando como um sujeito como aquele que disse que Kipling não sabia escrever, por exemplo, podia estar à frente de uma editora. O caso é que o que o editor diz pode ser importante, mas aquilo em que o autor acredita é mais. Kipling, afinal de contas, depois de receber tão miserável crítica, foi o primeiro autor inglês agraciado com o Nobel de Literatura, em 1907 e até hoje foi o mais jovem.
Em todo o caso Kipling não começou com histórias longas, não mesmo!

É só outro blogue: Dentre os escritores brasileiros de ficção de gênero (Fantasia, Terror, Ficção Científica, etc.), quais os que mais lhe chamam a atenção?

Simone: Acho o Braulio Tavares brilhante e gosto muito do Roberto Causo. Acabei de ler o lançamento de Christopher Kastensmidt pela Devir, e achei muito legal a proposta. É como se fosse um diálogo travado através dos livros: eu, enquanto brasileira, li e consumi FC e Fantasia americana. Ele, que é norte-americano radicado no Brasil, me oferece uma história do gênero com temas brasileiros, em terras brasileiras. Também gosto do Flávio Medeiros Jr. e dos contos da Maria Lúcia Victor Barbosa, dos livros que li de Aline Bittencourt e Flávia Muniz.  E eu jamais deixaria Marina Colasanti de fora de uma lista de autores do gênero aqui do Brasil. Ninguém escreve contos de fadas como ela (mesmo quando as fadas não aparecem explicitamente).

Saint-Clair Stockler colaborou nesta entrevista.


Pedro Moreno

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