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Kaori, perfume de vampira – lido e comentado

24/01/2013

CapaKaori_1

Li recentemente o livro Kaori e o Samurai sem braço. A experiência foi fascinante e o sense of wonder fez valer cada linha de leitura. Ao terminá-lo, vi que precisava corrigir um erro e ler as demais histórias da série para poder fazer um julgamento mais abrangente.

Descobri que devia ter lido primeiro este ao Kaori e o Samurai sem braço. Não são histórias complementares, independem um do outro, mas o sense of wonder do primeiro não se repetiu no “segundo”, ficando numa espécie de “meio do caminho”.

Se a ordem de leitura tivesse sido inversa, a fruição iria num crescendo, atingindo o nível máximo com o terceiro livro da série.

Mas isso não significa que Kaori, perfume de vampira seja ruim. Não é!

Giulia Moon conduz a história em dois arcos narrativos distintos. Um, no passado, época dos Xoguns. Outro, nos dias contemporâneos. Ambos os arcos se sustentam com competência e prendem a atenção do leitor de tal forma que se torna difícil abandonar a leitura.

Um dos arcos, porém, o que transcorre no passado, é mais fantástico, é mais fascinante. Foge do clichê, das conspirações cotidianas, da receita já bem mastigada e regurgitada dos cenários de ação dos thrillers contemporâneos que nos lembram um mash up — tudo junto e misturado — do mesmo e sempre mesmo, já tanto usado e abusado (que não acontecem na mesma medida na obra de Moon, mas que deixam entrever sua marca indelével mesmo sem serem tão exploradas).

Um detalhe que me chamou a atenção — nem dá pra dizer que é detalhe —, é que não existe uma história propriamente dita. Avançamos na leitura sem saber para que lado estamos indo, sem saber o que nos espera nas páginas seguintes. Não há um plot que nos faça antever cenários. Só nos é dado conta da trama quando já passamos por quase dois terços da história. Existem micro histórias, eventos aparentemente isolados que não dão mostra do que se oculta em suas entrelinhas.

Não sei dizer se isso é bom ou ruim.

A prosa de Giulia Moon é bastante boa para que deixemos isso de lado e avancemos na leitura, certos de que, em algum momento, as peças se encaixarão.

E elas se encaixam.

Os dois arcos narrativos se encontram e passam a correr numa só trilha. O Gran Finale finalmente se avizinha e temos a abertura do leque, onde os vilões se revelam e ocorre o esperado enfrentamento entre mocinhos e bandidos.

Particularmente, o final meio que me decepcionou. Não sei bem o que esperava, até posso admitir que Giulia Moon nos deu o melhor de si e concluiu a narrativa da maneira mais acertada, mas ficou um sabor indefinido que me roubou um pouco de satisfação.

A coisa funcionou da seguinte forma comigo: o arco narrativo que se passava na época do xogunato era, em termos de cenário e de ambientação — e também narrativamente —, muito melhor que o arco que se desenrolava nos dias atuais. Houve um desequilíbrio que prejudicou minha fruição plena. Quando a autora juntou tudo, trazendo os personagens do passado para o presente, senti como se ela traísse esses mesmos personagens e toda a aura fantástica que havia criado.

Mas essa visão é minha, bem particular. Certamente muitos discordarão dela.

Não há como negar que Giulia Moon é mestra. Não sei de ninguém — no cenário nacional — que a ombreie no gênero de terror. Os demais devem lê-la e aprender com ela.

Kaori, perfume de vampira é, em síntese, um livro bastante bom. Tropecei aqui e ali, considerei algumas escolhas equivocadas, alguns caminhos errôneos, mas a obra em si é plenamente recomendada.

***

Kaori, perfume de vampira – Giulia Moon

Editora: Giz Editorial
Gênero: Terror
Formato: 16 cm x 23 cm
Páginas: 371

Saiu! Saiu! Corre, lá! Brinquedos Mortais na Amazon!

20/06/2012

Depois de um longo e tenebroso inverno, Brinquedos Mortais aporta na Amazon e fica a disposição de quem quer lê-lo prioritariamente em formato digital. O carro abre-alas prepara a vinda do livro em formato impresso, o que deverá ocorrer oportunamente.

Organizada por Saint-Clair Stockler e por mim, reunimos 12 autores que oferecem universos díspares e, ao mesmo tempo, convergentes. Dialogamos com o inusitado, o assustador, o cômico e o repulsivo. Burilamos nossos textos com cuidado cirúrgico; caprichamos na prosa para oferecer a vocês uma excelente literatura de entretenimento.

Ataíde Tartari , Braulio Tavares, Brontops Baruq, Carlos Orsi Martinho, João Marcelo Beraldo, Lucio Manfredi, Nelson de Oliveira, Pedro Vieira, Roberto de Sousa Causo, Saint-Clair Stockler, Sid Castro e Tibor Moricz.

Convidamos vocês a compartilhar essa fascinante e mortal experiência. Além do que, trata-se de uma boa seleção de contos por apenas $9,90 – baratinho, baratinho…

http://www.amazon.com/Brinquedos-Mortais-Portuguese-Edition-ebook/dp/B008CSFWMI/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1340194024&sr=8-1&keywords=brinquedos+mortais

Está esperando o quê? Corre, lá. Compre e depois nos diga o que achou. 🙂

Jebediah Crow, o Anjo do Senhor.

18/05/2012

Já faz algum tempo que eu não posto nada a respeito de meus próprios projetos. Não tenho andado parado, como podem até supor. Acho que venho sofrendo uma lenta e gradual mudança de conceitos. Começo a não acreditar em projetos previamente anunciados e divulgados nas redes sociais. Tenho a impressão de que essa divulgação acaba se transformando numa faca de dois gumes. De tanto o publico leitor potencial ouvir falar de um livro, dos seus protagonistas, do tema e do argumento, eles acabam meio que saturados e quando esse livro é finalmente lançado, têm a impressão de já o ter lido.

A novidade pode agregar interesse. Pode provocar a premência, a urgência. Pode fazer o leitor, surpreendido, se interessar pelo livro mais do que se interessaria se fosse bombardeado por ele durante meses ou anos anteriores.

Apesar disso, essa postagem é para falar de um romance fix-up que estou escrevendo no momento. Um projeto recente que está atropelando outros mais antigos (comigo é quase sempre assim).

Trata-se de Jebediah Crow, o Anjo do Senhor.

Ficção científica, fantasia, terror, suspense… uma mistura que vagueia por diversos subgêneros, mas mais especificamente no Steampunk. Jebediah Crow é um dos protagonistas, um enviado de Deus para levar Sua ira aos homens de boa vontade. Ele cruza o meio oeste americano nos anos de 1890 travando lutas contra demônios, vampiros, zumbis, contra monstros de todas as espécies. Deus sempre ao seu lado, sempre lhe fornecendo milagres.

Claro que Deus é um dos protagonistas, como não poderia deixar de ser.

Nas palavras de um dos leitores beta, “Deus é um aloprado, um lunático”. Um personagem grandioso que rompe com os próprios paradigmas.  Irascível, imprevisível, bipolar.

Seguem dois trechos:

Jebediah Crow, o Anjo do Senhor – História I

Bateram à porta. Encontraram uma menina com não mais que dezesseis anos, aguardando-os com paciência. Cabelos dourados e cacheados. Olhos azuis. Tez alva, sardas, nariz arrebitado. Vestido longo, branco como a sua alma pura. Deixaram-na entrar, convidaram-na a se sentar na cama. Acomodada, a menina pôs-se a chorar.

— Quem é você? — perguntou-lhe Ishmael, curioso.

— Madeleine. Minha irmã foi raptada pelos demônios. Vim implorar a ajuda de vocês.

— E porque choras? — retornou Ishmael, compadecido.

— Porque estou diante dos anjos do Senhor. Meu pai me enviou para lhes dar conforto e em busca de purificação. Imploro que não recusem a minha oferenda — disse-lhes a menina enquanto erguia a saia e lhes mostrava a brancura imaculada de suas coxas, o fulgor robusto de seu monte de Vênus e, entreabrindo as pernas, o vale onde repousa a alegria dos homens.

— Pobre garota — disse Jebediah se aproximando da coitada. Reconheceu-a como uma das que os receberam com o canto de louvor. Passou-lhe os dedos no rosto, sentindo-lhe a maciez da pele. Recolheu uma gota de lágrima e a levou aos lábios, sorvendo-a com deleite. — Que Deus a abençoe e que o cajado do Senhor a locuplete.

E o cajado do Senhor a locupletou pelo que restou da noite. Ishmael a tudo assistiu, contrito em oração. Quando lhe coube a vez, repetiu o sinal da cruz setenta mais sete vezes. Ao nascer do sol, a menina, repleta de bênçãos, purificada, feliz e esfuziante por ter servido à causa do Senhor, deixou-os a sós.

Jebediah Crow, o Anjo do Senhor – História II

O homem se aproximou de Jebediah Crow. Parecia um touro inquieto, remexia os pés chutando cavacos inexistentes. Seu olhar indicava um grau de irritação que ia um pouco além do considerado saudável para alguém que ousa enfrentar o negro num mau momento.
— E pode me dizer por que é que Deus não colocou um fim nisso, ainda? — perguntou o homem quase cuspindo as palavras.
Jebediah respirou fundo, comprimiu os lábios lambendo-os e esfregou os olhos, cansado.
— Porque Ele está com preguiça.
O homem diante de Jebediah estancou. Parou de se remexer. Seus olhos se arregalaram.
— Ele está o quê?
— Com preguiça — repetiu Jebediah sem muita paciência.
— Com o quê? — quase gritou o homem, indignado.
Um raio arrebentou o telhado do Saloon, estourou o piso de um quarto e caiu na cabeça do indigitado que desapareceu numa nuvem de fumaça.
— Com preguiça e sem pachorra nenhuma para questionamentos… — concluiu Jebediah pedindo ao barman mais uma dose de uísque.

***

Isso é tudo o que lerão a respeito de Jebediah Crow, o Anjo do Senhor, até que ele seja lançado. Apesar das minhas mudanças de conceito, acabei não resistindo em revelar o projeto e alguns dos seus trechos.

Uma recaída para a qual já estou tomando alguns comprimidos. Logo, passa.

Capa da coletânea Brinquedos Mortais revelada.

22/03/2012

Brinquedos Mortais nasceu a partir do conto de Saint-Clair Stockler que, mesmo curto, me causou impacto. Enxerguei na mesma hora a possibilidade de ampliar o universo que aquele conto apenas permitia entrever e idealizei essa coletânea. A Editora Draco abraçou a proposta e pusemos, então, mãos a obra. Poderíamos tê-la aberta inteira para submissões, mas nos preocupamos prioritariamente com a qualidade literária e, para evitar longas buscas e exaustivas análises, achamos por bem convidar seis integrantes, certos de que não nos decepcionariam (e, de fato, não nos decepcionaram).

São eles: Ataíde Tartari, Braulio Tavares, Carlos Orsi Martinho, Lúcio Manfredi, Luiz Bras e Roberto de Sousa Causo.

As outras quatro vagas nós as deixamos para a disputa de contendores hábeis. E que vencessem os melhores. Foram muitas as submissões e algumas delas tão boas que nos causaram verdadeira dor deixá-las de fora.

Os quatro selecionados foram:  Brontops Baruq, João Beraldo, Pedro Vieira e Sid castro. Com as narrativas dos organizadores, a coletânea perfaz ao todo doze contos.

Sinopse oficial:

Brinquedos mortais, uma coletânea organizada por Saint-Clair Stockler e Tibor Moricz, reúne 12 autores que apresentam universos díspares e, ao mesmo tempo, convergentes, dialogando com o inusitado, o assustador, o cômico e o repulsivo. Burilam seus textos com cuidado cirúrgico, capricham na prosa para oferecer aos leitores uma excelente literatura de entretenimento.

Bonecos cheios de más intenções, brinquedos ameaçadores, jogos estranhos e perigosos. Narrativas onde a morte é uma constante e onde a vida em todas as suas formas está sempre por um fio.

Ataíde Tartari , Braulio Tavares, Brontops Baruq, Carlos Orsi Martinho, João Marcelo Beraldo, Lucio Manfredi, Nelson de Oliveira, Pedro Vieira, Roberto de Sousa Causo, Saint-Clair Stockler, Sid Castro e Tibor Moricz convidam os leitores a penetrar em mundos ameaçadores e a compartilhar essa fascinante e mortal experiência.

Breve sinopse de cada conto:

• Um FDP blindado (Ataíde Tartari)

Numa releitura de Dorian Gray, o conto narra a cabulosa história de Dagá, um rapaz protegido de todas as terríveis consequências de seus atos por um incrível artefato Hi-Tech.

• HAXAN (Braulio Tavares):

Num futuro próximo, um grupo de garotos se diverte praticando pequenas transgressões, fugindo das milícias armadas, e usando aparelhos de realidade virtual com fins educativos para brincadeiras violentas.

• Astronauta (Brontops Baruq)

“As câmeras de observação de raios-x já foram objetos de uso puramente militar. Hoje qualquer camelô vende uma de brinquedo tão boa quanto as usadas pelo Exército. Com estes binóculos, é possível acompanhar a rotina e os rituais de um estranho casal, que mora no edifício em frente. Dentro de alguns minutos, será chamada a polícia. Não é maldade, é apenas outra brincadeira.”

• Grande Panteão (Carlos Orsi):

Deuses ou brinquedos? No grande panteão, sacerdotes de todas as crenças e divindades preparam seus encantos para o festival, mas nem tudo que parece mágica realmente é: engrenagens, carvão e vapor criam os milagres a que milhares de peregrinos esperam assistir.

• Brinquedo perfeito (João Beraldo)

Explorar o espaço pode ser mais fácil do que lidar com uma adolescente. É o que descobre Thiago, viajante espacial e pai solteiro. Tentando se aproximar da filha, compra em uma de suas viagens o presente perfeito.

• Hipocampo (Lúcio Manfredi)

Um game, um cavalo marinho, labirintos intermináveis e mundos paralelos. Cuidado com suas escolhas. Elas podem mudar drasticamente o mundo à sua volta.

• Daimons (Luiz Bras)

Daimons (antiga palavra grega que significa espíritos) é sobre um grupo de brinquedos inteligentes conspirando contra a hegemonia humana. Os brinquedos querem tomar o poder e pra isso precisam da ajuda das crianças, que eles tentam manipular a seu favor. Nesse conto, os brinquedos agem como consciências más, sussurrando ordens no ouvido das crianças, torturando as mais desobedientes.

• Austenolatria (Pedro Vieira)

Em Austenolatria, o estranho fetiche de um professor de literatura inglesa pelas heroínas da obra de Jane Austen deixa de ser inofensivo quando provoca ciúmes em Elizabeth Bennet e seu seleto círculo de amizades.

• Um herói para Afrodite (Roberto de Sousa Causo)

Tudo começa quando Leandro Vieira adquire, por uma pechincha, uma estatueta, estranhamente erótica, de uma mulher de beleza estonteante. Uma brincadeira revela que a deusa representada na estátua o quer como seu herói. O preço a pagar é, porém, muito alto.

• O homúnculo (Saint-Clair Stockler) 

A mais perfeita engenharia genética. Homúnculos para o deleite, para o prazer de adquirentes perturbados pela rotina. Uma brincadeira que deixa de ser divertida para começar a ser dolorosa.

• O segredo do McGuffin (Sid Castro)

Nos sombrios módulos da mais antiga Estação Espacial do Universo, na gigantesca Central da Galáxia, o detetive Sol Spada enfrenta a sedução de uma sereia laureana, a ameaça de gangsteres alienígenas e a desconfiança de um policial robô de dúbia honestidade, enquanto busca o McGuffin, um artefato dos Primordiais que pode conter… o Segredo do Universo!

• Boneca Dendem, feliz quem a tem (Tibor Moricz)

A ânsia de sentir o plástico e os circuitos internos de seus corpos substituídos por carne e sangue, move um a um os bonecos de uma cidade inteira numa viagem ao passado na busca incansável dessa realização.

***

Fiquem ligados que o lançamento é breve, muito breve… 🙂



Adorável noite de Adriano Siqueira – lido e comentado

19/09/2011

Adriano Siqueira em pessoa me presenteou com o seu livro, no dia do lançamento de Crônicas de Atlântida de Antonio Luiz M. C. Costa. Prometi-lhe que leria o livro e faria uma resenha no É só outro blogue o que acabou acontecendo só recentemente devido ao volume de leituras profissionais (mas não só) que tenho tido.

Bem, desde então venho me perguntando se devo fazer uma resenha honesta, ou não. Adriano Siqueira é um vampiro notório e, embora bonachão, tem dentes que impõe respeito.

Pensei: “Às favas os dias futuros. Vou dizer o que precisa ser dito, doa a quem doer”.

E foi assim. Peguei o livro numa noite de borrasca, ventos terríveis balançavam as cortinas, relâmpagos cortavam os céus. Abri a primeira página e, após um estrondo ensurdecedor, as luzes se apagaram. Liguei uma lâmpada de emergência, fechei as janelas com pressa e me encolhi num canto do quarto, olhos pregados nos pequenos e inúmeros contos que recheiam o livro.

Li tudo em poucas horas.

Trata-se de uma antologia que chama a atenção pela quantidade infindável de contos. Alguns bem curtos. Todos eles com a marca inconfundível de Adriano Siqueira. Existem vários que estão longe de ser bons, existem muitos que não são bons nem ruins e alguns que se destacam. Um deles publicarei ainda essa semana neste blog.

Apesar disso, gostei muito do livro. Há nele uma carga enorme de despretensão e é justamente essa a sua principal qualidade. Adriano Siqueira é uma figura carismática, amiga. Essas virtudes estão no livro. Ele transpôs para o papel muito do que ele é. E isso nos obriga a uma leitura descompromissada. Como leitor atento e desarmado, recomendo a sua leitura.

Se você conhece Adriano Siqueira, identificará de imediato uma extensão dele em Adorável noite. Se não o conhece, procure-o pelos becos. Tenho certeza de que vai gostar conhecê-lo. Saído de uma das obras de Stephenie Meyer, um dentuço que brilha, e não só durante o dia.

Se estiver interessado no livro, você encontra ele aqui.

A corrente – lido e comentado

01/07/2011

Logo quando o livro foi lançado me senti atraído por ele. A capa que é muito boa e a premissa me fisgaram imediatamente. Mesmo assim me demorei em comprar o livro, deixando para fazê-lo há poucas semanas.

A história fala sobre um espírito mau, um hacker malandro e uma corrente aparentemente inofensiva — embora ameaçadora — que acaba por provocar a morte de várias pessoas. Uma ideia bastante boa que transcorre em Vitória, no Espírito Santo. Impossível não se deixar levar pela expectativa que uma história dessas gera. São muitas as possibilidades em construir cenários assustadores.

Incomodou-me, porém, a quantidade exagerada de problemas no texto e falhas de revisão, que um copidesque realmente eficaz teria corrigido. A prosa frágil de Estevão Ribeiro também atrapalha, criando, muitas vezes, momentos confusos que exigem releitura de certos trechos para “se achar” dentro da trama.

O livro tem alguns bons momentos mas, em geral, não consegue provocar medo nem sustos. Além de algumas cenas inverossímeis, incomoda também a personalidade fraca do protagonista — Roberto — que passa boa parte do tempo fugindo, chorando, apavorado. A completa inação desse personagem, que passa parte da história sem ir em busca das respostas para o que acontece, enerva. Fiquei querendo que ele morresse logo.

Mas preciso admitir que existe algo de magnético em toda a história, já que me mantive preso na leitura por um dia todo, abandonando o livro apenas quando o conclui. As falhas serviram para me prender, assim como os acertos.

Uma pergunta: porque a palavra internet está em itálico no livro todo? Trata-se de palavra dicionarizada e incorporada ao nosso léxico.

Embora incomodado por vários problemas, a expectativa de cada morte e a forma terrível com que elas aconteciam (às vezes dramáticas em exagero) conseguiu agregar elementos aderentes à leitura. Essa cola distribuída ao longo da narrativa a mantém focada, aprisionando a atenção do leitor.

MEDIO

A Corrente 

Autor: Estevão Ribeiro
Gênero: Terror
Páginas: 183
Editora: Draco

Quem é Miguel Carqueija?

02/03/2011

 

Miguel Carqueija é o primeiro a esquerda, nessa foto de 2006 onde acontece uma reunião do CLFC. Nasceu e mora no Rio de Janeiro onde escreve "desde tempos imemoriais", mas participa do fandom desde 1983 - isto é, quase desde o seu início - e vem publicando desde então. Afora centenas de textos em fanzines, revistas, jornais e páginas virtuais, contabiliza 14 livros individuais, sendo 9 em papel, 1 em papel e com versão digital, e 4 "e-books". Desses 14, o livro virtual As portas do magma (scarium.com.br) é de coautoria com Jorge Luiz Calife. Menciona-se ainda A âncora dos Argonautas (1999), A Rainha Secreta (2001), A Esfinge Negra (2003), O fantasma do apito (2007, reeditado em 2010), Farei meu destino (versões em papel e virtual, 2008 -gizeditorial.com.br) e "Tempo das caçadoras" (2009). Também participou de mais de duas dezenas de antologias, umas amadoras, outras profissionais, destacando Poe 200 anos, organizada por Maurício Montenegro e Ademir Pascale e lançada em 2010, onde além de um dos contos também assina o prefácio. Seu conto O tesouro de Dona Mirtes foi filmado em 2004 e o curta resultante pode ser assistido pelo youtube (http://www.youtube.com/watch?v=CYn_11sQEQI).

É só outro blogue: Como você definiria as décadas de 1980 e 2010? Quais são as fundamentais e observáveis diferenças entre a FC praticada naquela época e a que é praticada hoje?

Miguel Carqueija: Naquele tempo os “gêneros interessantes” – basicamente, ficção científica, fantasia, terror e mistério não estavam tão unidos como hoje em dia, quando não separamos mais os que fazem isso ou aquilo, estamos todos no mesmo barco. Eu, particularmente, diversifiquei minhas experiências, passei a escrever terror, fanfics, cheguei à alta fantasia e tenho incursões no policial. Além disso, nos anos 80 ainda não existiam celular e internet, que influenciaram muito nos textos posteriores. Também nos baseávamos mais nos fanzines de papel e poucos de nós publicavam em livros, quando o faziam eram edições amadoras e/ou cooperativadas. Hoje em dia é mais fácil chegar ao livro, pelo menos às antologias, sem falar nos “e-books” – só eu já tenho quatro.

É só outro blogue: Você exibe, hoje, em parte de seus escritos, uma profunda crença religiosa. Seus personagens obedecem ao estereótipo maniqueísta onde bem e mal estão claramente definidos. Você não acha que, em tempos de ateísmo (e agnosticismo) cada vez mais abrangente entre os intelectuais, essa abordagem pode afastar leitores potenciais?

Miguel Carqueija: Em certas novelas principalmente as que lidam mais profundamente com a alma feminina (sou um especialista em heroínas) coloco religiosidade, e diferenciação clara entre o bem e o mal. Mas não vejo isso como maniqueísmo, pois procuro colocar vivacidade nos personagens e nas ações. E as atitudes dos bons são justificadas. Creio que estabelecer uma diferença clara entre o certo e o errado é o melhor caminho, muito melhor que o relativismo moral. Por outro lado, bilhões de pessoas no mundo são religiosas, embora em graus diferentes e também de maneiras diferentes; e existem autores ateus que, nos seus escritos, operam claro proselitismo das ideias ateístas. Ora, para mim a religião está mais forte do que nunca, especialmente a minha (católica) e sei que o materialismo jamais conseguirá prevalecer. Outros podem pensar de outra maneira, mas esta é uma aposta minha. Gostaria de lembrar que nessas historias também coloco muito humor entremeado, e trabalho com um estilo narrativo que Jorge Luiz Calife considerou “cinematográfico” no prefácio que escreveu para a novela A face oculta da Galáxia (“e-book” publicado em casadacultura.org, no “link” de ficção científica). É interessante observar que Calife é decididamente descrente, pelo menos deixa isso claro em Padrões de contato (não sei se é sua posição atual), mas não se incomodou com as referências à religião feitas na citada novela; ele enxergou outras coisas. Uma coisa que posso dizer é que me esforço para que os meus textos sejam interessantes do começo ao fim, evito as narrativas resumidas que tantos fazem, ou repletas de explicações cansativas, sou de opinião que uma história explica a si mesma pelo seu desenvolvimento. Assim, não me considero um “moralista chato”, mas não abro mão de considerar a literatura um veículo para ideias e mensagens. E não considero um bom caminho o brutalismo à Rubem Fonseca seguido por vários colegas do fandom; entretanto é um caminho que eles escolheram, e eu escolhi o meu, mais próximo p.ex. do João Batista Melo.

É só outro blogue: Dentre os escritores brasileiros de ficção de gênero (Fantasia, Terror, Ficção Científica, etc.), quais os que mais lhe chamam a atenção e por quê?

Miguel Carqueija: Gosto de alguns antigos como Thales Andrade, autor de O sono do monstro e A filha da floresta, e que acompanhou a minha infância, é um autor injustamente esquecido. E Malba Tahan, nosso grande fabulista, que até numa de suas histórias, A caixa do futuro, antecipou as cápsulas de mensagem para os pósteros, coisa que hoje já existe. São autores que podem ser lidos por todas as idades e que mantém uma inocência básica que vejo como muito importante, apesar de ser um valor esquecido. O João Batista Melo eu aprecio muito, como o nosso Bradbury. Um de seus contos mais aliciantes, onde o fantástico é sutilíssimo, é aquele em que um diretor de escola corrupto afasta uma professora antiga e querida pelos alunos para dar lugar a uma apaniguada jovem, e em consequência todos os alunos desaparecem, colocando-o em palpos de aranha. Também gosto dos trabalhos de Simone Saueressig e Roberto Causo, a primeira pela sua veia fabulística, o Causo pela correção de seu estilo e seu resgate dos temas do folclore indígena. E quero mencionar também duas autoras pouco comentadas, Regina Sylvia, cujo romance 9225 antecipou a internet numa distopia curiosíssima (é uma edição particular) e Elizabeth Maggio, cujo conto Aqui não há nuvens, saído na antologia As sete faces da ficção científica, é uma obra-prima.

É só outro blogue: O que o atrai a ponto de dedicar seus esforços em algumas histórias crossover baseadas em mangás? Não o incomoda que uns considerem esses trabalhos infantilóides?

Miguel carqueija: Com relação a isso, talvez você esteja se baseando no fato de que meus dois últimos livros publicados foram fanfics-crossovers: A cidade do terror, que saiu em contosgrotescos.com.br, e O fator caos, publicado no Portal Cranik, ambos em 2010. Mas veja bem, isto foi uma estratégia: surgindo oportunidade de lançar “e-books” dei preferência a essas novelas já antigas, pois a internet é o espaço mais adequado para as fanfics – tanto que existem milhões na rede, e cada dia aumenta o número.
Além do mais, minhas fanfics não são inspiradas só em mangás, já fiz com Batman, Chapolin, Tio Patinhas etc. Fanfics são homenagens dos fãs e representam um interessante exercício, pois o autor deve se esforçar em respeitar o caráter básico dos personagens utilizados. Monteiro Lobato, na série do  “Sítio do Pica-pau Amarelo” trabalhou muito com fanfics (Peter Pan, por exemplo), embora naquele tempo não se usasse esse termo.
Gosto de produzir fanfics. No campo dos mangás fiz várias de Sailor Moon e estou preparando uma do Cowboy Bebop. Mas, quero frisar bem este ponto, fanfics são apenas uma fração da minha obra, já que invisto em muitas modalidades. Já criei até um pirata para uma nova série. Escrevo terror, fantasia, mini-contos de vários tipos, policial, história alternativa, contos de ficção científica de fundo social e satírico. Quanto a serem tais histórias “infantiloides”, bem, eu sou assumidamente um escritor de ficção infanto-juvenil. Não me julgo infantiloide, pois tento caprichar nos diálogos, construção das cenas etc. e meu texto é econômico. Realmente, meus textos são amenos e nesse ponto contrastam bem com certa FC barra-pesada que se tornou moda em alguns autores, mas não tenho a mínima intenção de mudar. Acredito que não se pode abandonar de todo as histórias idealistas e que o público aprecia a exaltação de valores, senão séries como “Harry Potter” e “Guerra nas estrelas” não fariam tanto sucesso. Como autor, uma das minhas preocupações é constatar as impressões dos leitores. Tanto isso é verdade, que costumo remeter meus livros para possíveis resenhadores. Comentários que não se limitem a “gostei” ou “não gostei” são bem recebidos, mesmo que sejam desfavoráveis. Os leitores/críticos muitas vezes enxergam coisas que os próprios autores não percebem. E mesmo que você tenha sabido de críticas “ferozes” contra meus textos, também estou acostumado a receber elogios às vezes inesperados e até exagerados.
Agora, se você acha que escrever fanfics é um desperdício de talento, devo esclarecer que estou com vários livros que não são fanfics à espera de edição profissional em papel. Tenho um romance de ficção científica e policial, Neblina e a Ninja, que trata do problema da violência urbana (portanto, mais atual que nunca), prefaciado por Marcello Simão Branco. Estou com dois novos romances que representam experiências novas na minha obra: O estigma do feiticeiro negro (com prefácio de Cesar Silva), que é uma alta fantasia, e O despertar das bruxas, uma fantasia urbana contemporânea e acho que ambos poderão dar o que falar. Meu próximo livro, porém, que deverá sair em formato de bolso, será Os mistérios do Mundo Negro, uma mistura de terror e FC.

É só outro blogue: O mercado literário de gênero, hoje, vem passando por uma expansão editorial jamais vivenciada antes. Tratando-se você de um autor com currículo e história em nossa FC, o que justifica publicar Farei meu destino na Editora Giz, como edição de autor? Você chegou a procurar por editoras tradicionais?

Miguel Carqueija: Não acho tão fácil assim motivar as editoras profissionais, mas eu lhe digo que, depois de publicar Farei meu destino, muitas portas começaram a se abrir. Basta dizer que, desde então, publiquei três “e-books” individuais e participei de duas antologias virtuais; lancei mais um livro individual semi-profissional, Tempo das caçadoras; O fantasma do apito, de 2007, obteve segunda edição em 2010 (já houve quem o classificasse de “cult”): e participei de nada menos que sete antologias em papel profissionais. Na verdade, nunca publiquei tanto e em tantas edições profissionais. Por isso, creio que valeu a pena investir.

O livro negro dos vampiros. Lido e comentado.

26/07/2010

Há meses abordei um assunto que se revelou polêmico e é, até agora, uma das postagens mais acessadas do blogue. Falei sobre coletâneas que se esparramam, sendo amontoadas nos rodapés. Discuti os propósitos de suas organizações e os resultados advindos do esforço hercúleo de reunir em um só tomo dezenas de contos que se pretendem de boa qualidade.

Lembro que fui aplaudido e vaiado, ora por autores e leitores decepcionados com os resultados dessas coletâneas, ora por organizadores que vestiram a carapuça, demonstrando contrariedade com meus argumentos.

Recebi há poucos dias alguns livros para ler e comentar. Entre eles dois de publicação da Andross Editora. São eles: Anno Domini e O livro negro dos vampiros. Este último eu terminei de ler agorinha há pouco.

Salvo a bela capa, impossível acreditar que houve uma seleção realmente criteriosa, fundamentada na qualidade dos trabalhos recebidos, como defendido na apresentação da obra. São 53 trabalhos, os mais diversos. Tantos que me absterei de comentá-los um a um, tarefa que me absorveria demais.

Devo ressaltar que alguns contos conseguiram me fazer criar categorias novas de avaliação. Assim, criei o duplo Eca! e o triplo Eca!. O último concedido a apenas um conto, cujo autor merece meus sinceros e entusiásticos aplausos.

Também me decepcionou a revisão (fragilíssima) e a diagramação.

Vamos aos contos, autores e avaliações:

1-    Mais uma noite – Liz Marins –

2-    Reflexos de um vampiro sobre reflexos – Léo Vitor –

3-    Nem alfa, nem ômega – Gustavo Campello –

4-    Nina e Nicolau – André L. Pavesi –

5-    A investida do vampiro, em três atos – Renato Arfelli –

6-    Lextalions: O segredo de Caim – Marcelo Aceti –

7-    Um vampiro em minha vida – Tânia Rocha –

8-    Sacramento – O início – Marcos T. Nogueira –

9-    Segundas intenções – Silvio Alfredo de Oliveira Augusto –

10- Axius – Fábio Fabrício Fabretti –

11- Branco como a neve… – Vitória Hellsing –

12- Santa Rosa – Samuel DC –

13- Dark Road – W.P. Conspícuo –

14- A vítima perfeita – Marcio Renato Bordin –

15- Caça e Caçador – Tales de Azevedo –

16- Valores, desejos e Dry Martini – Ary P. Hahne –

17-  O melhor das safras – Vitor Alcântara –

18- A primeira noite – Rodolfo Mattos –

19- A vingança de Simon – Rafael Bernini –

20- Sombra sombria – Felipe F. Lopes –

21- Tempos modernos – Kathia Brienza –

22- Memória póstuma – Luciana Baccarin –

23- Encontro eterno – Rodrigo Bruno –

24- Amor no sangue – Maria do Carmo Fortuna –

25- A gênese do mal – Alexandre Copelli –

26- A última batida de meu coração – Ricardo Delfin –

27- O mistério dos papeis – Graziele Ruiz –

28- Garuda – Bruno Miguel Rosende –

29- Preto da noite, vermelho do sangue – Guilherme Sandi –

30- Ato profano – Lady Wilmot –

31- Resguardos noturnos – Renato Zapata Kannebley –

32- O resgate – Mariam Santiago –

33- Santo Sepulcro – Denise M. Guimarães –

34- Somos vivas, enfim – Emilia Ract –

35- O último quadro – Alex Sens Fuziy –

36- Olhar desluzido – Luciana Fátima da Silva –

37- O vampiro da consolação – Lizi Tequila –

38-  Você tem fé? – Juliana Ribeiro Cintra da Cruz –

39-  Maldição – André Caniato –

40- Destino – Vampy Lu –

41- Escolhas – M.J. Borghi –

42- Fome – Cesar de Lima –

43- Quase Jolie – Eunice Bemfica –

44-  A caçada – Helena Gomes –

45-  Zapping – Brontops –

46- O último manuscrito – Ed Wanger –

47- El mosquito – Denize Müller –

48-  Passione Nocturnale – Dimítry Uziel –

49- Charlote e o espelho – Ebbios Traumer –

50- Maternidade – Claudio Brites –

51- Vitela – Tiago Araújo –

52- No dobrar da hora morta – Kizzi Ysatis –

53- Um conto de vampiro – Octavio Cariello –

Já é difícil conseguir manter uma média de qualidade considerada boa numa coletânea com uma dúzia de trabalhos reunidos. Que dirá numa com 53?

Por outro lado, a quantidade de contos ruins e muito ruins é grande demais para aceitar que houve preocupação mínima com boa qualidade. Com as avaliações dadas, a coletânea O livro negro dos vampiros recebe um como avaliação final.

Mais um bom argumento contra as coletâneas caça-níqueis. E lamento pelos autores que, sem nenhuma condição de publicar, foram aceitos nesse livro. Bom para o ego, mal para a imagem. Que burilem melhor seus futuros trabalhos e não pensem em publicar antes de terem a mais absoluta certeza de que tenham atingido um nível aceitável de qualidade.

Livros recebidos para leitura e comentários.

19/07/2010

Um querido e talentoso autor, a quem muito admiro, deixou-me, pessoalmente, essas preciosidades para leitura. Dois livros da Terracota e dois da Andross. Não vou negar que sempre tive vontade de ler os livros da Andross, as famosas coletâneas caça-níqueis, mas nunca tive coragem de investir um centavo que fosse na empreitada. Recebê-los, agora, foi, para mim, um grande prazer e a realização de um desejo.

Realizar desejos nem sempre é bom (cuidado com o que desejas, podes acabar conseguindo). Espero que eu não me arrependa.

Aguardem para breve meus comentários.

De Bar em Bar entrevista: André Vianco

18/03/2010

Aridez.

Era um lugar longe de tudo e perto de nada.  Caminhei pelo deserto um par de horas, xingando o maldito relógio por mais essa discrepância. Embora não tivesse planejado antecipadamente o local da entrevista – aprendera, afinal, que não adiantava –, esperava, ao menos, que ela ocorresse nalgum lugar público, perto da civilização. Bastavam-me os sustos sofridos na última entrevista.

Vi ao longe uma construção que ia lentamente assomando. Uma placa de néon, grande e envelhecida, ainda apagada àquela hora, indicava, para quem soubesse ler, o nome Tiny Tits. Achei o nome estranho e logo ponderei que estava diante de um inferninho. Que outro lugar exibiria tão impudentemente um nome como esse?

Arrastei os pés pela terra batida e poeirenta. Vi carros e motos estacionados diante do Tiny. Aproximei-me, ansioso por uma cerveja ou qualquer coisa refrescante. Identifiquei uma porção de Harley Davidsons, alguns furgões, dois Volkswagens e um Chevrolet Cabriolet em espantoso bom estado de conservação.

Subi as escadas que levavam ao alpendre. À minha frente uma porta balcão com duas folhas, grande o suficiente para a entrada de um mamute. Ninguém tomando conta dela. Empurrei-a e ela abriu com suavidade. Deixei-a se fechar às minhas costas e aguardei alguns segundos até que meus olhos se acostumassem com a obscuridade. Logo identifiquei algumas dezenas de mesas, um palco à frente, um bar lateral, garçonetes e muita gente reunida, grupos de amigos e casais, sentados, bebendo e jogando conversa fora.

Me senti aliviado. Antes de me acomodar procurei pelo Vianco, mas não o encontrei. Uma garçonete se aproximou rebolando os quadris e lhe pedi uma cerveja, gelada de preferência. Ela se afastou levando meu olhar grudado na sua bunda.

Embora estivesse um calor causticante no exterior, lá dentro estava bastante fresco. E tinha fumaça de cigarro. E risadas e gritos divertidos de pessoas bêbadas. E garçonetes bastante sensuais vestindo roupas exíguas .

A cerveja chegou ao mesmo tempo em que vi a porta de entrada se abrir e o Vianco aparecer, recortado pela luz externa, como um vulto ensombrado, vestindo uma capa negra, longa, quase a lhe cobrir os pés. Olhou para dentro depois que a porta se fechou, lentamente se acostumando a pouca claridade e logo me identificou. Caminhou até mim e se sentou pesadamente.

— Chegou agora ou estava caminhando a esmo faz tempo? – perguntei, lembrando-me ainda do episódio anterior.

— Cheguei agorinha mesmo. Apareci lá fora. Que loucura! Uma entrevista aqui seria o último lugar em que iria pensar.

— Eu idem. Já nem penso mais onde vou entrevistar alguém. Deixo a cargo do meu assistente quântico. Só acrescento as informações necessárias. Bebe?

Não esperei pela resposta. Acenei para a garçonete e fiz-lhe sinal para trazer mais uma cerveja. Vianco agradeceu, esfregou as mãos uma na outra, afastou a capa de lado e se ajeitou melhor na cadeira.

— Aposto que daqui a pouco aparece uma mulher sensualíssima dançando naquele palco. Isso aqui é realidade alterada, mas nada que interfira na nossa realidade efetiva, né?

— Como assim?

— Quero dizer, se a gente se machuca aqui, o machucado não se transfere para a realidade… hmmm… Real… A que a gente vive mesmo… Transfere?

— Pergunte ao último entrevistado – respondi com um sorriso.

Senti uma ponta de preocupação no semblante do Vianco. Ele franziu o cenho, pegou meu copo de cerveja e bebeu um bom gole, limpando depois a boca com as costas da mão.

— É que… Bem, esse lugar me deixa preocupado. Se for uma brincadeira, tudo bem. Se for tipo realidade virtual, a gente conectado lá e vivendo uma fantasia aqui… Bacana. Mas se… Bem… Se for minimamente perigoso…

— Quando te convidei, disse que era perigoso, não disse?

— É, mas achei que era força de expressão. Bolas. É só uma entrevista, não é?

— E o que poderia te preocupar tanto num inferninho de nome Tiny Tits?

Tiny Tits? Que Tiny Tits?

— O nome da baiúca. Dessa pocilga.

— É Titty Twister. É o que li lá fora. Titty Twister e não Tiny Tits.

— Seja o que for. Que diferença faz?

Vianco ficou olhando para mim. No olhar uma espécie de perplexidade.

— Não sabe mesmo que lugar é esse, né?

— E deveria?

— Já ouviu falar de Quentin Tarantino?

— Não estamos aqui para falar de cinema. Antes de publicar seu primeiro romance, tinha em mente construir um “império” vampírico?

A garçonete chegou com a cerveja dele. Ele serviu-se, deu um gole suave, bochechou a cerveja na boca e engoliu com um estalido de língua. Olhou para mim e depois para todo o bar, circundando todo o ambiente com cuidado e atenção. Meneou a cabeça.

— Não mesmo. Eu queria escrever, contar minhas histórias e publicar. Escrevi o primeiro livro, de contos, aos 15 anos e não tinha nada de vampiro, mas o fantástico já estava lá.  Fui então até uma editora na Rua Itapeva, eu morava na Bela Vista naquela época, e recebi um orçamento inalcançável para um pivete metido a escritor. O que eu sempre tive foi uma fascinação pelo sombrio e os vampiros dividiam espaço igual entre as criaturas desse panteão assombrado.

Bebeu mais um gole da cerveja, esse mais generoso.

— Depois de escrever O senhor da chuva, pauleira levada por anjos e demônios, botei na cabeça que queria trabalhar um livro com vampiros, mas que teria que ser diferente do que fazia sucesso aqui na época, que era Anne Rice. Daí que em meados de 99 imaginei a história dos vampiros portugueses do Rio D´Ouro e ela se desdobrou em continuações que arrebanharam uma legião de fãs. Das centenas de milhares de livros vendidos, acho que os de vampiros representam mais de 70% desse número.

Um quarteto de cordas começou a dedilhar instrumentos ao lado do palco. Vianco franziu o cenho de novo, pigarreou e olhou para mim, visivelmente preocupado.

— Não sabe mesmo o que é o Titty Twister?

— Segundo você, o nome desse bar. Mas eu li claramente Tiny Tits. Li, sim.

— Quantas perguntas são?

— Mais três.

— Manda bala. Vamos correr com isso.

— Entre elogios e críticas, como você encara o seu trabalho?

— Cara, tenho um orgulho danado dos meus livrinhos. Os elogios estimulam, são bem-vindos, as críticas, quando fazem sentido,  escuto, mas não perco muito tempo nem com um nem com outro. Me preocupo mesmo é em contar histórias e mais histórias e estou sendo muito bem sucedido nisso. Sempre quis contar aventuras que agarrassem os leitores pela orelha, fisgando pelo improvável, pelo mistério. Estou evoluindo como escritor, a cada livro a gente aprende, muda um pouco, experimenta outro tanto.

Os Mariachis intensificaram os acordes e um mestre de cerimônias subiu ao palco para anunciar a nova atração. Vianco se calou por alguns instantes enquanto as cortinas iam sendo abertas. Atraente era o mínimo a dizer. Gostosa era o justo. Biquine exíguo e uma capa vermelha. Morena. Passos lúbricos, labaredas explodindo de piras. Um píton se enrodilhando em seu pescoço. A plateia ficou calada, atenta, hipnotizada pela performance que ia se iniciando.

— A música é After Dark… e… ela é Salma… – começou Vianco.

— Hayek – Terminei, engolindo em seco.

— Então, sabe onde estamos? – perguntou Vianco num fio de voz.

— Mas eu li Tiny Tits

— Vamos embora – o tom era urgente.

— Não dá. Antes da entrevista acabada, não dá.

— Hoje são doze livros publicados – continuou Vianco, tentando acelerar, mas engasgando e pigarreando –, tenho mais dois escritos e pelo menos mais um chegará às livrarias ainda esse ano. Outra coisa muito positiva é ver que meus livros ajudaram a sinalizar para muitas editoras que terror e fantasia brasileira vendem bem, sim.

Parou mais uma vez. A dançarina avançava sobre uma mesa, com um grupo de pessoas sentadas à sua volta. Iniciava uma dança ritmada e luxuriante. Tentava cativar um freguês.

— Tarantino! – exclamou Vianco, se erguendo de um salto.

— Quem? – perguntei atarantado, erguendo-me também.

— Naquela mesa… Cara! Incrível! Cara!

— A entrevista, Vianco – apelei, voltando a me sentar.

— Muitas daquelas que nem liam os originais de brasileiros se aventurando em fantasia e terror para adultos, passaram a dar uma olhadela ao menos. Não tenho como não ter orgulho disso – ele completou, sentando-se, agitado.

— Entre os autores nacionais “especializados” na literatura de vampiros, quais os que você mais admira e lê?

— São eles… Cara, estamos no filme.

— Já reparei. E pelo que me consta, logo coisas estranhas começam a acontecer.

— Pois é. Incrível, né?

— Tenho outro adjetivo para isso.

— Eu gosto muito do texto do Kizzy e da Giulia Moon, “O diário da sibila rubra” é uma coisa primorosa, o Kizzy tem um domínio muito maduro da poética, tem um lirismo real, trabalhado, que não fica piegas e a história é, ainda por cima, boa.

Alguém gritou que o jantar estava servido. Cadeiras foram arrastadas, gritos histéricos. Alguns gorgolejos. Mesas viraram. Começava o caos e a transformação da bela em fera. Satánico Pandemonium. Estávamos na extremidade do salão, bastante próximos da entrada. Mas ela estava orlada por dois fortes minotauros dentuços. Guardavam-na para garantir que de lá ninguém escaparia. Um tiro, dois tiros, três tiros. Miolos voaram. Um dente com pelo menos oito centímetros caiu próximo do meu pé.

Ainda estávamos sentados. Em choque.

Só nos erguemos quando um corpo sem cabeça caiu sobre nossa mesa, derramando a cerveja. O corpo ainda se mexia, em espasmos. Arrastamos-nos pelo chão. O Vianco tropeçando no longo casaco que o atrapalhava.

— Já a Giulia fez um trabalho muito criativo no Kaori, seu livro mais recente. Vale muito a pena ler esses dois – completou enquanto nos espremíamos num canto do salão, sem mais para onde ir.

— Stephenie Meyer trouxe mais visibilidade para você, como trouxe para os demais, ou você já está consolidado no mercado?

Vianco ia responder, mas alguém ou alguma coisa caiu diante de nós, em pé, num baque surdo. Olhamos para cima e vimos um sorriso. Cheio de dentes. Olhos esbugalhados, mãos em garras poderosas, orelhas pontudas. Ia nos agarrar, mas parou de chofre. Olhou pro Vianco e recuou um passo, assustado.

— Vianco – disse numa voz cavernosa.

— Apesar de ter uma base de leitores consolidada, a dona Stephenie e seu vampiro emo trouxeram um bocado de visibilidade, sim – Vianco ignorava a atitude inusitada do vampiro à nossa frente – E foi muito bom. Os livros com tema de vampiros venderam muito mais no ano passado. Notei que com o boom promovido pela série Crepúsculo houve aumento do volume de leitores mais jovens, e mais meninas entrando em contato por e-mail, twitter essas coisas – completou.

O vampirão deblaterava dentro do salão, agitando os braços. A luta se encerrou. Todos olharam para nosso lado. Levantamos-nos. Eu, confuso. O Vianco sorrindo. Demorou alguns segundos para me dar conta de que tínhamos sido os responsáveis pelo fim do combate. Humanos abaixaram ainda receosos as armas que portavam. Os vampiros vinham se aproximando, devagar, olhando com certa fascinação para o Vianco.

Ao fundo ouvimos um cara reclamar.

— Ah, não! Esses vampiros bem filhos da puta merecem morrer. Que merda!

Ameacei apertar o botão, mas o Vianco me impediu.

— Se liga, agora que vou começar a dar autógrafos? Aproveite. Não é todo dia que a gente toma um drinque no inferno – sorriu mais ainda, com caninos salientes, olhos rutilantes, um instante antes de saltar sobre o meu pescoço.

Mas apertei o botão uma fração de segundo antes disso.

Ponderei demoradamente se devia ou não publicar essa entrevista. Mas acabei chegando à conclusão de que revelar que o Vianco é um vampiro só vai ajudar a alavancar ainda mais as vendas dele. De qualquer forma, se o encontrarem por aí, mantenham os pescoços distantes. Relógio quântico com botão salvador só eu tenho, e mais ninguém.