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Capa da coletânea Brinquedos Mortais revelada.

22/03/2012

Brinquedos Mortais nasceu a partir do conto de Saint-Clair Stockler que, mesmo curto, me causou impacto. Enxerguei na mesma hora a possibilidade de ampliar o universo que aquele conto apenas permitia entrever e idealizei essa coletânea. A Editora Draco abraçou a proposta e pusemos, então, mãos a obra. Poderíamos tê-la aberta inteira para submissões, mas nos preocupamos prioritariamente com a qualidade literária e, para evitar longas buscas e exaustivas análises, achamos por bem convidar seis integrantes, certos de que não nos decepcionariam (e, de fato, não nos decepcionaram).

São eles: Ataíde Tartari, Braulio Tavares, Carlos Orsi Martinho, Lúcio Manfredi, Luiz Bras e Roberto de Sousa Causo.

As outras quatro vagas nós as deixamos para a disputa de contendores hábeis. E que vencessem os melhores. Foram muitas as submissões e algumas delas tão boas que nos causaram verdadeira dor deixá-las de fora.

Os quatro selecionados foram:  Brontops Baruq, João Beraldo, Pedro Vieira e Sid castro. Com as narrativas dos organizadores, a coletânea perfaz ao todo doze contos.

Sinopse oficial:

Brinquedos mortais, uma coletânea organizada por Saint-Clair Stockler e Tibor Moricz, reúne 12 autores que apresentam universos díspares e, ao mesmo tempo, convergentes, dialogando com o inusitado, o assustador, o cômico e o repulsivo. Burilam seus textos com cuidado cirúrgico, capricham na prosa para oferecer aos leitores uma excelente literatura de entretenimento.

Bonecos cheios de más intenções, brinquedos ameaçadores, jogos estranhos e perigosos. Narrativas onde a morte é uma constante e onde a vida em todas as suas formas está sempre por um fio.

Ataíde Tartari , Braulio Tavares, Brontops Baruq, Carlos Orsi Martinho, João Marcelo Beraldo, Lucio Manfredi, Nelson de Oliveira, Pedro Vieira, Roberto de Sousa Causo, Saint-Clair Stockler, Sid Castro e Tibor Moricz convidam os leitores a penetrar em mundos ameaçadores e a compartilhar essa fascinante e mortal experiência.

Breve sinopse de cada conto:

• Um FDP blindado (Ataíde Tartari)

Numa releitura de Dorian Gray, o conto narra a cabulosa história de Dagá, um rapaz protegido de todas as terríveis consequências de seus atos por um incrível artefato Hi-Tech.

• HAXAN (Braulio Tavares):

Num futuro próximo, um grupo de garotos se diverte praticando pequenas transgressões, fugindo das milícias armadas, e usando aparelhos de realidade virtual com fins educativos para brincadeiras violentas.

• Astronauta (Brontops Baruq)

“As câmeras de observação de raios-x já foram objetos de uso puramente militar. Hoje qualquer camelô vende uma de brinquedo tão boa quanto as usadas pelo Exército. Com estes binóculos, é possível acompanhar a rotina e os rituais de um estranho casal, que mora no edifício em frente. Dentro de alguns minutos, será chamada a polícia. Não é maldade, é apenas outra brincadeira.”

• Grande Panteão (Carlos Orsi):

Deuses ou brinquedos? No grande panteão, sacerdotes de todas as crenças e divindades preparam seus encantos para o festival, mas nem tudo que parece mágica realmente é: engrenagens, carvão e vapor criam os milagres a que milhares de peregrinos esperam assistir.

• Brinquedo perfeito (João Beraldo)

Explorar o espaço pode ser mais fácil do que lidar com uma adolescente. É o que descobre Thiago, viajante espacial e pai solteiro. Tentando se aproximar da filha, compra em uma de suas viagens o presente perfeito.

• Hipocampo (Lúcio Manfredi)

Um game, um cavalo marinho, labirintos intermináveis e mundos paralelos. Cuidado com suas escolhas. Elas podem mudar drasticamente o mundo à sua volta.

• Daimons (Luiz Bras)

Daimons (antiga palavra grega que significa espíritos) é sobre um grupo de brinquedos inteligentes conspirando contra a hegemonia humana. Os brinquedos querem tomar o poder e pra isso precisam da ajuda das crianças, que eles tentam manipular a seu favor. Nesse conto, os brinquedos agem como consciências más, sussurrando ordens no ouvido das crianças, torturando as mais desobedientes.

• Austenolatria (Pedro Vieira)

Em Austenolatria, o estranho fetiche de um professor de literatura inglesa pelas heroínas da obra de Jane Austen deixa de ser inofensivo quando provoca ciúmes em Elizabeth Bennet e seu seleto círculo de amizades.

• Um herói para Afrodite (Roberto de Sousa Causo)

Tudo começa quando Leandro Vieira adquire, por uma pechincha, uma estatueta, estranhamente erótica, de uma mulher de beleza estonteante. Uma brincadeira revela que a deusa representada na estátua o quer como seu herói. O preço a pagar é, porém, muito alto.

• O homúnculo (Saint-Clair Stockler) 

A mais perfeita engenharia genética. Homúnculos para o deleite, para o prazer de adquirentes perturbados pela rotina. Uma brincadeira que deixa de ser divertida para começar a ser dolorosa.

• O segredo do McGuffin (Sid Castro)

Nos sombrios módulos da mais antiga Estação Espacial do Universo, na gigantesca Central da Galáxia, o detetive Sol Spada enfrenta a sedução de uma sereia laureana, a ameaça de gangsteres alienígenas e a desconfiança de um policial robô de dúbia honestidade, enquanto busca o McGuffin, um artefato dos Primordiais que pode conter… o Segredo do Universo!

• Boneca Dendem, feliz quem a tem (Tibor Moricz)

A ânsia de sentir o plástico e os circuitos internos de seus corpos substituídos por carne e sangue, move um a um os bonecos de uma cidade inteira numa viagem ao passado na busca incansável dessa realização.

***

Fiquem ligados que o lançamento é breve, muito breve… 🙂



Dieselpunk anuncia autores escolhidos.

04/05/2011

Foram lançadas, este ano, duas coletâneas que encarei com elevada seriedade e julguei importantes demais para ficar fora delas. Claro que sempre soube que as minhas chances ombreavam as mesmas de dezenas de outros candidatos e na escolha dos melhores eu poderia ser recusado.

Tratam-se das coletâneas Queer (Tarja editorial – organização de Cristina Lasaitis e Rober Pinheiro) e Dieselpunk (Editora Draco – organização de Gerson Lodi-Ribeiro).

A noveleta para a Dieselpunk ficou pronta primeiro (+ ou – duas semanas para escrevê-la), mesmo porque essa coletânea foi anunciada bem antes (já no último Fantasticon, extraoficialmente). Mas, por outro lado, o conto para a Queer foi o que menos me tomou tempo. Escrevi-o em meras duas horas, embora dar o primeiro passo tenha levado algumas semanas.

Ambos os trabalhos tem para mim uma grande importância porque dei a eles o que tinha de melhor. Tanto um quanto o outro passou pela leitura atenta de alguns leitores beta e ambos foram bastante elogiados. Enviei-os na certeza de estar concorrendo a uma vaga com boas chances de obtê-la.

Bem, fui recusado na Queer e isso me deixou chateado, como, claro, não poderia deixar de ser. Qualquer escritor com o mínimo de miolos na cabeça fica chateado quando é recusado para um projeto. Desejo à essa coletânea todo o sucesso do mundo e que seja precursora de outras tão inovadoras quanto ela.

Mas, por outro lado, fui aprovado para a Dieselpunk. E estou radiante com isso já que reputo a Gerson Lodi-Ribeiro umas das mais importantes cadeiras dentro da literatura de gênero nacional e ter um trabalho aprovado por ele significa muito para mim (significa muito para QUALQUER um).

Com bastante orgulho, dividirei espaço com:

– Antonio Luiz Costa – Ao perdedor, as baratas

– Cirilo Lemos – Auto do extermínio

– Sidemar castro – Cobra de fogo

– Octavio Aragão – O dia em que Virgulino cortou o rabo da cobra sem fim com o chuço excomungado

– Carlos Orsi Martinho – A fúria do escorpião azul

– Tibor Moricz – Grande G

– Hugo Vera – Impávido colosso

– Gerson Lodi-Ribeiro – País da aviação

– Jorge Candeias – Só a morte te resgata 

Com lançamento já programado para acontecer no próximo Fantasticon, antecipo-me bastante atarefado nessa data. Autógrafos para a Dieselpunk, autógrafos para O Peregrino. Para um autor não há nada melhor do que isso, ou há?

Parabéns à Editora Draco, parabéns ao organizador e parabéns a todos os escolhidos que figurarão nessa importante coletânea.

E as boas resenhas não param!

29/04/2011

Meu romance O Peregrino tem recebido avaliações muito boas dos leitores brasileiros. O bastante para me fazer acreditar que acertei a mão ao escrevê-lo. Foram, afinal, cerca de seis meses de trabalho, numa imersão total, que inclui desde os primeiros esboços do livro com o acompanhamento dos leitores beta até o período de finalização onde todos os apontamentos foram observados e corrigidos.

Alguns capítulos desapareceram inteiros, dando lugar a outros ou simplesmente jogados fora. Mexi e remexi muitas vezes e ainda fiz passar por mais duas leituras beta depois das duas primeiras e das correções necessárias que essas leituras apontaram.

Ou seja, O Peregrino deu bastante trabalho mas foi altamente recompensador. Além das resenhas positivas feitas por Cesar Silva, Daniel Borba e Álvaro Domingos, soma-se a elas, agora, a resenha feita por Larry Nolen, editor e crítico Norte-Americano.

Ele destaca, principalmente, a qualidade da minha prosa, comparando-a, em alguns aspectos, com a de Cormac McCarthy, coisa que obviamente me deixou bastante satisfeito.

Você pode lê-la no original, aqui. Ou pode ler o texto colado abaixo, em bom português:

OfBlog – Tibor Moricz, O Peregrino (The Pilgrim)

Uma escuridão imensa.  Silêncio.  Um nada absoluto.  Foi assim por um tempo desconhecido.  Até que se iniciou um rumorejar.  Como água correndo pelo leito de um rio.  De começo uma correnteza leve.  Depois uma enxurrada que sai arrastando tudo o que encontra pelo caminho.  Estava mergulhado nela, sendo arrastado.  Ora submergindo, indo até as profundezas mais densas, ora explodindo na superficie, procurando por ar.  A água corria por leitos impenetráveis.  Embora estivesse sendo conduzido violentamente para algum lugar, era-lhe impossível determinar o seu destino.  Era-lhe impossível determinar qualquer coisa, porquanto a escuridão ainda imperasse. (p. 9)

A passagem de abertura do romance do escritor brasileiro Tibor Moricz, O Peregrino: Em Busca das Crianças Perdidas (2011) chama a atenção pela rigidez. Ao longo do primeiro terço desse romance curto (196 páginas), a narrativa de Moricz está repleta de frases curtas e afiadas que ilustram a dureza da terra pela qual perambula o peregrino do título. Esta terra é uma visão do Velho Oeste americano no século 19, através dos olhos de um estrangeiro. A leitura foi interessante pelo tanto de estranheza que causou em alguns momentos.

A história que Moricz escreveu sobre o peregrino (seu nome, embora revelado na narrativa, vai permanecer em segredo para os poucos que desejem ler o livro em português) captura essa sensação de brutalidade e estranheza no mundo que tantas vezes inspira outros a vaguearem em direção a seu abraço implacável. Não é uma história simples; há alguns apartes e passos em falso que encontrei enquanto lia. Mas foi uma história que prendeu minha atenção ao longo da narrativa.

O que mais gostei em O Peregrino foi a prosa de Moricz. Ele usa passagens curtas e descritivas para expor a sua versão do oeste americano de uma maneira que, às vezes, me fez lembrar de Cormac McCarthy. Isso não quer dizer que suas histórias sejam parecidas, mas sim que suas narrativas compartilham uma brutalidade que chega a ser semelhante. A escuridão está presente o tempo todo neste romance, desde as primeiras linhas até o final. Em alguns pontos, há um pouco de luz, mas são momentos que servem apenas para enfatizar a desolação que encontrei em várias cenas.

Um problema que tive foi com os nomes. Talvez devido a ser um escritor estrangeiro (ao menos para mim), os nomes utilizados por Moricz para várias pessoas soaram um pouco fora — às vezes inadequados — de lugar. Mas, novamente, essa sensação de “fora de lugar” não prejudicou a narrativa, mas deu-lhe uma espécie de sensação estranha ou transposta, como se o Oeste americano não fosse aquele lugar onde mitos são criados, com o qual já estou acostumado, mas tivesse sido transformado em algo menos familiar e ligeiramente mais ameaçador. Esta qualidade fez de O Peregrino um trabalho imaginativo agradável, apesar de pequenas falhas, que chamará a atenção de quem quiser ler uma história ambientada no Oeste americano, com alguns elementos de steampunk acrescentados em boa dose.
Larry Nolen

Já saíram as primeiras provas de O Peregrino.

04/03/2011

Saíram ontem a noite as primeiras imagens das provas de O Peregrino. Fico muito satisfeito em ver o meu bebê prestes a vir ao mundo. É uma emoção sempre intensa, mesmo quando já publicamos outros livros.

O Peregrino é, com certeza, o livro mais bem trabalhado até agora, sem os problemas de revisão do primeiro (Síndrome de Cérbero – 2007), sem os problemas (depois corrigidos, mas aí a imagem já tinha ido pro beleléu) de desmantelamento (sou conhecido como o autor de Fome, o livro que veio em fascículos) do segundo (Fome – 2008).

Trata-se de uma obra feita com capricho nos mínimos detalhes, da trama ao acabamento e editoração.

Já se encontra em pré-venda e pode ser encomendado nas livrarias virtuais. E logo, poderá ser encontrado numa livraria perto da sua casa.

Visitem o link abaixo e vejam outras imagens de O Peregrino além de provas e impressões de outros livros da Editora Draco, como O Baronato de Shoah de José Roberto Vieira, O castelo das águias de Ana Lúcia Merege e Crônicas de Atlântida, o tabuleiro dos deuses de Antonio Luiz M. C. Costa.

https://picasaweb.google.com/ericksama/MesaDoEditor03032911#

Contos imediatos – sorteio

28/07/2010

Seguindo a política de realizar sorteios eventuais, coloco agora dois exemplares de Contos Imediatos, livro organizado por Roberto de Sousa Causo e publicado pela Terracota Editora, na pauta. Concorrerão aqueles que (repito sempre isso) deixarem comentário com email válido. A tecnologia de sorteio já é conhecida por todos (e quem não conhece, pergunte ao vizinho). Vale dizer que tem conto meu nesse livro. Se isso é garantia de qualidade? De jeito nenhum. Mas quem tem ânsias de criticar algo que eu tenha escrito, aí está uma boa oportunidade… rs.

São esses os autores presentes na obra: André Carneiro, Ataíde Tartari, Ademir Pascale, Chico Pascoal, João Batista Melo, Jorge Luiz Calife, Luiz Bras, Miguel Carqueija, Mustafá Ali Kanso, Sidemar V. de Castro, Tatiana Alves e eu.

Os ganhadores anteriores poderão participar, sem problemas.

Gostaria de desejar boa sorte para todos, mas só dois vão ganhar. Então, boa sorte a dois de vocês!

Licença poética para pecar.

03/11/2009

Montagem livros1

“… entrei no quarto com o coração desvairado e vi a menina adormecida, nua e desamparada na enorme cama de aluguel, tal e como a sua mãe a havia parido. Jazia meio de lado, de cara para a porta, iluminada pelo lustre com uma luz intensa que não perdoava detalhe algum. Sentei-me para contemplá-la à beira da cama com um feitiço dos cinco sentidos. Era morena e morna. Tinha sido submetida a um regime de higiene e embelezamento que não descuidou nem os pelos incipientes de seu púbis.”

Memória de minhas putas tristes – Gabriel Garcia Marques

“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.

Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.”

Lolita – Vladimir Nabokov

“Agachei-me diante dela e voltei a tocá-la. Ela não esboçou nenhuma reação. Corri meus dedos pelas suas ancas estreitas. Acariciei suas coxas magras. Tateei suas costas que exibiam as costelas de maneira impudente.

Eu a queria. E naquele momento.

Arranquei os trapos que a cobriam. Ela recuou o que pôde, espremendo-se contra a parede. Dois pequenos montículos se sobressaíam onde um dia ela (se continuasse viva) teria peitos. A vulva mostrava pequenos e sedosos pelinhos que iam cobrindo a região. Agarrei-a pelas pernas e a arrastei para o meio do esconderijo, sobre folhas de papelão. Virei-a para ver suas nádegas. Brancas e exíguas. Espalmei-as. Apertei-as. Bati nelas. Avermelharam até parecer fogo.”

Fome – Tibor Moricz

Radicais afirmam: Crime. Pedofilia. Desvio. Insanidade. Desregramento. Doença.

Liberais contrapõem: Lirismo. Poesia. Paixão. Enlevo. Ficção.

E a ficção vence, sempre vence. Porque ela nunca estará agrilhoada nos convencionalismos sociais. Ela se expande para além da limitação imposta pelo medo.

No Imaginário, o que é real se transforma em mito. Num faz de conta inofensivo. Nela existem camadas de entendimento, formas de interpretação que permitem ignorar o fato pela ficção.

Nos livros, o amor entre adultos e menores de idade ou a tentativa desse amor, passa despercebida, confundida dentro de toda uma estrutura narrativa, amalgamada em cenários e ambientações que, de certa forma, dão uma espécie de licença poética para pecar.

Lembro-me de uma passagem específica do filme Léon – O profissional (1994 – Luc Besson), onde Matilda (Natalie Portman, então com 13 anos de idade), inquirida sobre o “pai” na portaria do prédio onde morava temporariamente com Léon (Jean Reno), respondeu que o homem com quem estava era o seu amante e não o seu pai (ele na verdade a abrigava e não tinham nenhuma relação licenciosa).

Inegável a carga de erotismo e lubricidade que a cena provocou, mesmo que não fosse essa a intenção primeira. Matilda fez a declaração com uma sensualidade infantil bastante convincente.

A exploração desse tema no cinema e na literatura não é ocasional e esporádica. Temos ainda A casa das belas adormecidas (Yasunari Kawabata), Golpe de misericórdia (Marguerite Yourcenar), O imoralista (André Gide) entre outros. Essas obras vão na contramão do que se prega e alardeia atualmente em nosso cotidiano.

Ninguém protesta. Nem denuncia as obras à polícia. Nem faz piquetes e quebra-quebra para que queimem todos os livros e todas as películas que insinuam esse amor profano e inaceitável (não falta muito para isso).

Existem mundos, na literatura e no cinema, bastante ligados ao nosso. Parelhos. Lado a lado, embora separados por um abismo que não nos permite ir de um lado a outro senão pela força da imaginação.

E essa imaginação ganha poderes inauditos do lado de lá do abismo. De tal forma que as pessoas do lado de cá a ignoram na mesma medida em que mergulham nela, vivendo realidades impossíveis de conceber aqui, e com garantia de impunidade.

A ficção é boa e é má. Boa quando nos arrebata ou quando nos ajuda a evoluir (ou como pessoas – sem panfletarismos -, ou como leitores). Má quando nos vicia.

Mas não há vício na boa literatura, a não ser para os fracos e já predispostos.

Que tal um Fome?

02/09/2009

Fome - Capa 3DDaqui a dois meses meu livro Fome, publicado pela Tarja Editorial, fará um ano de publicação. Desde que foi ao mercado, em novembro de 2008, venho recebendo vários feedbacks, os mais variados. Sem dúvida não é um livro para se gostar fácil. Ou se gosta, ou se odeia. Mas ambas essas emoções eram previstas quando escrevi esse conjunto de contos ambientados num cenário pósapocalíptico. Tanto o gostar quanto o não gostar, ou odiar, faziam parte dos meus planos. Ninguém poderá dizer que Fome é literatura ruim. Apenas poderão combatê-lo enquanto um conjunto de idéias; poderão discutir o argumento, a trama, a crueza, a frieza, a violência, a ausência de quaisquer traços morais ou éticos. Nesse sentido, Fome vem cumprindo com seu papel de maneira exemplar.

Alguns comentários recebidos:

• Lixo! • Perturbador • Imoral • Uma porcaria • Coisa do demônio • Como pôde? • Fascinante • Assustador • Comecei a ler, mas não vou terminar • Senti nojo • Tenho filhos! • Maneiro, cara!

Se você leu, talvez se identifique com um ou outro destes comentário. Se não leu, convido-o a fazê-lo. E depois me diga o que achou. Comente aqui neste blogue. Xingue ou elogie. Sua opinião é importante.

Trechos:

“Arranquei os trapos que a cobriam. Ela recuou o que pôde, espremendo-se contra a parede. Dois pequenos montículos se sobressaiam onde um dia ela (se continuasse viva) teria peitos. A vulva mostrava pequenos e sedosos pelinhos que iam cobrindo a região. Agarrei-a pelas pernas e a arrastei para o meio do esconderijo, sobre folhas de papelão. Virei-a para ver suas nádegas. Brancas e exíguas. Espalmei-as. Apertei-as. Bati nelas. Avermelharam até parecer fogo.”

“Com olhares nervosos cortou os membros, separando-os do tronco. Abriu a barriga e retirou dele algumas vísceras. Mais ossos que carne. Afastou os urubus com acenos enérgicos, ajuntou as peças e começou a carregá-las para dentro do prédio.”

“Quisera que as letras impressas nas folhas surgissem uma a uma em sua pele, saltando como brotoejas. Ele então as poderia ler. Palavras novas surgindo, formações aleatórias, sentenças surpreendentes. Poderia ele se tornar num autor esofágico, epidérmico. Contemplaria o corpo nu diante de um pedaço de vidro e admiraria a metamorfose.”

“Os olhos se esgazearam e o brilho do metal refulgiu um segundo antes do golpe. Foi rápido, quase um instante. A cabeça tombou para frente e uma luz vermelha alaranjada surgiu fantasmagórica, lançando-o na estupefação da súbita descoberta da vida após a morte.”

“Girou nos calcanhares. Firmou o pé exatamente na marca. Olhou para frente e para o lado. Sobre o papelão havia um pedaço de carne. Nem seca ao sol, nem salgada. Quase fresca. Até seria, se não cheirasse mal.”

“Retirou ambas as mãos do meio das pernas e as cheirou. Ainda estava trêmula. Molhada, mas não muito. Lambeu a umidade entre os dedos como quem procura retirar a última gota de água de um copo vazio. Estava com fome e sede. De comida e de homem. De ambos.”

“— Seu deus morreu antes de todos nós! – insistiu a voz lá na frente. – O Paraíso foi invadido por diversas matilhas. Mataram todos os animais, beberam e comeram toda a comida, estupraram e devoraram todas as mulheres…

— Deus foi flagrado fodendo um menino sob uma laje. Enfiava nele o cajado tão profundamente que o sangue espirrava! Depois o devorou, mastigando a carne ainda viva e pulsante!”

“As pernas tremiam ligeiramente. Muito mais pelo esforço da caminhada ininterrupta do que pela doença que lhe devorava a carne. Cada bolha estourada levava consigo uma parte de nervos e músculos liquefeitos.”

“O menino, quieto, exibia a sua nudez conspurcada sem nenhuma vergonha. Olhos semicerrados. Respiração ausente. Tocou no seu peito. Procurou pelo batimento cardíaco. Procurou pelo hálito, pelo bafo quente e juvenil, mas não o encontrou.”

“Ao fim da oração, desferiu poderoso golpe. A faca penetrou na pouca carne, rasgou e partiu ossos, penetrou na terra, fincando-se nela. O capturado não gemeu. Não sibilou. Não proferiu nenhum som. Seus olhos embaciados acompanharam a descida da faca, arregalaram-se de leve durante o golpe mortal, depois pareceram sorrir.”

“Deu-se o pandemônio. Gritos terríveis antecederam um ataque maciço desferido por ambas as partes. Dezenas de homens se engalfinharam transformando a pequena clareira num palco de carnificina. Lâminas cortavam o ar, disparos eram efetuados, paus e pedras voavam em todas as direções. Agarravam-se, mordiam-se, unhavam-se.”

“E então todos pararam de comer e beber. Alguns regurgitaram o excesso de sangue, cuspiram a carne que se lhes entalava na garganta. Levantaram-se, atônitos e maravilhados. Alguns feridos e cambaleantes. Moribundos puseram-se de pé ao som das trombetas. Ossos partidos, fraturas expostas… E mesmo assim se puseram de pé.”

Fome está aí, na Tarja Livros. Baratinho. O Richard Diegues vai ficar contente com sua visita (eu também…rs).

Conto – Filamentos iridescentes como numa chuva de néon

07/08/2009

Escrevi esse conto para participar do primeiro Prêmio Braulio Tavares 2007 promovido pela comunidade de Ficção Científica do Orkut. Não tinha grandes espectativas já que era um exercício de estilo e não acreditava que fosse agradar. Mas, para minha imensa surpresa, fui o vencedor com até larga vantagem sobre o segundo colocado.  Quem já leu, tem a oportunidade de ler novamente. Quem não leu, aproveite agora.

Filamentos iridescentes como numa chuva de néon

O cogumelo se formou lá longe, afastando a noite com uma radiação brilhante e maravilhosa. Apoiei a caixa no parapeito da janela, coloquei a mão na manivela e sorri. Milhões de filamentos iridescentes surgiram no céu, como numa chuva de néon. Meus lábios se entreabriram respirando o ar morno. Poucas janelas com luzes, madrugada avançada. O bafo quente chegou segundos antes da onda de choque. Minhas bochechas se retraíram e dei um ligeiro toque, um movimento circular sutil na manivela. A onda de choque bateu com vigor, arrastou pedras e vidros e depois retornou uma centena de metros. Furiosa, brigando com o tempo. Milésimos de segundo. Bateu de novo. Voltou. Bateu mais uma vez e retornou até que o cogumelo se retraísse sobre si mesmo, voltando ao momento crucial de sua detonação. A caixa e a manivela, obedientes, acatando minhas ordens. Um segundo a mais e… Lá estava ele de novo. O clarão ofuscante seguido pelo cogumelo. Noite se transformando em dia. Cidade adormecida, inerte, distante da destruição. A onda de choque se aproximando. Ao longe via telhados sendo arrastados… O pó da morte transformando matéria em energia. Apoiei a caixa no parapeito da janela, coloquei a mão na manivela e sorri. Milhões de filamentos iridescentes surgiram no céu, como numa chuva de néon. Madrugada avançada. A onda de choque bateu com vigor. Minha mão moveu-se um milímetro. Meu corpo voltou à posição inicial e a onda de choque retornou centenas de metros. Lá vinha ela arrancando postes. Ia e vinha ao meu sabor. Destruição e reconstrução intercaladas. Cabeças vazias, mergulhadas no sono. Casais notívagos perdidos entre beijos. Boêmios encantados com o fulgor da morte, sem saber que o fulgor era de morte. Guardas-noturnos embalados em cochilos rápidos, aspirando a radiação, sorvendo a morte que os sorvia num repente. E o cogumelo se retraiu numa bolha cada vez menor até nada mais restar senão o obus que bate no chão, vindo de uma queda astronômica. O cogumelo se formou lá longe, afastando a noite com uma radiação brilhante e maravilhosa. Apoiei a caixa no parapeito da janela, coloquei a mão na manivela e sorri. Milhões de filamentos iridescentes surgiram no céu, como numa chuva de néon. Restaurantes fechados, boates na faxina, prostitutas cansadas. Cães e gatos na labuta noturna da caça. Antenas de televisão captando o vazio. Chiados de interferência. A onda de choque, avassaladora, carregando em seu bojo tudo o que encontra pelo caminho. Corpos, carros, tijolos… Voando tresloucados. Violência terrível. E a caixa apoiada na janela. Minha mão na manivela, brincando de Deus, que vai e volta no tempo como se ele não existisse. A bomba, a explosão… Fogo de artifício que espoca lá longe, anunciando uma nova era. A caixa e a manivela. Vai e vem, cogumelo que cresce e retrai. Onda de choque que arrasa e retorna, recolocando tudo em seu devido lugar. Uma brincadeira curiosa. Não há gritos nem lamúrias. Se ainda fosse de dia… Seria possível me embevecer com a perplexidade. Alimentar-me com o terror. Mas era madrugada avançada. Pena. Apoiei a caixa no parapeito da janela e sorri. Milhões de filamentos iridescentes surgiram no céu, como numa chuva de néon. Afastei a mão da manivela e aguardei. Aquela era uma madrugada calma e sossegada. Ao longe a onda de choque fazendo erguer as saias da cidade. Impudente, violando sua sacra e duvidosa condição de virgem. Fragmentos do que era a civilização flutuavam numa gigantesca nuvem de detritos. Minhas bochechas se retraíram, meu corpo foi violentamente arremessado para trás, o prédio arrancado de suas fundações… A mão bem longe da manivela. Cansara da brincadeira. Aquela era uma noite recheada de estrelas… E de filamentos iridescentes como numa chuva de néon.

Conto – Gárgulas

04/08/2009

gargula-em-paris

Gárgulas são enfeites, disseram-me. Ostentam sua figura nos parapeitos, continuaram a dizer. Sob sol e chuva, ao sabor do tempo. Sempre lá, distantes dos olhares alheios dos passantes. Mas há em todas nós uma vontade soberana que pode vencer a pétrea imobilidade. Um ânimo que foi originalmente acrescido pelas mãos do escultor. Depois moldado e exacerbado sob os temporais. Em cada relâmpago, uma fagulha de vida.

Meus olhos antes mortiços, agora se tornam rubicundos. Esforço-me a níveis quase intoleráveis na tentativa de mover um único dedo de minha pata. Sinto estremecer as costas rígidas. A língua dardeja timidamente. Há um afã explosivo que me move os pensamentos. Não serei como as outras. Não permanecerei exposta pela eternidade, estátua concretada, sem vontade própria.

Ahhh… Suspiro trêmulo e gigante de emoção. Exulto em discordar daquelas que negaram esta possibilidade. Olho-as de esguelha, todas elas, estanques em suas posições seculares. Atônitas a perceberem minha recente mobilidade, mesmo que ainda frágil e insegura. Quase gritam para que não me exceda, para que mantenha a mesma disposição de sempre, recurvada sobre a borda do edifício, ameaçadora.

Mas ignoro-as. Estalo o pescoço, sentindo músculos ganharem vida. Minha boca crepita ligeiramente, deixando cair pequenos pedriscos, esses substituídos por carne tépida. Estou quase lá, a me mover em definitivo. A primeira de todas, fazendo história.

Ha-ha… Rio para que me ouçam. Ha-ha-ha… Continuo exultante de emoção. Ha-ha-haaaaaaaaaa…

Despedaço-me em múltiplos fragmentos no calçamento, deixando perplexos os passantes que se afastam assustados. Um fio de sangue escorre de minha boca incólume junto à cabeça, apesar do turbilhão da queda e do choque violento contra o solo.

Antes de perder em definitivo minhas capacidades de percepção há pouco adquiridas, percebo, lá no alto, risadas de escárnio.

Tolas, penso amargurada, tolas e acomodadas.

Pulp Ficcion a Portuguesa

23/07/2009

Depois de vários meses de espera, após adiamentos variados, saiu, segunda-feira passada (dia 13) a primeira lista de contos aprovados para a antologia Pulp Ficcion a Portuguesa.

Organizada pela Editora Saída de Emergência, essa extenuante seleção galardoou, numa primeira etapa, vinte contos de onde sairão os dez que comporão essa antologia.

O conto Mundo Fatal, escrito em parceria entre eu e Jorge Luis Calife, foi selecionado. Isso ainda não é definitivo, mas termos sido escolhidos entre dezenas de outros, muitos bastante gabaritados, e estarmos perto de publicar em Portugal (pra mim isto será novidade), já nos dá muita alegria (embora não nos satisfaça completamente… rs).

Os dez contos escolhidos serão anunciados, provavelmente, no próximo dia 27, no site Efeitos Secundários, capitaneado pelo Luis Filipe Silva. Até lá não resta muita coisa a fazer senão cruzar os dedos e torcer.


Pedro Moreno

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