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A Fantasia brasileira vai bem, obrigado. Mas e a FC, como está?

30/01/2013

Capas Livros FC e Fantasia

A discussão FC x Fantasia não é nova, mas é sempre produtiva. O que vemos hoje no Brasil é uma quantidade de publicações de livros de Fantasia que ultrapassa a de Ficção Científica em muito (10 para 4, segundo estatísticas que me foram fornecidas por Cesar Silva, editor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica).

Mas, onde está a questão?

Parece-nos bastante óbvio que seja assim. Afinal, obras de Fantasia são mais assimiláveis. Não obrigam o leitor a acompanhar — via de regra — longas e exaustivas explicações científicas, nem a ter conhecimento — mesmo que básico — de nada que se aproxime de tecnologia e ciência. Leis simples como as da gravidade são comumente desafiadas e vencidas. Nossos autores fazem com que todos os grandes obstáculos sejam suplantados com abracadabras, com pitadas de pó de pirlinpinpin, efeitos sobrenaturais inexplicáveis ou poções e encantamentos diversos. Gestos grandiloquentes fazem surgir tempestades, piscar de olhos movem montanhas.

Vilões e mocinhos se enfrentam numa tempestade coruscante de efeitos especiais, transformam e transmutam com uma sem-cerimônia tão banal quanto encantadora. E os personagens secundários, humanóides ou não, sucumbem diante de tantos poderes, arrasados, fragmentados, pulverizados.

Não temos no Brasil autores como Susanna Clarke, Ursula K. Le Guin, Fritz Leiber ou Patrick Rothfuss. Boa parte de nossos esforçados autores de Fantasia estão muito mais para J.K. Rowlings recauchutadas ou J.R.R. Tolkiens de calças curtas, exceção feita a poucos e talentosos autores que conseguiram fugir do lugar comum e desenvolver universos próprios. Infestam as imitações mal feitas, as poucas tentativas pífias de encontrar um estilo próprio, um cenário divergente e original (porque é muito mais fácil copiar o que já está consagrado).

Não há ciência nas histórias de fantasia (deixo de lado a fantasia científica, mas mesmo ela dialoga pouco com a verossimilhança). Há apenas uma imaginação profusa que não explica, apenas apresenta mirabolâncias.

A Fantasia traz à tona o nosso lado lúdico, nos faz retornar à infância, aos sonhos, às nossas íntimas fantasias pueris, quando nos imaginávamos repletos de poder. Nossa visão do mundo era mágica, o mundo nos parecia mágico. A FC é o contraponto a essa visão. Ela nos obriga a fincar os pés no chão, nos mostra que o mundo é físico e obedece a leis imutáveis. A FC nos rouba muito de nosso senso lúdico, nos esfrega a cara no chão. Obriga-nos a “despertar” para a realidade e para todas as responsabilidades decorrentes disso.

Será essa a razão porque a nossa literatura de Fantasia leva grande vantagem em relação à FC? Ou é mesmo porque não temos uma cultura tecnológica, de grandes descobertas e viagens espaciais?

Afinal é essa a explicação recorrente. Somos um país sem cultura científica. Nunca fizemos grandes descobertas, nossos melhores foguetes são os da Caramuru, nossos cientistas, os melhores, vão embora do país em busca de melhores condições de trabalho e em busca de reconhecimento.

Então, por que, afinal, histórias de Ficção Científica deveriam ser populares, não é mesmo?

Se formos falar de outras mídias, veremos que a FC vai muito bem nos HQs, nos games, no cinema e na TV. Filmes e séries desse gênero bombam e alcançam bilheterias expressivas e telespectadores apaixonados. São vários os lançamentos (inclusive brasileiros) disputando espaço nas salas de exibição.

Mas em quê a literatura de FC ganha com isso? Como nossos autores são beneficiados com o boom da FC nas outras mídias? A FC continua não sendo lida. Continua não sendo prestigiada, continua sofrendo o preconceito das casas editoriais (e de muitos leitores que a consideram um gênero “chato”) que parecem esperar que um de nossos autores (sem patrocínio, nem apoio de nenhuma editora significativa) consiga vencer as dificuldades de mercado e explodir em vendas (melhor ainda se tiver o livro transformado em filme).

Só esse chamado “boi de piranha” conseguiria superar o “dar de ombros” das principais casas editoriais e, enfim, fazer a FC brasileira ser vista com olhos mais condescendentes (porque a FC estrangeira é normalmente publicada aqui com rótulos diferentes que tentam disfarçá-la)?

Difícil crer que não haja público para uma boa e dinâmica história de FC. Ou que não existam leitores inteligentes que não se entusiasmem com histórias elaboradas, personagens com múltiplas camadas, cenários ricos, boas ambientações, argumentos convincentes e soluções criativas e verossímeis (Nem toda FC produzida aqui é assim tão complexa, mas não podemos esquecer que, qualitativamente, a literatura de FC brasileira é, no geral, muito mais bem trabalhada que a de Fantasia).

Ou crer que todos os leitores de FC estejam comodamente assentados dentro do nicho, incorporados ao fandom. Porque se for assim, é de se compreender a atitude das grandes editoras. Investir num gênero que não consegue reunir mais que uns poucos milhares de leitores (dos quais muitos sequer conhecem o que se produz contemporaneamente) é jogar tempo e dinheiro fora.

A Fantasia não precisa de apresentações prévias. Não precisa vencer o preconceito de editores. Há muita Fantasia sendo publicada, grande parte de qualidade duvidosa.

Sem contar que é notório que qualidade e apelo comercial não são correlatos. As editoras são casas comerciais e são as vendas (as boas, de preferência) que pagam as suas contas. Entre escolher um romance de Fantasia manco e com chulé, mas com apelo comercial palpável, e um romance de FC de boa qualidade, elas vão escolher o primeiro. Por que deveriam investir num gênero, construir paulatinamente um mercado, se o custo/benefício é incerto?

Casos como o de Luiz Brás que publicou Sozinho no deserto extremo pela Editora Prumo são exemplos que parecem apenas servir para confirmar a regra.

Assim, a FC fica relegada às pequenas editoras que trabalham com edições limitadas e publicam quase que especificamente para o nicho. Um possível manancial de leitores extra-fandom permanece inatingível, inalcançável. Porque esses vários milhares de leitores que adquirem Asimov, Clarke, Bradbury (e outros nomes estrangeiros que se escondem na chamada ficção especulativa), também podem adquirir Gersons-Lodis, Causos e Carlos Orsis.

Existe dificuldade nisso? Claro. Mas mercados existem para serem descobertos, desbravados. Não só por quem escreve (que esses não têm poder para erguer mercados) e, sim, pelas editoras que, se não têm nenhuma obrigação em formar leitores, também não deveriam se escudar inteiramente disso.

Afinal, assim como nas melhores obras brasileiras de Fantasia, existem trabalhos de Ficção Científica com bom potencial de vendas e com argumentos que cairiam muito bem em filmes. Nem é preciso garimpar muito. Basta abrir os olhos, não dar mais de ombros, atentar para a pilha de originais e conceder à FC brasileira um voto de confiança.

Pelo menos isso.

***

Links interessante cedido por Cesar Silva:

• Listagem de todas as publicações de literatura fantástica feitas em 2011 no Brasil para download:
http://issuu.com/cesarsilva7/docs/anu_rio_brasileiro_de_literatura_fant_stica_2011_l

Você quer o anuário?

• Anuários Brasileiros de Literatura Fantástica para aquisição (anos de 2009 e 2010, 2011 está esgotado até o momento):
http://loja.devir.com.br/catalogsearch/result/?q=anuario+brasileiro+de+literatura+fantastica

Assembleia Estelar, lido e comentado.

13/06/2011

A coletânea Assembleia Estelar, organizada por Marcello Branco e publicada pela Editora Devir conta com 14 noveletas/contos, tem 408 páginas e seu tema está voltado à política e a tudo aquilo que a constitui e a complementa.

Comecei a leitura com grandes expectativas imaginando que o tema proposto exigiria trabalhos muito bem elaborados e necessariamente (não obrigatoriamente) hipnóticos. Não foi exatamente o que encontrei. Surpreendeu-me, sobretudo, encontrar trabalhos com pouquíssimas páginas quando uma das exigências era a de que as narrativas deveriam obedecer ao formato noveleta.

Ou faltaram trabalhos melhores e mais complexos, ou uma flexibilidade de última hora do organizador atingiu níveis estratosféricos.

Assembleia Estelar recebe um BOM pelo conjunto, embora não seja exatamente uma coletânea memorável.

A capa old-fashioned (autor: Vagner Vargas) repete o padrão apresentado por outros livros da Devir. Eu, particularmente, não gosto delas, embora reconheça a qualidade dos traços artísticos do capista. Já estava na hora da Devir se lembrar de que estamos no século XXI. Os anos 1960 ficaram para trás.

As escolhas recaíram sobre autores nacionais e estrangeiros, trazendo-nos trabalhos de Bruce Sterling, Ursula K. Le Guin e Orson Scott Card, além de Fernando Bonassi, André Carneiro, Ataíde Tartari, Henrique Flory, Daniel Fresnot, Luis Filipe Silva, Flávio Medeiros, Carlos Orsi, Miguel Carqueija, Roberto de Sousa Causo e Roberval Barcellos.

Vamos aos comentários.

• A queda de Roma antes da telenovela
Luis Filipe Silva

O que seria se cada votação de projeto de lei fosse transformada em espetáculo, transmitido em rede nacional de TV? Luis Filipe Silva fala de um futuro hipotético onde políticos perfeitamente integrados ao modus operandi da época lidam com um parlamentar cujas técnicas ainda obedecem às velhas fórmulas do século XX, nas quais os debates ainda se sobrepujam a mera análise estatística dos números. Não se trata de uma noveleta com ação e momentos de tirar o fôlego, trata-se de uma abordagem reflexiva que caminha paripasso para um final coerente. Se não arrebata, também não aborrece. MÉDIO

•Anauê
Roberval Barcellos

Trata-se de uma história alternativa onde, em 1980, o Brasil é governado por integralistas e tem a Alemanha nazista como aliada. Esperam por Hudolf Hess, que visitará o país. O autor traz à tona toda a sensação de indignidade e revolta que a política de extermínio de judeus provocou, explorando esse cenário em pleno território brasileiro. O conto começa bem, porém, na medida em que avança, vai descendo a ladeira. Há momentos inverossímeis, pouca habilidade nas cenas de ação (que são ingênuas) e um final apressado (e piegas) que foi decepcionante. RUIM

• Gabinete blindado
André Carneiro

Sabotadores se preparam para a ação enquanto uma das integrantes mergulha em reminiscências e reflexões. Poderia ser uma história bastante interessante se houvesse uma preocupação maior com a trama do que com a literariedade. Eu vivo reclamando a pouca preocupação do escritor brasileiro com a forma, mas também condeno os exageros. Nesse caso, André Carneiro chutou pra escanteio o enredo, apresentando-o de forma fragmentada, e valorizou excessivamente a qualidade técnica. Tratou-se de uma leitura arrastada e aborrecida. RUIM

•Trunfo de Campanha
Roberto de Sousa Causo

Essa noveleta fala de estratégias políticas que pretendem conferir a um único homem poder absoluto sobre o universo conhecido. Parece-se muito com um excerto, um trecho extraído de uma obra maior e mais completa — e isso a enfraquece. A preocupação em detalhar o cenário político desse universo força a narrativa a uma leitura cansativa. Não há pontos de tensão, não há ação (e quando há, não convence). Monocórdia da primeira à última linha parece ter sido escolhida para esse livro em virtude apenas do aprofundamento político que lhe é dada. O organizador ignorou qualquer necessidade de tensão. Final previsível e ingênuo. RUIM

• Diário do cerco de Nova Iorque
Daniel Fresnot

Escritor francês em visita à America do Norte assiste convulsão social onde Nova Iorque mergulha numa batalha contra o resto do país. Narrativa hipnótica, muito bem conduzida, ritmo excelente. O leitor se vê arrastado em meio à trama, ansioso pelo final. Destaque especialíssimo a Jack, o periquito. MUITO BOM

• Saara Gardens
Ataíde Tartari

Esse é o trabalho mais curto do livro. Narra tramas políticas que visam permitir a exploração do deserto do Saara num empreendimento imobiliário. Conhecido por seu estilo despojado, Ataíde Tartari explora alusões a empreiteiras e personalidades contemporâneas. O conto peca especialmente por ser muito curto. Não há desenvolvimento, não há aprofundamento, não há envolvimento. O subterrâneo e os bastidores políticos poderiam ter sido melhor explorados. Quando achamos que o conto está começando, ele termina. Sua absoluta despretensão também o enfraquece. RUIM

• Era de aquário
Miguel Carqueija

Embora seja também curto, esse conto tem um desenvolvimento mais equilibrado. Um senador se prepara para uma importante conferência numa universidade em meio a um cenário distópico e caótico, onde assassinatos e convulsões sociais são regra e não exceção. Boa condução e bom ritmo. Agradável leitura. BOM

• A evolução dos homens sem pernas
Fernando Bonassi

A história discorre com ironia e se revela uma metáfora para a ciranda evolutiva do Homem, que constrói o ambiente de acordo com as suas necessidades, até que suas necessidades sejam o ambiente que o cerca. Atraente sem ser apaixonante, o conto se descobre profético. BOM

•A pedra que canta
Henrique Flory

Uma criança doente se revela potencialmente perigosa quando tem implantado cirurgicamente um dispositivo que a permite enxergar pontos de tensão em estruturas. Será importantíssimo em uma missão de sabotagem que pretende destruir Buenos Aires. Trata-se de uma história bastante interessante, bem contada e com bom ritmo. BOM

• O dia antes da revolução
Ursula K. Le Guin

Noveleta em ritmo de reminiscências, onde a protagonista revive o passado às vésperas de uma revolução. Também como excerto, o trabalho acaba sendo linear demais, não oferecendo os pontos de tensão tão necessários para aprisionar a atenção durante a leitura. Muito bem escrito, porém. Mas basta isso? A mim, não. MÉDIO

•O grande rio
Flávio Medeiros Jr.

Trata-se, sem dúvida, do melhor trabalho dessa coletânea. O assassinato de John Kennedy é planejado muitos anos depois de sua eleição, num mundo mergulhado na guerra. Viagem no tempo, paradoxos e muita criatividade. ÓTIMO.

•O originista
Orson Scott Card

O estudo da origem e complexidade da linguagem na formação histórica do ser humano trabalhado com maestria por Card. A história está baseada na trilogia da Fundação de Asimov e os protagonistas trabalham nos subterrâneos pela formação da Segunda Fundação. Talvez uma das narrativas mais longas, mas nem por isso aborrecida. Card conduz muito bem a história conseguindo prender a atenção do leitor com rara habilidade. Por vezes me flagrei protelando a leitura com medo que ela se acabasse. MUITO BOM

• Questão de sobrevivência
Carlos Orsi

São Paulo, ano de 2030. O caos social implode a cidade, doenças misteriosas assolam a população menos favorecida, governantes não têm pruridos em dizimar massas humanas em nome da ordem. Nesse cenário extremamente caótico um grupo de resistentes toma de assalto um veículo de transporte de leite materno. Dramático e pungente. Carlos Orsi consegue com habilidade narrar uma história assustadora. BOM

•Vemos as coisas de modo diferente
Bruce Sterling

Jornalista muçulmano visita os EUA para entrevistar um político líder de uma banda de rock. Com boa condução essa história bastante interessante nos traz um mundo sociopoliticamente transformado, num tempo em  que os EUA não são mais a polícia do mundo e as terras do Islã se uniram num único Califado. Profético, talvez? BOM

De Bar em Bar entrevista Gwyneth Jones.

30/09/2010

Gwyneth Jones, escritora e crítica de FC e fantasia, é autora de vários romances para adolescentes, principalmente horror e suspense (sob o pseudônimo de Ann Halam) assim como vários romances bem conceituados de FC para adultos. Seus trabalhos críticos e resenhas estão nas coletâneas Deconstructing The Starships (1999) e Imagination/Space (2009). Entre outros reconhecimentos, ela teve vários romances indicados para o prêmio Arthur C. Clarke, o último deles foi Spirit, em 2009. Ela mora em Brighton (Reino Unido) com o marido e o filho, alguns peixinhos dourados e dois gatos; aprecia filmes antigos, pratica yoga e já fez muito turismo radical. Entre seus hobbies estão a jardinagem, a culinária e os seus sites na internet. Email: gwyneth.jones@ntlworld.com Websites: http://www.boldaslove.co.uk http://homepage.ntlworld.com/gwynethann Blog: http://www.boldaslove.co.uk/blog/

Ainda com os ossos quentes e algumas partes chamuscadas, resultado da última entrevista com Hal Duncan, encarei essa nova com Gwyneth Jones com algumas restrições. Houve época onde os riscos eram divididos, tanto do entrevistador quanto do entrevistado. Recentemente tenho reparado que o entrevistador vem sofrendo riscos cada vez maiores.

E isso não é razoável.

Assim, consultei o relojoeiro que me deu o relógio quântico. Tive dificuldades para encontrá-lo. Quando finalmente eu o tive diante de mim, perguntei-lhe se não havia como controlar melhor os cenários para não corrermos tantos riscos. Perguntei se não havia a possibilidade de todas as entrevistas serem realizadas na tranquilidade e no conforto de um bar. Sem brigas, nem tiros, nem monstros, nem alienígenas, nem demônios ou anjos deturpados.

Ele me respondeu com um “Banzai!” e jogou um shuriken contra mim. Sem opção, apertei o botão do relógio para escapar de sua fúria.

Fui parar numa floresta. Magnífica. Frondosa. Verdejante. Os raios de Sol, filtrados pelas copas das arvores, penetravam como espadas de luz formando colunas brilhantes onde, como pequeníssimos prismas, esvoaçavam minúsculos insetos refletindo em suas asas um maravilhoso malabarismo de cores.

Fiquei parado onde estava. Pés recobertos pela vegetação rasteira. Arbustos em profusão farfalhavam, movidas ou pela aragem fresca que soprava, ou pela presença de pequenos habitantes da floresta: lagartas, ágeis roedores, insetos voadores ou saltadores.

As arvores eram altas, troncos eretos como grandes exclamações. Cascas lisas, manchadas em tons de verde e marrom. Alguns trechos com grande concentração delas, outras com clareiras amplas, abertas, onde as folhas secas se ajuntavam, rodopiando ao menor vento.

Dei alguns passos até me aproximar de uma delas. Apalpei o tronco e olhei para cima, até meu olhar se perder nas copas que se entrelaçavam com outras, formando um manto de larga extensão.

Então ouvi um zumbido distante e indistinguível. Depois mais alto e mais alto. Observei alguma coisa se movendo ao longe, contornando troncos, desviando-se dos arbustos, ascendendo, descendendo, fazendo curvas rápidas e desvios vertiginosos que chegavam quase a ângulos retos. Eu estava aturdido e espantado.

Apenas quando o objeto estava perto o bastante é que o identifiquei como uma hélice, girando alucinadamente em torno do próprio eixo.

Só me dei conta do perigo quando já era tarde demais.

A hélice teria cortado fora a minha cabeça. Veio diretamente para mim, num voo certeiro. Fiquei parado, olhos esbugalhados, vendo a morte se aproximar, sem tempo hábil para reagir.

Mas uma mão delicada, feminina, surgiu repentinamente por trás de mim e segurou o artefato antes de ele atingir minha garganta. Tinha três pás, retorcidas, como um estranho bumerangue. Foram instantes dramáticos. Comecei a tremer e, tentando evitar um desmaio iminente, puxei o ar em profundas golfadas para manter o equilíbrio.

— Não vá me envergonhar. Só os fracos desmaiam diante do perigo – disse a personagem às minhas costas, recuando o braço e com ele a hélice assassina.

Virei-me com cautela, tentando disfarçar os tremores. Era Gwyneth Jones, supus.

— Gwyneth… – gaguejei.

Ela franziu o cenho, olhou-me de cima a baixo, torceu os lábios numa espécie de reprovação e deu de ombros. Virou-se me dando as costas. Vestia um longo vestido branco que lhe escorria pelo corpo, cobrindo até os pés. Cabelos compridos soltos. Aparência diáfana, como num sonho. Caminhou alguns passos, depois parou e voltou-se para mim novamente.

— De Bar em Bar, não é?

— Isso! – respondi, animado. – entrevista, lembra-se?

— Hmmm…

— Melhor no mato que no Inferno – eu disse, dando um sorriso e lembrando-me dos anjos e demônios e dos regatos de água sulfurosa.

Mas o sorriso morreu em meus lábios no mesmo instante. Meu comentário pareceu enfurecê-la. Ela recrudesceu a expressão, fez um gesto rápido com uma das mãos e fui erguido no ar e arremessado para trás com violência. Centímetros antes de me chocar fortemente contra um tronco, senti-me “agarrado”. Fiquei suspenso no ar como se cordas invisíveis me contivessem. Gwyneth Jones venceu as dezenas de metros que nos separavam num átimo, deslizando sobre o solo com velocidade. Com outro gesto, fui solto e me esborrachei no chão, batendo as costas contra algumas raízes. Gemi, dolorido.

— Mato? Você disse mato? – vociferava enquanto eu tentava me levantar. – Isso que você chama de mato eu entendo como “lar”. Floresta encantada. Floresta mágica. Reduto dos bons, dos puros, dos paladinos e justiceiros a serviço da verdade. Olhe melhor o que o cerca, liberte-se dessa visão limitada e mesquinha que o acompanha e verá que esse “mato” é muito mais do que será capaz de compreender em toda a sua vida.

Pus-me de pé, enfim. Ajeitava-me enquanto tentava racionalizar. Aquela entrevista estava passando dos limites. O japonês maldito que me dera o relógio quântico estava indo longe demais. Gwyneth Jones abriu os braços apresentando-me a mesma floresta que tinha visto quando chegara. Nada de novo.

Então, como se me retirasse um véu de diante dos olhos, vi, pela primeira vez, o que havia para ser visto. Fiquei assombrado.

Os minúsculos insetos que volitavam por ali eram fadas. Mulherzinhas pequenininhas com asinhas às costas. Wendys que me faziam cócegas no nariz e zumbiam nos meus ouvidos. As lagartas que pensei ter visto eram gnomos ou estranhos Leprechauns. Corriam entre a mata, rindo-se de minha ignorância. As cores da floresta ganharam novos contornos, ficaram mais vibrantes, as luzes do Sol ficaram mais consistentes, quase como cristais luzidios. O vento ganhara vida e parecia soprar em várias direções ao mesmo tempo, fazendo das folhas secas um brinquedo ao qual dava, naquele momento, a forma de uma borboleta.

Nem preciso dizer que fiquei estarrecido.

Gwyneth então apontou o dedo para mim. Senti o chão me faltando e me vi erguido no ar. Eu flutuava cada vez mais para o alto e era acompanhado por ela que não escondia uma expressão de enfado. Passamos por alguns ramos intermediários e paramos a uma boa distância do chão. Junto a nós, também flutuando, havia uma mesa e duas cadeiras. Sobre a mesa uma garrafa contendo um líquido dourado. Os copos eram brilhantes, quase transparentes como se fossem feitos de vapor e filigranados com ouro.

“sentar diante de uma mesa que flutua?”, pensei com temor. Mas não havia nada que eu temesse mais do que aborrecer a gentil e poderosa dama que me levara lá para cima.

— Faça as perguntas e vá embora – ela me disse, não muito educadamente, enquanto nos ajeitávamos nas cadeiras. Para ela foi fácil, mas minha bunda teimava em querer escorregar para um lado ou para o outro. Qualquer distração me levaria a uma terrível queda.

— Como é para você desenvolver histórias para universos já estabelecidos, como Advanced Dungeon & Dragons (Salvando Tiamaat) e Conan (Red Sonja e Lessinghan em Dreamland)?

Gwyneth Jones franziu o cenho, confusa. A um gesto seu abriu-se uma janela em pleno ar e nele faiscava a Wikipedia. Levei um susto, claro. Ela a consultou rapidamente e depois a fechou com outro gesto.

— Ah, entendi aonde você quer chegar. Não, não. Eu tirei o nome Tiammat direto da mitologia antiga Sumeriana, onde ela é a Deusa primordial do Oceano, do Vórtice, do Caos. Acredito que o pessoal do Dungeon & Dragons bebeu da mesma fonte, de uma forma ou outra, quando deram o nome ao monstro. É interessante. Se você tiver lido minha história verá que o codinome de Tiamaat deveria ser um aviso a Deborah, a assassina, cuja hipótese de sexo (ou de gênero… gender pode ser as duas coisas…) pode ser enganosa. Acho que você vai gostar de saber que o “Ki” e o “An” também estão nos mitos Antigos Sumerianos. Eu não sei se eles também têm paralelos no D&D. No caso da minha história “Saving Tiamaat” o Universo estabelecido foi o nobre e imemorial Universo da Space Opera, um dos gêneros globais da FC; um espaço de imaginação acolhedor e compendioso, que na época em que eu o escrevia – em 2006 – estava sendo renomeado para The New Space Opera. O caso de Red Sonja and Lessngham é diferente, mas similar. Eu não cheguei ao nome através de uma incrível guerreira de nome Red Sonja através do “Universo Conan”, mas puramente por admiração ao filme maravilhosamente trash que tem o mesmo nome (Richard Fleischer, 1985), que é um dos meus favoritos. Lessingham, claro, é um personagem dos romances de fantasia de E. R. Eddison, particularmente The Worm Ouroboros (O verme ouroboros, 1922). Cenas e descrições deste texto venerável são claramente reconhecíveis em minha história, mas são usados de forma diferente, não apenas como Alta Fantasia. O que vem mostrar que é uma técnica de gênero que é muito mais antiga do que o século 21, e independente de franquias estabelecidas.

Aguardei o final da resposta e bebi um gole da bebida misteriosa e gostei. Era doce e levemente alcoólica. Ela sorriu ao ver meu agrado e riscou a mesa com a unha do dedo indicador, longa e afilada, vermelha, cor de sangue.

— Sabe do que é feito esse néctar? – perguntou-me.

— Não faço ideia.

— Saliva de camelo, lágrimas de tritão, urina de javali, uma gota por litro de sangue de unicórnio. Fezes de dragão de komodo fermentadas, de onde se tira o álcool para a poção. Seiva de sequoia e água pura das fontes dessa floresta. Tudo misturado durante um ritual de fertilidade e adormecido por cem anos em jarras de barro lacradas com cera de abelha sem ferrão. Enterradas a trinta metros de profundidade em solo de turfas. Trata-se de fina iguaria etílica.

Afastei devagar o copo da boca, sentindo no fundo da garganta o gosto da urina de javali e o amargor das fezes de dragão de Komodo. Meu estômago embrulhou e achei melhor parar de beber. Tentei parecer o mais natural possível, claro.

— Qual o seu envolvimento com o universo da RPG? Você joga? Você escreve ou colabora com casas editoriais de RPG?

— Não vai mais beber? – senti na pergunta dela um perigo real e imediato.

— Claro que sim – respondi sem muita animação. Levei o copo à boca e bebi mais um pequeno gole. Dessa vez foi a gota de sangue de unicórnio que pareceu não me cair bem. Uma leve dormência na ponta língua começou a me incomodar.

— Eu gostaria de estar envolvida com essa escrita, acredito que seria muito divertido, mas não estou. O mais próximo que já cheguei da feliz situação de escrever para uma Editora de Jogos foi uma história para a antologia Warhammer chamada The Manchdor Affair que infelizmente não foi publicada na época. Ela foi impressa mais tarde, em Dinamarquês, numa coletânea. Posso te dar mais detalhes sobre isso se quiser. Quando se trata de jogar, sou antissocial. Eu jogo alguns RPG como Zelda e Final Fantasy, mas sozinha. Preferivelmente sozinha no quarto, assim posso me debater com minha incrível capacidade de jogar sem me sentir envergonhada. Meu interesse profissional em jogos é duplo; sou fascinada pela tecnologia, que acho brilhante. Um dos poucos pontos que realmente tem crescido na nossa área de cultura e tecnologia atual e ridiculamente negligenciada por críticos culturais. E sou fascinada pela neurologia dos jogos, naturalmente, porque isso é o que faço o tempo todo como artista criativa. Mas as tramas, personagens, desafios e tudo mais acontecem entre minhas duas orelhas e não entre uma tela e a plataforma de jogos mais recente.

Sorri um sorriso afetado e logo me recompus. Senti arrepios ao imaginar de que forma ela poderia interpretar minha súbita felicidade. Nem eu entendia isso direito. Bebi um terceiro gole, dessa vez sem que me fosse sugerido. Lágrimas de tritão e seiva de sequoia. Meu pé direito balançou de um lado ao outro. Minha orelha esquerda avermelhou. Senti o queixo estremecer. Meus dentes pulavam na boca como se estivessem vivos. Minhas pupilas são castanhas, mas tenho certeza que ficaram roxas. Não sei como, mas ficaram. Gwyneth Jones me observava com científica curiosidade.

— Gllllow… Blurb…Quais são as semelhanças…Proftr… entre a sua prosa e a de outra…Gargar… escritora socialmente engajada como… Brumbr… Ursula K Le Guin? – ao fim da pergunta encostei a testa na mesa e a senti adernar de um lado ao outro. Comecei a rir sem nem saber por quê. Abri os olhos e vi através da madeira. Todo o chão lá embaixo ondulava como um imenso e verdejante oceano. Meus dentes ainda se mexiam. Um deles mordia o céu da minha boca me fazendo cócegas. Outro estava debaixo da língua, dormindo. Eu podia ouvir seus insolentes roncos.

— Os textos de Ursula K. Le Guin tiveram grande influência sobre mim quando eu estava começando, especialmente a fusão de liricismo e política sofisticada em The Left Hand of Darkness (A mão esquerda da escuridão). Sua influência continua forte, e é algo que tenho em comum com muitos outros, gostem eles ou não de serem identificados como literários e socialmente engajados. A outra coisa que tenho em comum com Ursula é que tenho tentado ser socialmente engajada enquanto nado pela corrente principal. Eu tenho tentado escrever para o público em geral e não pregar aos convertidos.

Ela terminou e ficou aguardando que eu erguesse a cabeça da mesa, descolando a testa da madeira translúcida (não me pergunte que loucura é essa). Eu fiz isso com tremendo esforço, como se todos os músculos do meu corpo estivessem letárgicos. Olhei para ela com alguma dificuldade e vi um borrão branco. No meio do borrão, um rosto. No meio do rosto, um sorriso. Então eu sorri também, tentando, com a língua, segurar os dentes revoltosos que insistiam em querer pular fora.

—Boa essa… hmmmmmm… bebida… – comentei num espasmo. – Maravilhoso esse lugar – eu continuei, abrindo ambos os braços como se quisesse abraçar a floresta. A cadeira inclinou-se perigosamente para trás e tive a impressão de que uma língua comprida e pegajosa grudou no meu pescoço, me puxando novamente para o lugar.

— A linguagem que você usa com o público adulto é, obviamente, diferente daquela que você usa com os mais jovens. Com qual das duas linguagens você se identifica mais e porque usa um pseudônimo?

Arregalei os olhos, surpreso comigo mesmo. E não é que eu tinha feito toda a pergunta sem gaguejar, nem babar, nem precisar agarrar os dentes para que não fugissem? Para comemorar, dei um generoso gole no xixi de Komodo, bebi o sangue de sequoia e sorvi a merda de abelha sem ferrão. Estalei a língua, satisfeito, bati a mão na testa e senti minha orelha esquerda cair rolando pelo ombro até repousar, quietinha, no meu colo.

— Eu gosto de escrever para adultos e gosto de escrever para adolescentes. As vozes são ambas, minhas, não vejo problemas de identidade. A diferença é difícil de ser detectada a não ser pelo fato de que simplicidade e objetividade são obviamente vitais para o público mais jovem. Eu acho que quando escrevo uma história de “Ann Halam” eu espero que ela flua sem paradas, revisão extensiva, pesquisa cuidadosa. Quando escrevo uma história de “Gwineth Jones” eu já sei que vou ter que pensar e trabalhar duro, antes de transformar minhas ideias em ficção. Mas nem sempre acontece dessa maneira. Por vezes as histórias de “Gwyneth” são mais fáceis e as de “Ann” mais difíceis. Mas não me importo. Eu gosto de pensar, gosto de trabalho interessante e, claro, todos nós gostamos do “estado de fluxo”. O pseudônimo não foi minha ideia. Quem me pediu para criar um para os livros adolescentes foi uma antiga editora, muito tempo atrás. Eu não vi por que não, então concordei e acabei achando a situação confortável. Não é nenhum segredo, mas não acho que vou abandonar nenhum dos nomes agora.

Algumas fadas pousaram sobre a mesa, outras esvoaçavam a garrafa e os copos. Gwyneth abanou as mãos tentando espantá-las e uma, numa fuga arriscada, foi dar direto no meu nariz.

— Isso aqui é uma loucura – comentei, tentando tirar a fada à força de minha narina. – uma mesa flutuando no ar, bem acima do solo, quase tocando os ramos mais altos. Dentes saltitantes, fadinhas sexy, uma rainha branca com cara da feiticeira das Crônicas de Nárnia – e eu disse isso olhando bem nos olhos dela. – e uma bebida que deve ser um dos compostos mais alucinógenos que já experimentei.

Fiquei olhando para ela enquanto tentava a todo custo prender a orelha caída. A fadinha intrusa já tinha ido embora, cheia da minha meleca.

— As perguntas acabaram? – perguntou-me Gwyneth.

— Ainda há uma – respondi razoavelmente satisfeito com a orelha. Não no lugar certo, mas já podia ouvir melhor daquele lado.

Gwyneth aproximou-se de mim, sobrepondo-se à mesa. Juro que pensei que ia me dar um beijo. Em vez disso, soprou devagar no meu rosto. Boa parte de meu estado alterado desapareceu. Com boa parte de minha lucidez recuperada, apavorei-me quando vi que a mesa estava muito mais acima daquilo que eu acreditava. Vi as arvores abaixo de nós, bem abaixo. Vi os contornos do planeta, vi vales montanhosos obscuros e açoitados por relâmpagos intensos, vi cachoeiras, rios e lagoas resplandecentes. E vi cavalos voando, vi harpias, vi gárgulas, vi espectros e creio ter visto Dumbo.

— A última pergunta – sussurrou Gwyneth, fazendo a mesa girar no ar como uma xícara dançante tal e qual na história de Alice. Senti náusea e ia vomitar quando a mesa parou. Aí, quem não parou fui eu. Tonto, balancei ficando perto de cair. Senti de novo como se uma língua grossa e pegajosa me prendesse. Dessa vez não era sonho nem devaneio. A língua se projetava da boca de Gwyneth, que a recolheu assim que eu me estabilizei.

— Já o segurei por vezes demais. Estou ficando cansada dessa entrevista.

— Fale-nos um pouco sobre seus estudos críticos e a importância que eles têm em sua vida literária – perguntei num golpe só, trêmulo e assustado.

— Sou uma intelectual, não tenho como evitar, nasci assim. Isso não significa, infelizmente, que seja altamente qualificada ou altamente inteligente, só significa que quando vejo algo feito de palavras ou imagens, tenho que desmontá-las, ver como funcionam, como evoluem, como as partes são colocadas juntas. Exatamente como uma criança curiosa que tem de desmontar brinquedos, arruinar relógios, fuçar o software e o hardware de qualquer aparelho. Desde que me tornei escritora, me tornei crítica, o que não é a mesma coisa de ser uma resenhista, por que normalmente eu não me interesso se o livro vai vender ou não. Eu só acho a atividade de dissecar todos os tipos de narrativa – trash ou literária, isso não me importa – fascinante. Fico tentando parar, porque acaba sendo encrenca. Você pega o amado romance de alguém, um Best-Seller reverenciado, desmonta e junta as peças não exatamente da forma como ele era anteriormente, naturalmente vão ficar chateados… Mas de alguma forma a crítica sempre volta à minha vida. Eu realmente deveria parar. O impacto dela em minha vida literária – tirando os períodos onde tenho que me esconder e entrar num esquema de proteção a testemunhas de crime, por exemplo – tem sido que eu não consigo evitar em pensar sobre a fonte de minhas próprias narrativas. Eu nunca acredito que estou fazendo algo original, apenas que é uma versão original. Eu sempre penso que estou contando uma história já contada anteriormente, mas com esperança de ser numa forma nova e intrigante.

Ela havia acabado e isso estava claro. Tanto ela quanto eu respiramos fundo. Eu me agarrava à borda da mesa, sentindo-a adejar de um lado ao outro. Meus pés soltos no espaço, sem chão firme por pelo menos uns trezentos ou quatrocentos metros. E agora? Pensei. Ela fará um gesto qualquer e voltaremos a pousar em segurança, ou o quê?

Descobri afinal. Ela estalou os dedos e a mesa e a cadeira e os copos e a garrafa desapareceram. Ficamos eu e ela suspensos no ar. Ela deslumbrante, com seu longo vestido branco agitando-se ao vento. Um sorriso triunfante do tipo de quem sabe que pode voar. Do tipo de quem sabe que o entrevistador não pode voar. Pálido, engoli em seco e despenquei.

Vi o céu girar enlouquecido. Vi Dumbo abanar as grandes orelhas. Rodopiei e vi as arvores se aproximando rapidamente. Vi dragões de Komodo marchando ao longe, vi unicórnios relinchando, a galope pelas pradarias. E tudo foi se transformando num imenso e verde borrão enquanto eu procurava desesperado o botão do meu relógio quântico.

Gwyneth Jones me mandou um email ameaçando-me caso revelasse os seus segredos. Pois então me arrisco ao extremo. Não vou permitir que a Rainha Branca me intimide. Nem Dumbo, nem ninguém. Publico a entrevista na íntegra, doa a quem doer.

Delfin colaborou com essa entrevista.