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Adorável noite de Adriano Siqueira – lido e comentado

19/09/2011

Adriano Siqueira em pessoa me presenteou com o seu livro, no dia do lançamento de Crônicas de Atlântida de Antonio Luiz M. C. Costa. Prometi-lhe que leria o livro e faria uma resenha no É só outro blogue o que acabou acontecendo só recentemente devido ao volume de leituras profissionais (mas não só) que tenho tido.

Bem, desde então venho me perguntando se devo fazer uma resenha honesta, ou não. Adriano Siqueira é um vampiro notório e, embora bonachão, tem dentes que impõe respeito.

Pensei: “Às favas os dias futuros. Vou dizer o que precisa ser dito, doa a quem doer”.

E foi assim. Peguei o livro numa noite de borrasca, ventos terríveis balançavam as cortinas, relâmpagos cortavam os céus. Abri a primeira página e, após um estrondo ensurdecedor, as luzes se apagaram. Liguei uma lâmpada de emergência, fechei as janelas com pressa e me encolhi num canto do quarto, olhos pregados nos pequenos e inúmeros contos que recheiam o livro.

Li tudo em poucas horas.

Trata-se de uma antologia que chama a atenção pela quantidade infindável de contos. Alguns bem curtos. Todos eles com a marca inconfundível de Adriano Siqueira. Existem vários que estão longe de ser bons, existem muitos que não são bons nem ruins e alguns que se destacam. Um deles publicarei ainda essa semana neste blog.

Apesar disso, gostei muito do livro. Há nele uma carga enorme de despretensão e é justamente essa a sua principal qualidade. Adriano Siqueira é uma figura carismática, amiga. Essas virtudes estão no livro. Ele transpôs para o papel muito do que ele é. E isso nos obriga a uma leitura descompromissada. Como leitor atento e desarmado, recomendo a sua leitura.

Se você conhece Adriano Siqueira, identificará de imediato uma extensão dele em Adorável noite. Se não o conhece, procure-o pelos becos. Tenho certeza de que vai gostar conhecê-lo. Saído de uma das obras de Stephenie Meyer, um dentuço que brilha, e não só durante o dia.

Se estiver interessado no livro, você encontra ele aqui.

Nazarethe Fonseca rompe barreiras da mídia.

18/01/2011

Editora Aleph e Delicatessen Filmes lançam série de curtas para web baseada na saga Alma e Sangue

Em parceria com a produtora, editora é a primeira no Brasil a apostar em uma websérie de narrativa transmídia

Após as publicações de O Despertar do VampiroO Império dos VampirosO Pacto dos VampirosKara e Kmam, a Editora Aleph e a Delicatessen Filmes se juntam em uma coprodução de um projeto inovador: a websérie Alma e Sangue. É a primeira vez que uma editora brasileira se associa a uma produtora e juntos produzem uma série de curtas-metragens com enfoque na narrativa transmídia – quando partes de uma mesma história são contadas a partir de diferentes plataformas de mídia, aprofundando a experiência do entretenimento.

Criada em 2001, Alma e Sangue, da escritora maranhense Nazarethe Fonseca, é uma saga composta por 4 volumes (o quinto e último livro será lançado no segundo semestre de 2011).

A série foi dividida em três episódios, cada um com aproximadamente 4 minutos de duração. O episódio de estreia foi lançado nessa terça-feira (18) e pode ser visto no site http://www.almaesangue.com.br/. O segundo episódio será lançado em 01/02 e o terceiro em 15/02.

A realização é assinada pela Editora Aleph e a produção da Delicatessen Filmes. “Acreditamos que a narrativa transmídia é o futuro do mercado editorial. A ideia foi seguir o conceito à risca: desenvolver um roteiro inédito, que agregasse experiência ao fã, mas que, ao mesmo tempo, fosse atraente para conquistar novos leitores”, explica Adriano Fromer Piazzi, publisher da Editora Aleph.

Para Fabio Zavala, produtor executivo da Delicatessen Filme, esta websérie é um primeiro passo de todas as possibilidades que estão em torno do tema. “A ideia é desenvolver, sempre com o pensamento transmidiático, uma série para TV e um longa-metragem”, afirma.

A trilha e os efeitos sonoros são da Jukebox, e a finalização da Casablanca. O roteiro e a direção são de Caio Cobra, diretor do premiado curta Crônicas de um Assassino, e montador dos filmes O Bem Amado, de Guel Arraes, e Corpos Celestes, de Marcos Jorge.

As cenas da websérie foram rodadas em um casarão na cidade de Cruzeiro, interior de São Paulo, e o diretor buscou ambientes sombrios para ilustrar o universo vampiresco.

No www.almaesangue.com.br o internauta encontrará ainda contos inéditos de Nazarethe Fonseca, ambientados no universo de Alma e Sangue, além da página A Saga, na qual a autora explica em detalhes a rica mitologia de Alma e Sangue.

A história da saga Alma e Sangue

Alma e Sangue é uma saga de amor, horror e sedução protagonizada por Kara Ramos e Jan Kmam, ambientada em São Luís, Maranhão. Ela, uma jovem restauradora, mortal e audaciosa. Ele, um angustiado vampiro de 400 anos. Sua história começa em um velho casarão abandonado, quando, involuntariamente, Kara acaba mergulhando em um universo misterioso e cheio de perigos. Raptada pelo vampiro recém-desperto, ela vê sua vida e seu mundo mudarem completamente, levada pelas revelações e pelo fascínio de Jan Kmam.

Kara e Kmam se apaixonam e, em meio a inimigos do passado e do presente, descobrem que apenas o amor irá salvá-los. Gradativamente, Kara aprende a lidar com seus poderes e  com os segredos de seu novo universo.

Sobre a autora

Nazarethe Fonseca nasceu em São Luís, Maranhão. Começou a escrever aos 15 anos, após um sonho que se tornaria seu primeiro livro, uma trama policial. É autora da saga Alma e Sangue e também publicou contos nas coletâneas Necrópole: Histórias de BruxariaAnno DominiMeu Amor é um Vampiro. Mora atualmente em Natal, Rio Grande do Norte. É autora do blog Alma e Sangue www.almaesangue.blogspot.com e do Twitter @Nazarethe (atualmente com mais de 1.400 seguidores).

 

O livro negro dos vampiros. Lido e comentado.

26/07/2010

Há meses abordei um assunto que se revelou polêmico e é, até agora, uma das postagens mais acessadas do blogue. Falei sobre coletâneas que se esparramam, sendo amontoadas nos rodapés. Discuti os propósitos de suas organizações e os resultados advindos do esforço hercúleo de reunir em um só tomo dezenas de contos que se pretendem de boa qualidade.

Lembro que fui aplaudido e vaiado, ora por autores e leitores decepcionados com os resultados dessas coletâneas, ora por organizadores que vestiram a carapuça, demonstrando contrariedade com meus argumentos.

Recebi há poucos dias alguns livros para ler e comentar. Entre eles dois de publicação da Andross Editora. São eles: Anno Domini e O livro negro dos vampiros. Este último eu terminei de ler agorinha há pouco.

Salvo a bela capa, impossível acreditar que houve uma seleção realmente criteriosa, fundamentada na qualidade dos trabalhos recebidos, como defendido na apresentação da obra. São 53 trabalhos, os mais diversos. Tantos que me absterei de comentá-los um a um, tarefa que me absorveria demais.

Devo ressaltar que alguns contos conseguiram me fazer criar categorias novas de avaliação. Assim, criei o duplo Eca! e o triplo Eca!. O último concedido a apenas um conto, cujo autor merece meus sinceros e entusiásticos aplausos.

Também me decepcionou a revisão (fragilíssima) e a diagramação.

Vamos aos contos, autores e avaliações:

1-    Mais uma noite – Liz Marins –

2-    Reflexos de um vampiro sobre reflexos – Léo Vitor –

3-    Nem alfa, nem ômega – Gustavo Campello –

4-    Nina e Nicolau – André L. Pavesi –

5-    A investida do vampiro, em três atos – Renato Arfelli –

6-    Lextalions: O segredo de Caim – Marcelo Aceti –

7-    Um vampiro em minha vida – Tânia Rocha –

8-    Sacramento – O início – Marcos T. Nogueira –

9-    Segundas intenções – Silvio Alfredo de Oliveira Augusto –

10- Axius – Fábio Fabrício Fabretti –

11- Branco como a neve… – Vitória Hellsing –

12- Santa Rosa – Samuel DC –

13- Dark Road – W.P. Conspícuo –

14- A vítima perfeita – Marcio Renato Bordin –

15- Caça e Caçador – Tales de Azevedo –

16- Valores, desejos e Dry Martini – Ary P. Hahne –

17-  O melhor das safras – Vitor Alcântara –

18- A primeira noite – Rodolfo Mattos –

19- A vingança de Simon – Rafael Bernini –

20- Sombra sombria – Felipe F. Lopes –

21- Tempos modernos – Kathia Brienza –

22- Memória póstuma – Luciana Baccarin –

23- Encontro eterno – Rodrigo Bruno –

24- Amor no sangue – Maria do Carmo Fortuna –

25- A gênese do mal – Alexandre Copelli –

26- A última batida de meu coração – Ricardo Delfin –

27- O mistério dos papeis – Graziele Ruiz –

28- Garuda – Bruno Miguel Rosende –

29- Preto da noite, vermelho do sangue – Guilherme Sandi –

30- Ato profano – Lady Wilmot –

31- Resguardos noturnos – Renato Zapata Kannebley –

32- O resgate – Mariam Santiago –

33- Santo Sepulcro – Denise M. Guimarães –

34- Somos vivas, enfim – Emilia Ract –

35- O último quadro – Alex Sens Fuziy –

36- Olhar desluzido – Luciana Fátima da Silva –

37- O vampiro da consolação – Lizi Tequila –

38-  Você tem fé? – Juliana Ribeiro Cintra da Cruz –

39-  Maldição – André Caniato –

40- Destino – Vampy Lu –

41- Escolhas – M.J. Borghi –

42- Fome – Cesar de Lima –

43- Quase Jolie – Eunice Bemfica –

44-  A caçada – Helena Gomes –

45-  Zapping – Brontops –

46- O último manuscrito – Ed Wanger –

47- El mosquito – Denize Müller –

48-  Passione Nocturnale – Dimítry Uziel –

49- Charlote e o espelho – Ebbios Traumer –

50- Maternidade – Claudio Brites –

51- Vitela – Tiago Araújo –

52- No dobrar da hora morta – Kizzi Ysatis –

53- Um conto de vampiro – Octavio Cariello –

Já é difícil conseguir manter uma média de qualidade considerada boa numa coletânea com uma dúzia de trabalhos reunidos. Que dirá numa com 53?

Por outro lado, a quantidade de contos ruins e muito ruins é grande demais para aceitar que houve preocupação mínima com boa qualidade. Com as avaliações dadas, a coletânea O livro negro dos vampiros recebe um como avaliação final.

Mais um bom argumento contra as coletâneas caça-níqueis. E lamento pelos autores que, sem nenhuma condição de publicar, foram aceitos nesse livro. Bom para o ego, mal para a imagem. Que burilem melhor seus futuros trabalhos e não pensem em publicar antes de terem a mais absoluta certeza de que tenham atingido um nível aceitável de qualidade.

Relações de sangue. Clássico no gênero é relançado.

07/07/2010

Relações de Sangue é um clássico da literatura vampírica brasileira. Publicado originalmente muito antes da recente febre de vampiros que arrebatou o coração dos leitores, o romance de estreia de Martha Argel ainda é adorado por uma legião de fãs.

Num estilo ágil e bem humorado, e misturando romance policial com vampiros, Relações de Sangue traz uma história de mistério, suspense e sedução ambientada na São Paulo dos dias de hoje, capaz de prender a atenção do início ao fim.

Com esta nova edição, uma vez mais a Giz Editorial brinda os leitores com a prosa elegante e tão característica de Martha Argel, que já há algum tempo firmou-se como um dos nomes mais importantes da Literatura Fantástica nacional.

Sinopse

Maria Clara Baumgarten levava uma vida bem normal, até conhecer a vampira Lucila, cujos olhos castanhos grandes e inocentes enganariam até o mais desconfiado dos humanos, quanto mais a pobre Clarinha.

Um vampiro traz o outro, e logo ela está às voltas com Daniel, um inescrupuloso vampiro de programa. Moreno, alto, bonito e sensual, ele precisa da ajuda das humana e da vampira para encontrar o assassino em série que está atacando suas “clientes”.

Mas… e se o assassino encontrar Clara primeiro?

Serviço

Dados Completos da Obra

Título: Relações de Sangue
Autor: Martha Argel

Número de páginas: 256
ISBN: 978-85-7855-076-9
Editora: Giz Editorial
Assunto: Literatura Fantástica
Edição: 1ª edição
Ano: 2010
Formato: 14×21
Preço: R$ 29,90

De Bar em Bar entrevista: André Vianco

18/03/2010

Aridez.

Era um lugar longe de tudo e perto de nada.  Caminhei pelo deserto um par de horas, xingando o maldito relógio por mais essa discrepância. Embora não tivesse planejado antecipadamente o local da entrevista – aprendera, afinal, que não adiantava –, esperava, ao menos, que ela ocorresse nalgum lugar público, perto da civilização. Bastavam-me os sustos sofridos na última entrevista.

Vi ao longe uma construção que ia lentamente assomando. Uma placa de néon, grande e envelhecida, ainda apagada àquela hora, indicava, para quem soubesse ler, o nome Tiny Tits. Achei o nome estranho e logo ponderei que estava diante de um inferninho. Que outro lugar exibiria tão impudentemente um nome como esse?

Arrastei os pés pela terra batida e poeirenta. Vi carros e motos estacionados diante do Tiny. Aproximei-me, ansioso por uma cerveja ou qualquer coisa refrescante. Identifiquei uma porção de Harley Davidsons, alguns furgões, dois Volkswagens e um Chevrolet Cabriolet em espantoso bom estado de conservação.

Subi as escadas que levavam ao alpendre. À minha frente uma porta balcão com duas folhas, grande o suficiente para a entrada de um mamute. Ninguém tomando conta dela. Empurrei-a e ela abriu com suavidade. Deixei-a se fechar às minhas costas e aguardei alguns segundos até que meus olhos se acostumassem com a obscuridade. Logo identifiquei algumas dezenas de mesas, um palco à frente, um bar lateral, garçonetes e muita gente reunida, grupos de amigos e casais, sentados, bebendo e jogando conversa fora.

Me senti aliviado. Antes de me acomodar procurei pelo Vianco, mas não o encontrei. Uma garçonete se aproximou rebolando os quadris e lhe pedi uma cerveja, gelada de preferência. Ela se afastou levando meu olhar grudado na sua bunda.

Embora estivesse um calor causticante no exterior, lá dentro estava bastante fresco. E tinha fumaça de cigarro. E risadas e gritos divertidos de pessoas bêbadas. E garçonetes bastante sensuais vestindo roupas exíguas .

A cerveja chegou ao mesmo tempo em que vi a porta de entrada se abrir e o Vianco aparecer, recortado pela luz externa, como um vulto ensombrado, vestindo uma capa negra, longa, quase a lhe cobrir os pés. Olhou para dentro depois que a porta se fechou, lentamente se acostumando a pouca claridade e logo me identificou. Caminhou até mim e se sentou pesadamente.

— Chegou agora ou estava caminhando a esmo faz tempo? – perguntei, lembrando-me ainda do episódio anterior.

— Cheguei agorinha mesmo. Apareci lá fora. Que loucura! Uma entrevista aqui seria o último lugar em que iria pensar.

— Eu idem. Já nem penso mais onde vou entrevistar alguém. Deixo a cargo do meu assistente quântico. Só acrescento as informações necessárias. Bebe?

Não esperei pela resposta. Acenei para a garçonete e fiz-lhe sinal para trazer mais uma cerveja. Vianco agradeceu, esfregou as mãos uma na outra, afastou a capa de lado e se ajeitou melhor na cadeira.

— Aposto que daqui a pouco aparece uma mulher sensualíssima dançando naquele palco. Isso aqui é realidade alterada, mas nada que interfira na nossa realidade efetiva, né?

— Como assim?

— Quero dizer, se a gente se machuca aqui, o machucado não se transfere para a realidade… hmmm… Real… A que a gente vive mesmo… Transfere?

— Pergunte ao último entrevistado – respondi com um sorriso.

Senti uma ponta de preocupação no semblante do Vianco. Ele franziu o cenho, pegou meu copo de cerveja e bebeu um bom gole, limpando depois a boca com as costas da mão.

— É que… Bem, esse lugar me deixa preocupado. Se for uma brincadeira, tudo bem. Se for tipo realidade virtual, a gente conectado lá e vivendo uma fantasia aqui… Bacana. Mas se… Bem… Se for minimamente perigoso…

— Quando te convidei, disse que era perigoso, não disse?

— É, mas achei que era força de expressão. Bolas. É só uma entrevista, não é?

— E o que poderia te preocupar tanto num inferninho de nome Tiny Tits?

Tiny Tits? Que Tiny Tits?

— O nome da baiúca. Dessa pocilga.

— É Titty Twister. É o que li lá fora. Titty Twister e não Tiny Tits.

— Seja o que for. Que diferença faz?

Vianco ficou olhando para mim. No olhar uma espécie de perplexidade.

— Não sabe mesmo que lugar é esse, né?

— E deveria?

— Já ouviu falar de Quentin Tarantino?

— Não estamos aqui para falar de cinema. Antes de publicar seu primeiro romance, tinha em mente construir um “império” vampírico?

A garçonete chegou com a cerveja dele. Ele serviu-se, deu um gole suave, bochechou a cerveja na boca e engoliu com um estalido de língua. Olhou para mim e depois para todo o bar, circundando todo o ambiente com cuidado e atenção. Meneou a cabeça.

— Não mesmo. Eu queria escrever, contar minhas histórias e publicar. Escrevi o primeiro livro, de contos, aos 15 anos e não tinha nada de vampiro, mas o fantástico já estava lá.  Fui então até uma editora na Rua Itapeva, eu morava na Bela Vista naquela época, e recebi um orçamento inalcançável para um pivete metido a escritor. O que eu sempre tive foi uma fascinação pelo sombrio e os vampiros dividiam espaço igual entre as criaturas desse panteão assombrado.

Bebeu mais um gole da cerveja, esse mais generoso.

— Depois de escrever O senhor da chuva, pauleira levada por anjos e demônios, botei na cabeça que queria trabalhar um livro com vampiros, mas que teria que ser diferente do que fazia sucesso aqui na época, que era Anne Rice. Daí que em meados de 99 imaginei a história dos vampiros portugueses do Rio D´Ouro e ela se desdobrou em continuações que arrebanharam uma legião de fãs. Das centenas de milhares de livros vendidos, acho que os de vampiros representam mais de 70% desse número.

Um quarteto de cordas começou a dedilhar instrumentos ao lado do palco. Vianco franziu o cenho de novo, pigarreou e olhou para mim, visivelmente preocupado.

— Não sabe mesmo o que é o Titty Twister?

— Segundo você, o nome desse bar. Mas eu li claramente Tiny Tits. Li, sim.

— Quantas perguntas são?

— Mais três.

— Manda bala. Vamos correr com isso.

— Entre elogios e críticas, como você encara o seu trabalho?

— Cara, tenho um orgulho danado dos meus livrinhos. Os elogios estimulam, são bem-vindos, as críticas, quando fazem sentido,  escuto, mas não perco muito tempo nem com um nem com outro. Me preocupo mesmo é em contar histórias e mais histórias e estou sendo muito bem sucedido nisso. Sempre quis contar aventuras que agarrassem os leitores pela orelha, fisgando pelo improvável, pelo mistério. Estou evoluindo como escritor, a cada livro a gente aprende, muda um pouco, experimenta outro tanto.

Os Mariachis intensificaram os acordes e um mestre de cerimônias subiu ao palco para anunciar a nova atração. Vianco se calou por alguns instantes enquanto as cortinas iam sendo abertas. Atraente era o mínimo a dizer. Gostosa era o justo. Biquine exíguo e uma capa vermelha. Morena. Passos lúbricos, labaredas explodindo de piras. Um píton se enrodilhando em seu pescoço. A plateia ficou calada, atenta, hipnotizada pela performance que ia se iniciando.

— A música é After Dark… e… ela é Salma… – começou Vianco.

— Hayek – Terminei, engolindo em seco.

— Então, sabe onde estamos? – perguntou Vianco num fio de voz.

— Mas eu li Tiny Tits

— Vamos embora – o tom era urgente.

— Não dá. Antes da entrevista acabada, não dá.

— Hoje são doze livros publicados – continuou Vianco, tentando acelerar, mas engasgando e pigarreando –, tenho mais dois escritos e pelo menos mais um chegará às livrarias ainda esse ano. Outra coisa muito positiva é ver que meus livros ajudaram a sinalizar para muitas editoras que terror e fantasia brasileira vendem bem, sim.

Parou mais uma vez. A dançarina avançava sobre uma mesa, com um grupo de pessoas sentadas à sua volta. Iniciava uma dança ritmada e luxuriante. Tentava cativar um freguês.

— Tarantino! – exclamou Vianco, se erguendo de um salto.

— Quem? – perguntei atarantado, erguendo-me também.

— Naquela mesa… Cara! Incrível! Cara!

— A entrevista, Vianco – apelei, voltando a me sentar.

— Muitas daquelas que nem liam os originais de brasileiros se aventurando em fantasia e terror para adultos, passaram a dar uma olhadela ao menos. Não tenho como não ter orgulho disso – ele completou, sentando-se, agitado.

— Entre os autores nacionais “especializados” na literatura de vampiros, quais os que você mais admira e lê?

— São eles… Cara, estamos no filme.

— Já reparei. E pelo que me consta, logo coisas estranhas começam a acontecer.

— Pois é. Incrível, né?

— Tenho outro adjetivo para isso.

— Eu gosto muito do texto do Kizzy e da Giulia Moon, “O diário da sibila rubra” é uma coisa primorosa, o Kizzy tem um domínio muito maduro da poética, tem um lirismo real, trabalhado, que não fica piegas e a história é, ainda por cima, boa.

Alguém gritou que o jantar estava servido. Cadeiras foram arrastadas, gritos histéricos. Alguns gorgolejos. Mesas viraram. Começava o caos e a transformação da bela em fera. Satánico Pandemonium. Estávamos na extremidade do salão, bastante próximos da entrada. Mas ela estava orlada por dois fortes minotauros dentuços. Guardavam-na para garantir que de lá ninguém escaparia. Um tiro, dois tiros, três tiros. Miolos voaram. Um dente com pelo menos oito centímetros caiu próximo do meu pé.

Ainda estávamos sentados. Em choque.

Só nos erguemos quando um corpo sem cabeça caiu sobre nossa mesa, derramando a cerveja. O corpo ainda se mexia, em espasmos. Arrastamos-nos pelo chão. O Vianco tropeçando no longo casaco que o atrapalhava.

— Já a Giulia fez um trabalho muito criativo no Kaori, seu livro mais recente. Vale muito a pena ler esses dois – completou enquanto nos espremíamos num canto do salão, sem mais para onde ir.

— Stephenie Meyer trouxe mais visibilidade para você, como trouxe para os demais, ou você já está consolidado no mercado?

Vianco ia responder, mas alguém ou alguma coisa caiu diante de nós, em pé, num baque surdo. Olhamos para cima e vimos um sorriso. Cheio de dentes. Olhos esbugalhados, mãos em garras poderosas, orelhas pontudas. Ia nos agarrar, mas parou de chofre. Olhou pro Vianco e recuou um passo, assustado.

— Vianco – disse numa voz cavernosa.

— Apesar de ter uma base de leitores consolidada, a dona Stephenie e seu vampiro emo trouxeram um bocado de visibilidade, sim – Vianco ignorava a atitude inusitada do vampiro à nossa frente – E foi muito bom. Os livros com tema de vampiros venderam muito mais no ano passado. Notei que com o boom promovido pela série Crepúsculo houve aumento do volume de leitores mais jovens, e mais meninas entrando em contato por e-mail, twitter essas coisas – completou.

O vampirão deblaterava dentro do salão, agitando os braços. A luta se encerrou. Todos olharam para nosso lado. Levantamos-nos. Eu, confuso. O Vianco sorrindo. Demorou alguns segundos para me dar conta de que tínhamos sido os responsáveis pelo fim do combate. Humanos abaixaram ainda receosos as armas que portavam. Os vampiros vinham se aproximando, devagar, olhando com certa fascinação para o Vianco.

Ao fundo ouvimos um cara reclamar.

— Ah, não! Esses vampiros bem filhos da puta merecem morrer. Que merda!

Ameacei apertar o botão, mas o Vianco me impediu.

— Se liga, agora que vou começar a dar autógrafos? Aproveite. Não é todo dia que a gente toma um drinque no inferno – sorriu mais ainda, com caninos salientes, olhos rutilantes, um instante antes de saltar sobre o meu pescoço.

Mas apertei o botão uma fração de segundo antes disso.

Ponderei demoradamente se devia ou não publicar essa entrevista. Mas acabei chegando à conclusão de que revelar que o Vianco é um vampiro só vai ajudar a alavancar ainda mais as vendas dele. De qualquer forma, se o encontrarem por aí, mantenham os pescoços distantes. Relógio quântico com botão salvador só eu tenho, e mais ninguém.

Vampiros são hype.

06/10/2009

dracula

Vlad Tepes, histórico príncipe da Valáquia, conhecido pelas empalações que executava em inimigos e desafetos, jamais imaginaria a repercussão que seu nome alcançaria devido ao que a inventividade humana foi lhe atribuindo com o passar dos tempos.

O vampiro histórico, do cinema e da literatura, pouco mudou desde o início, guardando as características mais comuns que o tornam tão peculiar e que o imortalizaram.

Para uns, caninos proeminentes, para outros, incisivos. A sede que o transtorna e o fortalece, o encantamento, a sensualidade e o erotismo explícitos no assédio. O temor secular pela luz do dia, por caçadores que conhecem suas fragilidades, por réstias de alho, crucifixos, água benta.

Bela Lugosi, Christopher Lee e Gary Oldman ajudaram a imortalizar Drácula no cinema em películas que aterrorizaram e deliciaram milhões de espectadores em todo o mundo. O vampiro que nossos avós conheceram é, com mínimas alterações, o mesmo que conhecemos hoje em dia.

A presença do vampiro acompanha gerações pelas mãos hábeis de autores talentosos (ou não), mas com o condão de manter vivo o mito. O avanço científico deu a alguns escritores a possibilidade de introduzir sangue sintético no lugar do natural, e filtros solares poderosos. Um poupa os humanos e o outro impede a morte terrivelmente dolorosa do vampiro incauto ou ousado sob a luz do Sol.

Com exceção desse make-up quase obrigatório diante dos avanços científicos por que passamos, o vampiro histórico é o mesmo de outrora. Sem evoluções genéticas que poderiam torná-lo naturalmente mais resistente às suas seculares deficiências (supondo que os vampiros pudessem sofrer mutações evolutivas num ritmo muito mais acelerado que os humanos).

Temos hoje vampiros adaptados à urbe, vampiros hype; vampiros executivos, vampiros hi-tec, vampiros boys, colegiais, traficantes, policiais, bonzinhos e mauzinhos, depressivos, bulímicos, com psicopatias sociais, histéricos, românticos, gays… Vampiros para todos os gostos, perfeitamente socializados, vivendo um cotidiano mainstream, apesar dos dentões e do regime alimentar no mínimo peculiar.

E, apesar da extrema banalidade característica do “viver-humano” que os contaminou, vendem bem nas livrarias, como podem atestar vários autores contemporâneos.

Há abordagens que procuram escapar do lugar comum, acrescentando ao personagem poderes e características inusitadas, como o faz André Vianco com seus vampiros tugas que estudaram na famosa escola do Professor Xavier.

Assim como narrativas fascinantes e de inquestionável qualidade literária de autoras como Giulia Moon e Martha Argel.

Assim como abordagens extremamente tradicionalistas como nos livros de Nazarethe Fonseca, com suas histórias “sangue com açúcar” (com a devida licença do Antônio Luiz).

E outras dezenas de autores, mais ou menos competentes (mais ou menos medíocres), que batalham por espaço nessa disputada prateleira.

Eu mesmo já escrevi um conto desse gênero, publicado na extinta Kalyopes. Quem n’algum momento não se rendeu ao fascínio desse universo?

Fascínio e lugar comum. O tema é tão explorado, explodindo com mais ou menos intensidade em períodos sazonais, que é raro ser surpreendido por narrativas originais. É extremamente comum começar um conto antevendo as linhas seguintes, numa sucessão monótona e entediante.

Alia-se a isso a inaptidão de parte dos novos autores em construir, estruturar e dar ritmo às suas narrativas.

Eu disse certo momento neste blog que esse universo é cansativo. Quero me redimir. Cansativos são os autores que são incapazes de inovar e trazer algo de inusitado, de insólito a um tema já tão explorado.

Tiro o chapéu a quem ousa.

Os demais perdem grande oportunidade de acrescentar algo ao tema, de construir um cenário revitalizado.

Talvez esses autores cuja abordagem é quase vitoriana de tão tradicional vendam bem, mas a história não se lembrará deles e sim dos outros que, com coragem, deram asas à imaginação e ousaram bem mais.

Vampiros: tremei!

04/08/2009

Cristal

Em casa é natural que fiquemos com um olho em nossas atividades diárias e o outro voltado para a nossa cadela Weimaraner, a Cristal. Não só por ser belíssima e com um porte majestoso, mas também porque é ainda bastante jovem e tem ímpetos que colocam em risco a cômoda rotina da família.

É comum vê-la destroçando uma orquídea premiada da patroa ou cavando buracos no gramado recém colocado ou deixando as marcas das patas barrentas pelas paredes da casa, logo depois de as termos limpado.

Macaquices fosse uma macaca. Cachorrices, então.

Hoje pela manhã pude ver que ela puxou “papai” em alguns gostos. Separei quatro livros com todo o cuidado. Dois deles para devolver ao dono verdadeiro (Eric Novello) que, esbravejando, os pede de volta (Sábado de Ian McEwan e Trem Noturno de Martin Amis). Um para enviar ao Saint-Clair Stockler que, esbravejando, me cobra esta dívida antiga (O inquisidor de Valerio Evangelisti) e, por fim, Amor Vampiro, coletânea vampiresca organizada pela Giz Editorial, livro que separei para “tomar ar” depois de dias de chuva ininterrupta e cuja capa parecia um pouco úmida.

Trem noturno Sábado O inquisidor AMor vampiro

Os quatro livros na varanda, bem debaixo de nossos olhos, diligentemente vigiados. Mas bastou um segundinho. Ou menos. Ela fez a escolha.

Amor vampiro se transformou numa massa disforme de papel. Os vampiros, todos, devorados. E numa velocidade vertiginosa. Cristal, a caçadora de vampiros, ainda mostrou os dentes numa expressão vitoriosa poucas vezes vista antes.

Eu amo essa cachorra… Mas quase a estrangulo desta vez.