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E as boas resenhas não param!

29/04/2011

Meu romance O Peregrino tem recebido avaliações muito boas dos leitores brasileiros. O bastante para me fazer acreditar que acertei a mão ao escrevê-lo. Foram, afinal, cerca de seis meses de trabalho, numa imersão total, que inclui desde os primeiros esboços do livro com o acompanhamento dos leitores beta até o período de finalização onde todos os apontamentos foram observados e corrigidos.

Alguns capítulos desapareceram inteiros, dando lugar a outros ou simplesmente jogados fora. Mexi e remexi muitas vezes e ainda fiz passar por mais duas leituras beta depois das duas primeiras e das correções necessárias que essas leituras apontaram.

Ou seja, O Peregrino deu bastante trabalho mas foi altamente recompensador. Além das resenhas positivas feitas por Cesar Silva, Daniel Borba e Álvaro Domingos, soma-se a elas, agora, a resenha feita por Larry Nolen, editor e crítico Norte-Americano.

Ele destaca, principalmente, a qualidade da minha prosa, comparando-a, em alguns aspectos, com a de Cormac McCarthy, coisa que obviamente me deixou bastante satisfeito.

Você pode lê-la no original, aqui. Ou pode ler o texto colado abaixo, em bom português:

OfBlog – Tibor Moricz, O Peregrino (The Pilgrim)

Uma escuridão imensa.  Silêncio.  Um nada absoluto.  Foi assim por um tempo desconhecido.  Até que se iniciou um rumorejar.  Como água correndo pelo leito de um rio.  De começo uma correnteza leve.  Depois uma enxurrada que sai arrastando tudo o que encontra pelo caminho.  Estava mergulhado nela, sendo arrastado.  Ora submergindo, indo até as profundezas mais densas, ora explodindo na superficie, procurando por ar.  A água corria por leitos impenetráveis.  Embora estivesse sendo conduzido violentamente para algum lugar, era-lhe impossível determinar o seu destino.  Era-lhe impossível determinar qualquer coisa, porquanto a escuridão ainda imperasse. (p. 9)

A passagem de abertura do romance do escritor brasileiro Tibor Moricz, O Peregrino: Em Busca das Crianças Perdidas (2011) chama a atenção pela rigidez. Ao longo do primeiro terço desse romance curto (196 páginas), a narrativa de Moricz está repleta de frases curtas e afiadas que ilustram a dureza da terra pela qual perambula o peregrino do título. Esta terra é uma visão do Velho Oeste americano no século 19, através dos olhos de um estrangeiro. A leitura foi interessante pelo tanto de estranheza que causou em alguns momentos.

A história que Moricz escreveu sobre o peregrino (seu nome, embora revelado na narrativa, vai permanecer em segredo para os poucos que desejem ler o livro em português) captura essa sensação de brutalidade e estranheza no mundo que tantas vezes inspira outros a vaguearem em direção a seu abraço implacável. Não é uma história simples; há alguns apartes e passos em falso que encontrei enquanto lia. Mas foi uma história que prendeu minha atenção ao longo da narrativa.

O que mais gostei em O Peregrino foi a prosa de Moricz. Ele usa passagens curtas e descritivas para expor a sua versão do oeste americano de uma maneira que, às vezes, me fez lembrar de Cormac McCarthy. Isso não quer dizer que suas histórias sejam parecidas, mas sim que suas narrativas compartilham uma brutalidade que chega a ser semelhante. A escuridão está presente o tempo todo neste romance, desde as primeiras linhas até o final. Em alguns pontos, há um pouco de luz, mas são momentos que servem apenas para enfatizar a desolação que encontrei em várias cenas.

Um problema que tive foi com os nomes. Talvez devido a ser um escritor estrangeiro (ao menos para mim), os nomes utilizados por Moricz para várias pessoas soaram um pouco fora — às vezes inadequados — de lugar. Mas, novamente, essa sensação de “fora de lugar” não prejudicou a narrativa, mas deu-lhe uma espécie de sensação estranha ou transposta, como se o Oeste americano não fosse aquele lugar onde mitos são criados, com o qual já estou acostumado, mas tivesse sido transformado em algo menos familiar e ligeiramente mais ameaçador. Esta qualidade fez de O Peregrino um trabalho imaginativo agradável, apesar de pequenas falhas, que chamará a atenção de quem quiser ler uma história ambientada no Oeste americano, com alguns elementos de steampunk acrescentados em boa dose.
Larry Nolen

Tinham fios soltos e partes metálicas.

18/04/2011

Sorria quando chegou ao meio da escadaria. Ao fim dela estava o proprietário do Posto de Trocas. Finnegan era o seu nome. Nas mãos um rifle apontado para seu peito. Os outros homens continuavam diante dos copos, mas as armas estavam sacadas. Repousavam sobre o balcão. Os copos de bourbon estavam pela metade.

— Você não é o Harvey! – cuspiu Finnegan.

— Harvey? – perguntou sem esconder a curiosidade. Não sabia mesmo quem era o sujeito.

— O dono do cavalo lá fora.

Aí tudo começou a fazer sentido. O tal caçador de búfalos que matara era o tal Harvey. Devia ter calculado que o cavalo o levaria para um lugar conhecido. E para próximo de caras conhecidos do dito cujo.

— Era amigo, é? – perguntou, desfazendo o sorriso, antecipando problemas e se regozijando com isso.

— E dos bons – retrucou Finnegan.

— Ele está na correnteza.

— Ele está o quê? – Finnegan pareceu confuso – Você é uma espécie de maluco, é?

Não estava certo do que havia dito. Nem podia explicar o que a correnteza, qualquer uma, tinha a ver com mortes e mortos. Mas as palavras saíram-lhe da boca com naturalidade. A mesma naturalidade com que sacara e atirara em Harvey.

— Não quero confusão – disse, contradizendo sua vontade mais profunda. O olhar varreu o ambiente numa fração de segundos. Três homens armados com a atenção nele. Um deles pronto para puxar o gatilho. O que seria feito a qualquer instante.

— Só quero beber alguma coisa e ir embora – Intimamente imaginava que faria exatamente isso. Mas sem testemunhas para vê-lo partir.

Então sacou o Colt.

O rifle nas mãos de Finnegan nem chegou a disparar. O Colt foi derramando balas em sucessão espantosa. A mão apontava para todos os lados e o gatilho ia sendo puxado. A fumaça e o cheiro de pólvora encheram o Posto. Foram três balaços no Finnegan. Primeiro um, depois outro no segundo homem e outro no terceiro. Completou com mais dois quando reparou que ele não havia caído. Continuava de pé, embora meio fora de si, tremendo todo, ainda com o rifle nas mãos.

Das três balas, duas foram na cabeça. A segunda e a terceira. A primeira encheu-lhe o peito. Os homens no balcão ainda sorriam. Os olhos esgazeados. As cabeças furadas, ambas na mesma altura, entre os olhos, assim como com o tal Harvey. Derramaram-se no chão, desaparecendo atrás do balcão.

Finnegan zunia. Seus olhos reviravam. O rifle caíra. Ele cambaleava para um lado, depois para outro. Estranho e incompreensível. Apontou mais uma vez. Num dos olhos. Era para ser o derradeiro. O que põe fim à conversa. Mas foi interrompido antes do disparo. Maryanne apareceu de algum lugar e, num grito, se atirou sobre suas costas.

Foi como ser atingido por uma rocha. A mulher pesava bem mais do que fazia supor a bela figura. Desceu o que restava da escadaria, carregando-a sobre si, seus braços apertando-o num abraço sufocante. Chocaram-se contra Finnegan.

Caíram todos. Tentou se livrar, mas era como estar sendo esmagado pelo abraço de um urso. Nem titubeou. Apontou o Colt para trás, bem junto ao pescoço e disparou duas vezes. Ignorava que não deveria ter mais que uma bala disponível na câmara. Mas saíram duas. E ambas fizeram a cabeça chacoalhar o suficiente para livrá-lo do aperto. Rastejou para longe dela, se levantou e ficou observando Finnegan e a mulher soltando parafusos no chão. Era desconcertante.

Aproximou-se de ambos. O Colt bem apontado. Chutou Finnegan uma vez. Era pesadão. Cutucou a mulher. Ela idem. Não sabia o que eram os dois. Tinham fios soltos. Partes metálicas. Balbuciavam coisas sem sentido. Não sabia se coisas como essas podiam ser mortas. Não eram humanos. Não eram mesmo.

Voltou a atenção aos dois homens caídos. Eram aparentemente normais. Sangraram, deixando uma poça grande no chão. Os copos de bourbon sobre o balcão. Seus olhos lacrimejaram, mas bebeu o que havia neles e ainda o que sobrava numa das garrafas. Arrotou, enfiando o Colt no coldre, não sem antes abrir o tambor e verificar que estava carregado. Como se não tivesse disparado nenhuma bala.

Saiu do Posto e deu de cara com um garoto. Olhos esbugalhados. Olhando-o como se estivesse diante de uma aparição. Não sabia há quanto tempo estava lá, vendo tudo, assistindo a tudo. Ponderou se devia matá-lo também. Não fez isso.

— Que gente é aquela? – Perguntou indicando o Posto com o queixo.

O menino permaneceu mudo.

— Quem é você?

O menino piscou os olhos, rápido.

— Ajudante. Fico nas máquinas.

— Maquinas?

Parou de piscar e olhou para o Colt. Absorto pelo brilho do metal.

— Pra que lado encontro a cidade?

— Siga para Leste na direção das colinas. Downtown fica depois da Garganta do Enlouquecido.

Montou, esporeando o cavalo, que saltou para frente seguindo na direção das colinas que nem estavam tão longe. O bourbon ainda lhe queimava a garganta.

O Peregrino, em busca das crianças perdidas dá a cara a tapa.

25/03/2011

Meses atrás tive uma ideia que julguei interessante: reunir um grupo de resenhistas para ler e avaliar O Peregrino, em busca das crianças perdidas, com o intuito de divulgar suas impressões antes da distribuição oficial do livro.

Mas a proposta era de que essas resenhas só fossem publicadas se o livro de fato merecesse elogios. Pode parecer estranho, mas minha intenção era/é a de usar as resenhas como ferramenta de marketing. Isso não significa que se o livro não causar boa impressão, eles deixarão de resenhá-lo. Vão. Mas publicarão a crítica, nesse caso, só depois do lançamento.

Nunca pedi a ninguém que me fizesse resenhas positivas na base da amizade e nunca vou pedir. Não me presto a canastrices.

Assim sendo, os resenhistas/críticos aceitaram a missão e trataram de ler o original em PDF que lhes enviei e logo vocês terão a oportunidade de saber o que pensam a respeito de O Peregrino, em busca das crianças perdidas.

Quem são eles? Ficarão sabendo na semana que vem.

Cada resenha será postada no blog de domínio do resenhista contatado num dia diferente, começando na segunda-feira, dia 28 de março.

Encontraremos-nos lá.


Pedro Moreno

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